perspectivas

Segunda-feira, 14 Setembro 2009

A hostilidade espanhola

A nossa colaboração com Espanha foi sempre sinónimo do nosso prejuízo; a História já nos demonstrou isso muitíssimas vezes e há que aprender com a experiência.

A reacção pública do ministro do Fomento espanhol às palavras de Manuela Ferreira Leite que esta proferiu em um debate televisivo efectuadas no nosso país acerca da construção do TGV em Portugal ― e portanto, declarações feitas no nosso país, que é estrangeiro a Espanha ― são preocupantes. Mandariam as boas regras da diplomacia que o ministro espanhol se abstivesse de declarações públicas acerca do debate político interno português, e o facto de essas regras não terem sido observadas pelo governo espanhol demonstra um clima de hostilização espanhola em relação à nação portuguesa.

Não passaria pela cabeça de um político português moderado pronunciar-se em público sobre o debate político interno espanhol. Contudo, os políticos espanhóis não têm o menor pejo em se intrometerem nos assuntos políticos internos portugueses.

provincia-de-espanhaO ministro do Fomento espanhol proferiu as suas palavras ao abrigo do direito ambíguo e pouco claro previsto no Tratado de Lisboa que dá o vago e pretenso “direito” a um país interferir na política de outro país, e inclusivamente permite o Tratado de Lisboa que uma potência possa invadir militarmente um país mais pequeno alegando pretensos interesses da União Europeia. Mesmo antes do Tratado de Lisboa ter entrado em vigor, os políticos espanhóis já o aplicam em relação a Portugal.

Manuela Ferreira Leite tem razão quando diz que o nível de endividamento nacional não permite despesas supérfluas. Por outro lado, sabemos que, mesmo em Espanha, o TGV não dá lucros de operação. A ligação do TGV de Lisboa a Madrid seria uma forma de Espanha dividir os prejuízos da linha, encontrar para a indústria espanhola uma oportunidade de construir não só as infraestruturas de ferrovial como o próprio material basculante (carruagens, etc), ao mesmo tempo que Espanha conseguia da União Europeia um bónus especial em fundos comunitários por garantir a ligação trans-ibérica. Neste negócio do TGV, Espanha joga em três carrinhos económicos, para além dos interesses políticos evidentes. Entretanto, a única vantagem de Portugal seria o aumento da dívida nacional.

A Irlanda é um dos países com maior rendimento per capita em todo o mundo, é um país dito “periférico” em relação à Europa central, e não tem TGV. Países ricos como a Noruega, Finlândia Suíça, Áustria, entre muitos outros países europeus, não têm TGV.

Para além das grandes vantagens financeiras de Espanha à custa do prejuízo português, o interesse espanhol é hegemonista:o simples facto de a linha de TGV, a partir de Lisboa, se dirigir a Madrid como para onde se dirigem também as linhas regionais de Sevilha, Valência e Barcelona, revela a subordinação de Lisboa à condição de cidade regional de Espanha.
Isto significa que uma ligação de Lisboa / Paris sai muitíssimo mais cara do que uma viagem de avião, porque para além das paragens até Madrid, o passageiro teria que mudar de comboio na capital espanhola ― que metade dos espanhóis pretendem que seja a capital de Portugal também ―, teria que apanhar outro TGV para Barcelona (com as respectivas paragens pelo caminho) e depois apanhar ainda outro TGV para Paris. O negócio sai muito mais caro do que um voo de low cost Lisboa / Paris, ou do que o transporte de mercadorias por via rodoviária . Portanto, o argumento de rapidez e economia no transporte não colhe e é falacioso.

A prioridade portuguesa é a construção do novo aeroporto de Alcochete onde se concentrem as companhias aéreas de low cost O TGV e a sua eventual construção dependerá do mercado potencial que esse novo aeroporto traga e que possa justificar a exploração económica da linha de TGV. Porém, como sabemos que Espanha prepara a construção de um novo aeroporto na fronteira da Extremadura espanhola com Portugal, e sendo este o caso, o TGV deverá ser definitivamente descartado dos nossos interesses estratégicos.


Espanha atravessa um período de desmembramento nacional através das reivindicações autonómicas e de independência das diversas nacionalidades, coisa que não acontece em Portugal ― e nem é nosso problema. Quem criou os problemas que os resolva.

Portugal tem colaborado com Espanha no combate à ETA e outras organizações independentistas das nações ibéricas subordinadas ao poder de Madrid, e a recompensa que recebemos de Espanha é a interferência política directa do governo espanhol nos assuntos internos portugueses (como foi o caso da TVI/MMG e de Manuela Ferreira Leite), com a valiosa colaboração da maçonaria.

A nossa colaboração com Espanha foi sempre sinónimo do nosso prejuízo; a História já nos demonstrou isso muitíssimas vezes e há que aprender com a experiência.

1 Comentário »

  1. […] mesmo que o projecto seja totalmente abandonado ― o que é uma hipótese ―, recordo o que escrevi no postal anterior sobre este assunto: a Irlanda é um dos países europeus com maior rendimento per capita e não tem TGV. Países ricos […]

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    Pingback por A hostilidade espanhola (2) « perspectivas — Segunda-feira, 14 Setembro 2009 @ 8:14 pm | Responder


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