perspectivas

Sexta-feira, 9 Outubro 2009

O problema da liberdade e da autoridade (5)

Filed under: filosofia,Política — orlando braga @ 5:38 pm
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« A acção, na medida em que é livre, não sofre a orientação do intelecto nem o ditame da vontade.»
— Hannah Arendt (Between Past and Future ― 1961)

O que Arendt diz aqui é que o acto, sendo livre, é independente do intelecto e da vontade de quem o pratica. Por outras palavras: se alguém pega numa pistola e dá um tiro nos miolos num vizinho, esse acto, sendo livre, não sofre a orientação do intelecto nem se sujeita à vontade de quem o praticou. O resultado prático da conclusão de Hannah Arendt é o de que a liberdade é inimputável.

Hannah Arendt

Hannah Arendt, final dos anos 40

Esta conclusão de Hannah Arendt é “genial” e simultaneamente contraditória e ilógica.
Genial porque Hannah Arendt chega à conclusão de que o Homem é um animal irracional, o que diz bem do conceito que ela tinha de si própria.
Contraditória porque Hannah Arendt passou metade do seu tempo a criticar a acção do totalitarismo nazi para depois a legitimar na medida em que separa a acção, da razão e da vontade, ou seja, a partir da sua conclusão, o nazismo está desculpado.
Ilógica porque atribui a causa da liberdade, à acção, da mesma forma que ela poderia atribuir a causa do funcionamento dos seus olhos ao acto de ver. Para Hannah Arendt, a causa do funcionamento das suas pernas é o seu acto de andar; através da acção de caminhar, ela justificava todo o sistema de locomoção humano.

Gostaria que alguém me beliscasse, porque o pesadelo deste raciocínio de Hannah Arendt me parece real.

A mistura cultural letal e explosiva de Hannah Arendt, teve como causa o facto de ela ter sido mulher, por um lado, e judia “comida” alternada ou simultaneamente por nazis e marxistas, por outro (ela estava casada com um marxista e andava a ser “comida” entre outros por Heidegger, que foi oficial nazi; Hannah Arendt foi das poucas pessoas de que tive conhecimento que conseguiu, na sua “prática política”, conciliar os contrários). Só é possível compreender Hannah Arendt à luz da sua filosofia de vida, isto é, da sua idiossincrasia.


Uma das confusões de que se servem os teóricos políticos modernistas para defender o princípio segundo o qual a liberdade é produto da acção, e não uma consequência da vontade, é tentar confundir “vontade” com “desejo”. O desejo remete para uma inclinação ou tendência para um objecto, na expectativa de uma satisfação imediata dos sentidos; o desejo não implica necessariamente a acção. A vontade supõe sempre a entrada em acção através de um intelecto que coloca um objectivo para essa acção através da elaboração de meios necessários para o atingir. O desejo é instintivo, a vontade é intuitiva. A acção é produto da liberdade, e esta é um efeito da vontade por intermediação do intelecto (Duns Escoto).

Agimos porque somos livres, e não somos livres porque agimos!

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