perspectivas

Sábado, 19 Setembro 2009

Os interesses de Espanha são incompatíveis com os interesses de Portugal, senão com o sacrifício do país mais pequeno (2)

Filed under: Europa,josé sócrates,Maçonaria,Portugal — O. Braga @ 10:26 am
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É preciso que os jovens portugueses conheçam a História e aprendam com ela. A História não se repete senão quando tende a repetir-se.

Quando, em 1580, Filipe II de Espanha jurou ao povo português, nas Cortes de Tomar, que se estabeleceria um sistema de “dois Estados, um Rei”, o povo português aclamou Filipe II de Espanha com o nome de “Filipe I de Portugal”. A ideia popular ingénua segundo a qual a nação portuguesa seria respeitada levou a que o povo português aclamasse o monarca espanhol.

A queda de Miguel de Vasconcelos e Brito

A queda de Miguel de Vasconcelos e Brito

Porém, logo o rei espanhol esqueceu o seu juramento. O governo português em Lisboa passou a ser um pró-forma: não decidia nada e apenas e só cumpria as ordens do governo de Madrid. A elite portuguesa ― desde a nobreza até à intelectualidade passando pelos burgueses mais abastados e homens de negócios, e em função das garantias de altas compensações financeiras e redução de impostos (era o offshore daquela época) que recebiam por parte do primeiro-ministro espanhol, o Conde-Duque de Olivares ― era aliciada para se mudar de Lisboa para Madrid com armas e bagagens. Em resultado disto, Lisboa passou a ser uma cidade colonial e ultramarina, a sua economia degradou-se a um ponto miserável, as receitas fiscais portuguesas eram comparáveis à de uma pequena colónia asiática.

Apesar desta degradação da economia, os impostos sobre o povo português aumentavam a cada ano que passava. O povo permanecia num desespero silencioso, vergado pela brutalidade dos impostos vindos do governo de Espanha que manifestava sistematicamente atitudes de desprezo, vexame e novas extorsões para alimentar a guerra dos Trinta Anos a que Portugal era totalmente alheio. Os espanhóis chegaram ao ponto de cobrar um imposto aos portugueses por estes beberem água ― o chamado “real de água”; o simples facto de os portugueses serem obrigados a beber água das fontes deu azo a mais um imposto espanhol em Portugal.

Em 1632, o juiz do povo de Lisboa enviou um relatório para o governo de Madrid onde demonstrava, através da linguagem dos números, que os impostos pagos pelo povo português eram os mais altos de todo o Império espanhol: o povo português estava a sustentar a “boa vida” espanhola.

Sob o ponto de vista militar, Espanha desbaratou as nossas defesas. Em Lisboa, não existiam armas, munições ou soldados. Porém, de Portugal eram levados à força os nossos melhores jovens para as guerras espanholas com os ingleses, holandeses, suecos, dinamarqueses e alemães. Espanha estava em guerra com todo o mundo, e os homens válidos do nosso país iam morrer ou estropiar-se nos campos da guerra espanhola.


Hoje, as “guerras” são outras, mas não deixam de ser guerras; as coisas não tendem a passar-se de igual modo porque a História não se repete literalmente. Mas o espírito da ignomínia mantém-se quando vemos, por exemplo, a GALP portuguesa vender a gasolina mais cara em Portugal do que em Espanha: alguém está a pagar muito mais para que alguém pague menos. A lei de mercado é apenas uma justificação para a manutenção de disparidades estruturais intencionais que deslocalizem as decisões corporativas de uma capital para a outra.

Encontramo-nos hoje e apenas no início de um novo ciclo de vexame nacional quando se defende que uma ligação de TGV de Lisboa à Europa passe única e necessariamente por Madrid, seguindo a mesma lógica da ligação Sevilha / Madrid. É preciso ter a lucidez e a coragem para dizer claramente que, nessas condições, prescindimos do TGV ao mesmo tempo que melhoramos as linhas nacionais que já temos, como a do Alfa Pendular.

É preciso que os jovens portugueses conheçam a História e aprendam com ela. A História não se repete senão quando tende a repetir-se.

3 comentários »

  1. […] Quanto ao “legitimismo” de Filipe II e sucessores até Olivares, ver este postal. […]

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    Pingback por Os interesses de Espanha são incompatíveis com os interesses de Portugal, senão com o sacrifício do país mais pequeno (3) « perspectivas — Domingo, 20 Setembro 2009 @ 2:27 pm | Responder

  2. […] Os interesses de Espanha são incompatíveis com os interesses de Portugal, senão com o sacrifício… […]

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    Pingback por Os interesses de Espanha são incompatíveis com os interesses de Portugal, senão com o sacrifício do país mais pequeno (4) « perspectivas — Domingo, 20 Setembro 2009 @ 5:10 pm | Responder

  3. […] Os interesses de Espanha são incompatíveis com os interesses de Portugal, senão com o sacrifício… […]

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    Pingback por O nacionalismo português incomoda Espanha? « perspectivas — Quinta-feira, 24 Setembro 2009 @ 10:28 pm | Responder


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