perspectivas

Quinta-feira, 1 Outubro 2009

“Casamento” gay: a irracionalidade abençoada

“Conceder a liberdade ao mundo pela força é uma estranha empresa, cheia de maus auspícios. É que, quando a damos, tiramo-la.”

(Jean Jaurés)

Absurdo com pernas

Absurdo com pernas

Estranho tempo o nosso em que a liberdade é utilizada para paulatinamente se ir promovendo os valores da tirania. Desde o tempo da economia clássica e de Marx que os valores ― que incluem não só os valores materiais como também os valores das ideias ― passaram a ser “valores de troca” que reflectem exclusivamente o valor que as coisas têm na sociedade; o próprio Marx chamou à atenção para isto quando atribuiu a primazia ao “valor de uso” que é o valor das coisas enquanto produzidas e utilizadas pelo Homem e que não são eminentemente permutáveis ou vendáveis, em detrimento do “valor de troca”. Assim o detentor de valores, no sentido da tradição, em que o Homem se concebia numa situação de constante tensão entre opostos ― o positivo e o negativo, o bem e o mal ―, e na medida em que recusa atribuir aos seus valores o estatuto de “valores de troca” mas julgando-os como “valores de uso”, recusando transformá-los em valores passíveis de ser permutados por outros valores como simples mercadoria ― per exemplo, pela conveniência ou pelo poder ―, essa criatura é hoje apodada de “idealista”.

Ao lermos este postal do Pedro Picoito, verificamos que o idealismo lhe pertence na realidade através não só na utilização dos valores das ideias como estritamente concebidos como “valores de uso”, mas também através da recusa da concepção das ideias como valores permutáveis por conveniências e Poder. E, pelo contrário, quem alegadamente defende pretensos “direitos civis” ao “casamento” gay utiliza os valores como “valores de troca”. Não há absolutamente nada de idealista no activismo gay, mas apenas a expressão da consequência histórica e cultural do equívoco profundo que marcou a tentativa mal sucedida das rupturas de Karl Marx e Nietzsche em relação à essência da natureza humana.

A partir do momento em que os valores passaram a ser todos, e sem excepção, “valores de troca”, qualquer grupo de cidadãos pode unir-se na reivindicação de um qualquer “direito” que nunca tenha existido e que julgue legítimo e conveniente, por mais abstruso, absurdo e anti-social que esse “direito” reclamado possa ser. Assumir politicamente uma posição sociopata passou a ser não só um direito, como a defesa da sociopatia passou a ser um “valor de troca” por conveniências de circunstância e de Poder. Os valores das ideias passaram a ser meros valores funcionais. A desvalorização nietzscheana dos valores, assim como a teoria marxista do valor-trabalho que reduz toda a realidade humana a um valor invariável que serve de padrão constante ― o tempo de trabalho ―, teve como corolário a irracionalidade instituída no século XX que esteve na origem dos totalitarismos que aniquilaram mais de 200 milhões de pessoas.

“A liberdade não está no princípio, mas no fim. A liberdade é o fruto da ordem” (Pierre Gaxotte)

Tal como a visão marxista, que era de ruptura com a natureza humana, não encarava a “igualdade do homem” ou a “dignidade inata” como um mero problema de justiça, que pudesse ser resolvido dando à classe trabalhadora aquilo que lhe era devido, mas antes inserindo na realidade uma incompatibilidade fundamental entre a concepção tradicional da natureza humana e uma outra, marxista, que negava a natureza humana tal qual ela sempre existiu pelo menos desde que a História é escrita ― assim o activismo gay não pretende resolver questões de alegada “igualdade do homem” ou de “dignidade inata” dos homossexuais, mas antes pretende tão só introduzir uma incompatibilidade fundamental na concepção tradicional e histórica do ser humano. Assim, quando o Pedro Picoito tenta a argumentação contraditória em relação à de determinados activistas gay ― de uma forma muito polida e educada, coisa que eu não faço entre outras razões porque S. Tomás de Aquino dizia que não devemos respeitar quem não merece respeito ―, ele parte de uma realidade conceptual totalmente diferente da dos seus interlocutores, e portanto, o diálogo será sempre de surdos. Não existe absolutamente nenhuma possibilidade de diálogo porque a própria concepção do ser humano ― na sua essência e identificação ― segundo o activismo gay é fundamentalmente incompatível com a visão do Homem que sempre existiu e que se traduz na chamada “tradição”. O problema que está em cima da mesa não é o da “dignidade” ou do pretenso “direito legítimo” dos gays ao casamento, que fácil e racionalmente pode ser desconstruído, e que por isso pode ser discutível à luz da razão; é antes a ruptura fundamental que impõe apenas e só uma de duas soluções: ou a ditadura crescente e afirmativa de uma minoria sobre a maioria, ou a ditadura da maioria sobre a minoria. O activismo gay não nos oferece qualquer outra alternativa e empurra a sociedade para só uma das duas soluções.


