perspectivas

Quinta-feira, 17 Setembro 2009

Anselmo de Aosta e a refutação de Hellin

Filed under: filosofia — O. Braga @ 6:52 pm
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Este postal (e este) sobre o filósofo Mário Ferreira e a prova ontológica de Santo Anselmo ― que é mais um “princípio” do que uma “prova” ― é interessante. Entretanto, chamou-me à atenção a refutação de Hellin.

Refutação de Hellin – em nenhuma proposição, o predicado pode ter maior realidade que o sujeito. A prova de Deus não pode depender do predicado a priori, “máximo excogitável”, (este precisa ser demonstrado a posteriori).
Tais argumentos servem como objecção também às defesas de Leibniz e a Descartes.


Desde logo, é impossível fazer a “prova” directa da existência de Deus. Porém, o argumento cosmológico prova de facto a existência de um desenho inteligente no universo, o que significa que a “prova” da existência de Deus é feita por via indirecta, isto é, por dedução lógica.

Tomemos por exemplo a constante gravitacional G: ela é de cerca de 6 * 10^-11, o que dá qualquer coisa como 0,00000000006 ― o que significa que a gravidade é a força mais fraca de todas as forças fundamentais. Contudo, se G fosse milimetricamente maior do que 0,00000000006, as estrelas teriam sido formadas com tal vigor que se transformariam em anãs brancas, em vez de anãs amarelas como é o caso do nosso sol. As estrelas anãs brancas produzem calor mas não duram o suficiente para permitir a evolução da vida em qualquer sistema solar. Se G fosse milimetricamente mais pequena, então as estrelas tornar-se-iam gigantes vermelhas que seriam demasiado frias para permitir a vida. Para além da constante gravitacional, existem muitas outras constantes que, de igual modo, corroboram um desenho inteligente do universo: por exemplo, a constante de Planck, a massa de um protão, a constante de Boltzmann, etc. Centenas de constantes formaram-se no primeiro micro-segundo depois da Singularidade do Big Bang.


Em relação à refutação de Hellin: vamos ver o argumento da constante cosmológica.

O biofísico Alfred Gierer chamou à atenção para uma dificuldade particular: a densidade média da matéria no universo foi calculada com base em medições astrofísicas, e aquela é da ordem de uma partícula elementar longeva [protão, neutrão, electrão, etc.] por metro cúbico; considerando a dimensão do universo, resulta daí um número total de cerca de 10^80 (1 seguido de oitenta zeros) de partículas no universo.
Se multiplicarmos este número pela idade do universo: 20 mil milhões de anos-luz = 10^40 (1 seguido de 40 zeros) períodos elementares [período mínimo de estabilidade de partículas elementares], obtém-se o número 10^120 (1 seguido de 120 zeros) que corresponde à constante cosmológica da natureza (que se designa pelo símbolo Λ).
Este número Λ representa o limite superior lógico para o trabalho de cálculo de um computador cuja dimensão e idade seriam iguais a todo o universo, que efectuasse cálculos ininterruptamente desde o início da sua existência, e cujos elementos constitutivos fossem partículas elementares longevas individuais.
Portanto, podemos dizer que Λ é o “máximo excogitável” do universo, como é também o máximo da realidade da existência do universo ― nada é possível, em termos do espaço-tempo, acima de Λ.

Agora, atentemos à seguinte proposição:

«10^120 é o máximo excogitável do universo.»

.
Segundo, Hellin, esta proposição está errada não obstante ser baseada em dedução lógica. A conclusão a que podemos chegar é de que não é necessário que o sujeito tenha, a priori, menor realidade do que o predicado; o que é necessário é que a proposição tenha um desenvolvimento lógico que suporte e justifique a superioridade do predicado em relação ao sujeito. Ora, essa demonstração a posteriori — no caso da prova ontológica de Anselmo — é feita através do argumento cosmológico.

A proposição 10^120 é o máximo excogitável do universo” pode ser entendida e compreendida com a explanação do conceito de constante cosmológica do universo (Λ). Hellin partiu de um sofisma da razão.

1 Comentário »

  1. […] Num próximo postal irei falar dos detractores deste princípio ontológico — é mais um princípio do que uma prova — fazendo a ligação com a filosofia quântica e com a série de postais com o título genérico “A teoria das propensões de Karl Popper”. Entretanto, será de interessante leitura: Anselmo de Aosta e a refutação de Hellin. […]

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    Pingback por Santo Anselmo de Aosta e o argumento ontológico « perspectivas — Segunda-feira, 27 Dezembro 2010 @ 5:21 pm | Responder


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