perspectivas

Sábado, 17 Outubro 2009

Obama está a perder a batalha da Europa

putin-hillary

O recente episódio do abandono de aviões da força aérea de Israel em manobras conjuntas da NATO na Turquia, é a ponta do icebergue de uma situação problemática que não só compromete a manutenção do nível tradicional da influência dos Estados Unidos na Europa, como pode ser entendida como um sinal da expansão dos interesses russos nessa região. Para além do problema da economia mundial e do financiamento da crise internacional, existem problemas políticos e geo-estratégicos que limitam naturalmente a influência americana na Europa, para além dos erros crassos que Obama tem cometido na sua política externa.

Se considerarmos o recente fracasso de Hillary Clinton na sua viagem à Rússia onde não conseguiu o apoio russo para uma pressão política em relação ao Irão, que assim prossegue tranquilamente a sua odisseia nuclear, constatamos a consequência de um dos erros de Obama: este anunciou unilateralmente a retirada do seu programa de defesa balística na Polónia e na república Checa, ao mesmo tempo que pedia em troca à Rússia o seu apoio na pressão política em relação ao programa nuclear do Irão. O resultado da política apaziguadora de Obama foi que o cancelamento do seu programa de defesa balística na Europa não teve nenhuma consequência política positiva para os Estados Unidos senão o que resulta de uma eventual redução da despesa militar americana.

Com excepção de Inglaterra, os países do leste europeu, e de alguns países europeus pequenos tradicionalmente aliados dos EUA ― como é o caso de Portugal ―, a maioria dos países europeus têm uma esquerda anti-americana, e uma direita desconfiada e pragmaticamente anti-americana entre outras razões porque está rendida aos interesses económicos vitais do gás natural russo. Países como a Alemanha e a França não alteraram, na sua prática política em relação aos EUA, uma vírgula depois que Bush saiu e entrou Obama; foi Obama que alterou o estilo ― mas não a essência política ― que Bush tinha adoptado em relação à Europa. E para além dos tradicionais aliados na Europa, o EUA conta com o tradicional apoio turco no Cáucaso.

Exactamente devido à sua política em relação à Turquia, Obama tornou-se, a longo prazo, mais pernicioso para a Europa do que George W Bush. A política de Bush tinha sido a de um apoio à entrada da Turquia na União Europeia como membro de pleno direito, o que significa não só a adopção do Euro como a ratificação do tratado de Schengen por parte daquele país asiático. Podemos, em consequência, vislumbrar o potencial de imigração que um país com mais de 80 milhões de habitantes não europeus, de cultura muçulmana e com um baixo rendimento per capita poderia ter no mapa político, cultural e económico europeu. Porém, a política de Bush em relação à Turquia não passou na prática de um processo de intenções, ao passo que Obama radicalmente mudou a agulha de orientação da política externa americana da Europa para a Turquia, que como sabemos é um país muçulmano e onde o laicismo é mantido através de uma férrea vigilância militar.

Obama não só continuou a política de Bush no apoio da entrada da Turquia na União Europeia como a reforçou de tal forma que a Turquia já se sente hoje à vontade para exercer e impôr os seus critérios particulares na política da NATO, como aconteceu com o convite à saída da força aérea israelita de manobras conjuntas da NATO. O apoio de Obama à Turquia é de tal forma que este país se permitiu vetar o nome do dinamarquês Anders Fogh Rasmussen para o cargo de secretário-geral da NATO, alegando que a Dinamarca tinha sido o país dos cartoons sobre o profeta Maomé; e a Turquia conseguiu o segundo lugar na hierarquia de comando político-militar da NATO.

A política de Obama de subvalorização da importância estratégica da Europa, por um lado, e de sobrevalorização da importância da Turquia, por outro, tende a agudizar o problema do Cáucaso, na medida em que demonstra a afirmação da fraqueza política americana ― que se traduz em uma fraqueza na decisão militar ― ao mesmo tempo que incentiva os protagonistas locais no Médio Oriente a agirem por contra própria em políticas que limitem a acção política da Rússia, sendo que Obama lhes promete apoio logístico e político. O resultado disto é que as clivagens históricas e culturais do próximo-oriente vêm à tona, e a Turquia que foi um aliado de Israel praticamente desde a fundação do Estado judeu, cede agora à política integrista e integralista islâmica que considera Israel como um Estado pária na região. E tudo isto acontece quando a Turquia recebe ainda um maior apoio dos EUA à entrada para a União Europeia.

Não tardará muito tempo para que os europeus cheguem à conclusão de que, mal por mal, a abordagem política de Bush era, apesar da sua idiossincrasia retardada, mais consentânea com os interesses europeus. Como diz o povo: “Depois de mim virá, quem de mim bom fará.”

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