As contradições de Karl Marx e de Nietzsche são de tal forma evidentes que podemos dizer que parte da estrutura do pensamento moderno está escorada no absurdo.

Quando Nietzsche proclamou que havia descoberto “novos e mais altos valores”, passou a ser a primeira vítima moderna das ilusões que ele próprio pretendeu destruir (em relação à “tradição”), na medida em que introduziu apenas ― e nada mais do que isso ― o relativismo e a permutabilidade dos valores para os temas da filosofia tradicional, ou seja, criou uma hedionda e nova forma de conceber a transcendência do Homem. Nietzsche não acabou com a transcendência nem o poderia fazer sem acabar com a própria realidade em que ele se movia; assim, e em acto de desespero pela impossibilidade objectiva de ruptura radical com a tradição, colocou-a de pernas para o ar.

As contradições de Karl Marx não são de menor valia. Se o trabalho é a mais humana e mais produtiva das actividades do Homem, que acontecerá quando, após a revolução, “o trabalho for abolido” no “reino da liberdade” ― quando o Homem se conseguir emancipar dele? Que actividade produtiva e essencialmente humana lhe restará? Se a violência é a parteira da História, que acontecerá quando, terminada a luta de classes e abolido o Estado, nenhuma violência for mais possível? E quando, no seguimento do processo revolucionário, a filosofia tiver sido, de um só golpe, materializada e abolida na sociedade futura, o que pensarão os homens? Que tipo de pensamento restará? Será a abolição marxista da filosofia a afirmação do robotismo humano?

Perante tantas e tão evidentes contradições, a irracionalidade da ruptura com a essência da natureza humana assumiu contornos mais sofisticados através de António Gramsci (ler este excelente artigo a este respeito) e da escola de Frankfurt. Hoje, já não convém à metanóia modernista invocar as contradições de Karl Marx e de Nietzsche: o socialismo fabiano adoptou Gramsci, e é neste contexto que devemos entender o partido socialista de José Sócrates.

A ler:

5 comentários »

  1. E no entanto não deixa de ser sintomático o paralelismo da defesa do casamento gay com o extermínio de 200 milhões de pessoas. «a “dignidade” ou do pretenso “direito legítimo” dos gays ao casamento, que fácil e racionalmente pode ser desconstruído, e que por isso pode ser discutível à luz da razão» – Não podem todos, de resto?

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    Comentar por AMorais — Quinta-feira, 1 Outubro 2009 @ 1:03 pm | Responder

  2. Amorais:

    Se Vc não percebeu o e essencial e se atém ao secundário, o que lhe posso fazer? A verdade é que as mesmas ideias que estiveram por detrás dos totalitarismos são aquelas mesmas que estão por detrás da desconstrução cultural de esquerda que levam, por exemplo, ao “casamento” gay, ao aborto generalizado como remédio para salvar o planeta, à eutanásia legalizada, ao infanticídio de deficientes como já acontece hoje na Holanda (o eugenismo é socialista), o feminismo radical, etc..

