perspectivas

Quarta-feira, 16 Setembro 2009

A modernidade de Anselmo de Aosta

Filed under: filosofia — O. Braga @ 3:47 pm
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Santo Anselmo de Aosta é de extrema importância na história da filosofia quanto mais não seja por ter sido o precursor da investigação na Idade Média. Porém, aprendemos que Anselmo partiu da fé para a razão que ajuda o crente a compreender a sua própria fé; eu não creio que assim seja. Se intercruzarmos a filosofia quântica com a de Anselmo, verificamos que a relação entre a fé e a razão é biunívoca.
Por exemplo, quando Anselmo diz que “Deus cria constantemente”, podemos encontrar um conceito idêntico na quântica através do conceito da “espuma quântica” [John Wheeler] que consiste numa infinidade de mini-buracos negros à escala quântica, através dos quais a função ondulatória quântica [que não é matéria porque não tem massa] interage com a Singularidade em fluxos contínuos não só desta para o espaço-tempo, como do espaço-tempo para a Singularidade. Através deste fluxo contínuo bi-direccional, não só o universo é constantemente recriado como é mantido [conservado] através de uma quantidade incomensurável de colapsos de funções quânticas ― exactamente o que defendia Anselmo quando dizia que Deus criou, recria e mantém [conserva] o universo.

Poderia dar muitos outros exemplos de identificação entre Anselmo e a filosofia quântica ― como por exemplo a noção de Anselmo sobre o “Nada” que corresponde ao estado anterior ao Big Bang, ou seja, à ausência do espaço e do tempo. Para Anselmo, o “Nada” não é a ausência de “Tudo”, mas simplesmente a ausência do espaço-tempo tendo como pressuposto a pré-existência da Singularidade anterior ao Big Bang [que é a conclusão da filosofia quântica]. Para um homem que viveu no primeiro século do segundo milénio, esta conclusão ― embora com palavras da sua época ― é simplesmente extraordinária.

A ideia da inerência da qualidade relativa à qualidade absoluta é uma marca de Anselmo. Não é possível nós atribuirmos graus de qualidade ― por exemplo, a beleza ― às coisas sem criarmos uma hierarquia, mesmo que o critério de atribuição dessa hierarquia seja subjectivo. Por exemplo, podemos dizer que a actriz A é mais bela que actriz B; mas nunca podemos afirmar com segurança que não existiu, existe ou existirá uma actriz C que será ainda mais bela que as duas anteriores. Isto significa que a qualidade ― o Valor ― tende para a sua absolutização; o relativo implica o absoluto, porque há sempre a possibilidade de um grau maior de qualidade ou de Valor.

A partir do momento em que a qualidade relativa pressupõe a possibilidade da existência de um grau superior dessa mesma qualidade ― mas que não existe na nossa realidade porque se existisse passaríamos a pressupor um grau ainda superior dessa mesma qualidade ― podemos extrapolar e pensar num conceito dessa qualidade que assuma contornos de maior perfeição ― por exemplo, e referindo-me à beleza, podemos pensar a mulher X como sendo a mulher mais perfeita; a actriz X seria a mulher em relação à qual poderíamos pensar [intelecto] que não existiria maior perfeição. Porém, se podemos pensar que a beleza da mulher X é a maior beleza de que se pode pensar, esse conceito de beleza não é só intelectual mas real, porque se fosse somente intelectual sempre poderíamos pensar a possibilidade de existir ainda a mulher Y segundo a qual a beleza seria ainda maior ― o que significa que púnhamos a hipótese de a beleza maior possível, ser passível de ser ainda maior, o que é um absurdo. Portanto, conclui Anselmo que a qualidade e/ou Valor em relação aos quais não é possível nada maior, existem não só no nosso intelecto como existem na realidade.

Dizem os detractores de Anselmo que este conceito não é uma prova ontológica mas um princípio, porque a existência do Absoluto [Deus] que se pretende deduzir está implicitamente contida na definição do Absoluto em relação ao qual nada maior se pode pensar [círculo vicioso], e por isso, implícito no nosso pensamento sobre Absoluto.

Porém, mais uma vez a filosofia quântica ― através de recurso a dados da astrofísica ― prova que Anselmo tem razão, na medida em que demonstra que no nosso universo existe o “limite do possível” que corresponde à “constante cosmológica” [10^120 = 1 seguido de 120 zeros] que determina que nada maior pode existir no nosso universo espaço-temporal que ultrapasse a constante cosmológica. A partir do momento em que se evidencia que no espaço-tempo nada maior existe na realidade do que a constante cosmológica, logicamente se deduz que na Singularidade [que é aquilo que está fora do espaço-tempo e que constitui os diversos graus da transfísica] esse Algo [Deus] em relação ao qual nada maior pode existir é também uma realidade, e não só produto do nosso intelecto.

Portanto, quando se diz que Santo Anselmo partiu da fé para a razão, essa afirmação só é válida se não tivermos em consideração as ciências dedutivas modernas. De facto, em Anselmo a relação entre a fé e a razão é biunívoca.

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