perspectivas

Segunda-feira, 14 Setembro 2009

O ilogismo de Richard Dawkins (2)

O Novo Papa

O Novo Papa

No postal anterior referi-me a uma proposição de Richard Dawkins exarada do seu novo livro [The Greatest Show on Earth: The Evidence for Evolution]. Hoje vamos analisar mais algumas contradições do zoólogo.

Dawkins afirma que o livro “não tenciona ser um livro anti-religioso” e que “nenhum leitor de mente aberta acabará de ler o livro duvidando da veracidade do seu conteúdo”: Richard Dawkins em soft mode (lobo com pele de cordeiro).

Do mesmo livro pude retirar algumas proposições mais:

  1. A evolução é uma teoria no mesmo senso em que o heliocentrismo o é.
  2. No que diz respeito ao argumento segundo o qual a evolução nunca foi “provada”, a prova é uma noção que os cientistas remeteram para o cepticismo. Filósofos influentes dizem-nos que, em ciência, não podemos provar seja o que for.
  3. Os matemáticos podem fazer prova das coisas ― de acordo com uma visão estrita, eles constituem-se na única comunidade que o pode fazer…
  4. Mesmo a teoria indisputável segundo a qual a lua é mais pequena que o sol, não pode ― em relação aos critérios satisfatórios de um determinado tipo de filósofos ― ser provado da mesma forma que, por exemplo, o teorema de Pitágoras. Mas a evidência apoia esse facto de uma forma tão sólida que negar-lhe o estatuto de facto passa a ser ridículo excepto para os pedantes. O mesmo se aplica à verdade da evolução.
  5. A evolução é um facto no mesmo sentido em que é um facto de que Paris se encontra no hemisfério norte…


Eu dividi o texto em alíneas para ser mais perceptível a análise do mesmo (o chamado “fisking”).

Naturalmente que quando Richard Dawkins se refere à evolução, quer dizer que esta consiste na formação da vida a partir da matéria amorfa e sem vida. É este o conceito e sentido de “evolução” que está aqui em causa, e não a adaptação evolutiva ao meio-ambiente (nada de confusões!).


Richard Dawkins utiliza aqui nos seus argumentos as categorias da “prova” e da “crença como verdade adquirida”, fazendo analogias entre os diferentes conceitos e a evolução. A abordagem de Richard Dawkins, como podemos constatar, é puramente filosófica; por isso, podemos tentar encontrar nas suas proposições as contradições necessárias para as reduzir ao absurdo.

Richard Dawkins constata a dificuldade real das ciências experimentais: qualquer experiência que seja concludente é apenas uma confirmação, e não uma prova (alínea 2). Depois (alínea 3) constata a certeza das ciências dedutivas ― estas sim, provam alguma coisa (matemáticas).

Na alínea 4, Richard Dawkins parte para a crença como verdade adquirida, isto é, segundo ele, a partir do momento em que a ciência “provou” que a lua é menor do que o sol, este facto passou a ser uma verdade adquirida que é aceite como uma crença “a priori” ― uma axioma aceite pelo senso-comum. A partir daí, Richard Dawkins faz a analogia entre a verdade adquirida como axioma (a lua menor do que o sol), e a evolução ― as situações, segundo ele, são idênticas.

Porém, a crença axiomática, como verdade adquirida, opõe-se ao saber científico porque a ciência necessariamente tem que colocar sempre em questão essa “verdade”. Para a ciência, o facto de a lua ser menor do que o sol é um facto até prova em contrário ― essa crença como verdade adquirida é constante e sistematicamente colocada em questão pela ciência, embora seja aceite.
Por outro lado, a crença como verdade adquirida opõe-se ao saber filosófico porque o saber científico é apenas, para ele, um suporte material.

Richard Dawkins incorre em um erro grave de análise: o facto de o sol ser maior do que a lua não decorre de uma confirmação das ciências experimentais, mas de uma certeza da astrofísica que se socorre da matemática para estabelecer uma certeza de facto. A prova de que o sol é maior do que a lua é feita através das ciências dedutivas, e não através de uma experiência negativa que consagre a falsidade do contrário da proposição (falsidade da hipótese proposta), ou através de uma confirmação ― que não é uma prova propriamente dita ― através de uma experiência concludente.

A proposição “a evolução existe” decorre de um feixe de convergências consideradas suficientes, em determinado momento e segundo um determinado “paradigma” (ver Thomas Kuhn), e não decorre de uma prova por demonstração e/ou verificação material.

Portanto, a proposição “o sol é maior do que a lua”, ou a proposição “o heliocentrismo é verdadeiro”, são certezas baseadas nas ciências dedutivas (astrofísica, física de partículas, etc.) com uma forte componente matemática; a proposição “a evolução existe” não é.

A analogia (comparação lógica) entre as duas proposições é falaciosa e até desonesta. De resto, não chego a compreender se Richard Dawkins é desonesto ou ingénuo.


De uma vez por todas: a Física não é, hoje, uma ciência experimental, mas uma ciência dedutiva e formal

Os jovens continuam a aprender nas escolas que a Física é uma ciência experimental, como é a biologia. Esta ideia incutida aos jovens não é inocente: pretende nivelar a Física pela biologia no sentido de legitimar os princípios dogmáticos do evolucionismo naturalista (Naturalismo). A verdade é que a partir do princípio do século XX, surgiu a mecânica quântica e a relatividade que transformaram a Física em uma ciência formal, e por isso dedutiva ― substituindo a Física clássica newtoniana. Para que eu não tenha aqui jovenzinhos a debitar a doutrina dogmática aprendida nas escolas politicamente correctas, vamos definir alguns conceitos.

  • Formal: o atributo “formal” aplica-se em oposição aos conceitos prevalecentes no senso-comum acerca do conhecimento intuitivo, representável, visual, empírico, ou exprimível por palavras. O conceito formal acerca da realidade (na Física, por exemplo) é considerado como tal se é exprimível ou pode ser compreendido somente através da matemática.
  • Linguagem formal: Em lógica matemática, uma linguagem formal consiste num conjunto de símbolos e de outro conjunto de regras precisas especificando como os símbolos podem ser combinados entre si para se formarem proposições.

A Física é hoje uma ciência “formal” que utiliza uma “linguagem formal”. A Física moderna nada tem a ver com o método científico utilizado na biologia (porra!).

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