    A ideia é minar a sociedade no seu âmago se possível sem deixar impressões digitais e atribuindo a razão das coisas ao “progresso”. E depois da sociedade minada, segue-se a segunda fase: a atomização da sociedade (por favor, ler Hannah Arendt). E depois da sociedade atomizada, os iluminados impõem, sem nenhuma resistência, a ditadura. Isto é dos livros; basta só seguir o manual de instruções. Naturalmente que Vc não acredita nisso porque a sua crença se dirige exclusivamente para um novo clero que pulula entre as universidades e os aparelhos de Estado, e que tem reconhecidos pergaminhos e alvarás de inteligência; contudo, esse novo clero não faz outra coisa senão seguir a agenda, porque se não o fizesse não existiria como novo clero.

    E não podem ser todos, não senhor. O casamento é como as pessoas: há uns mais iguais que outros. Mas você tem razão numa coisa que implicitamente disse: se o casamento é tudo, passa a ser coisa nenhuma. E para isso é que existe o “casamento” gay como direito negativo em oposição ao casamento que garante o futuro da sociedade, isto é, como direito positivo. O trabalhinho é esse mesmo.

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    Comentar por O. Braga — Quinta-feira, 1 Outubro 2009 @ 6:02 pm | Responder

  3. Gostaria de convidá-lo a participar do nosso fórum, onde iremos centralizar discutição sobre todos os assuntos que você e eu tratamos em nossos forums.

    http://www.antinovaordemmundial.com/forum

    Também iria encarecidamente pedir para colocares o banner para o Fórum:

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    Comentar por emerson — Quinta-feira, 1 Outubro 2009 @ 6:50 pm | Responder

  4. Eu reconheço a lógica e até alguma verdade em tudo o que disse. Só que a descontrução social e cultural tem o mesmo destino da positivação do casamento como uma espécie de direito natural ou divino: o totalitarismo. Cada sistema, levado às últimas consequências, redunda no totalitarismo. O papel dos catastrofistas, embora marginal, é da maior importância para o equilíbrio dos opostos. O meu amigo tem todo o meu respeito e admiração.

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    Comentar por AMorais — Sexta-feira, 2 Outubro 2009 @ 11:51 am | Responder

  5. Amorais

    Você parece obcecado com o direito divino; tire isso da cabeça porque desde John Locke que já não há o direito divino dos reis. Uma coisa é falar de filosofia outra coisa é falar de religião.

    Quando me refiro ao casamento tenho em mente a História, a Natureza (e as leis naturais) e a Ética (que é uma componente da filosofia). Na História, e mesmo na Antiga Grécia, nunca houve “casamento” gay com consequente adopção de crianças, para além do casamento ser anterior ao Estado. Na Natureza, a heterossexualidade é norma para a sobrevivência das espécies. Na ética, negar um pai e uma mãe a uma criança é um crime monstruoso.

    Portanto, o único sistema que você critica aqui é o sistema natural (a própria natureza) porque eu não me referi a outro. Você inventou um sistema que colocou como sendo de minha autoria, sem que eu me referisse a ele minimamente.

    Aliás, quando eu falo aqui em “tradição” refiro-me ao pensamento grego que foi depois adoptado pelos romanos como sendo “a tradição”. Não tem nada a ver com tradição eclesiástica, mas tudo a ver com tradição filosófica e cultural que vem directamente dos gregos.

    Quando uma pessoa não tem argumentos, rotula. Dou um exemplo:

    Amorais dixit:

    ― O Orlando diz que A = A
    ― O Orlando é catastrofista;
    ― Logo, o Orlando não tem razão.

    E assim se refuta um argumento de forma a enganar os estúpidos ― que são muitos, infelizmente. É a táctica de esquerda: o ataque ad Hominem.

    Nota: quando eu digo que uma criança precisa de um pai e de uma mãe, o que eu quero dizer é que uma criança precisa das figuras dos dois sexos presentes na sua educação familiar (não têm que ser necessariamente o pai biológico e a mãe biológica).

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    Comentar por O. Braga — Sexta-feira, 2 Outubro 2009 @ 4:48 pm | Responder


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