perspectivas

Sexta-feira, 11 Setembro 2009

A negação neo-católica do catolicismo patrístico e escolástico, ou quando o catolicismo se afasta do cristianismo

Soube deste texto porque o autor do dito deixou aqui uma referência.

Quem, em nome da igreja católica, defende o totalitarismo, nada mais faz do que trair a tradição da própria igreja católica em nome de uma ideologia que evoluiu de Rousseau até Hitler, passando por Mussolini e pelas suas ramificações ibéricas.

Quando analisamos a História das ideias, existem pelo menos três erros que devemos evitar: o primeiro é o presentismo, que significa avaliar as posições particulares ― ou as especificidades mundanas ― do filósofo à luz da nossa moral coeva. O segundo é a tendência dos homens familiarizados com os livros em sobrestimar a importância do filósofo nas doutrinas políticas. O terceiro é o oposto do segundo: o filósofo é apenas um produto passivo das circunstâncias.
Os dois últimos erros revelam o dilema segundo o qual ficamos sem saber se é a personalidade que faz a História, ou é a História que faz a personalidade ― se não fosse o nariz de Cleópatra, a História seria diferente, por um lado, ou Cleópatra foi apenas um produto do Império romano, por outro. Portanto, existe a necessidade de isolar as noções culturais de uma época em que viveu o filósofo, distinguindo-as das noções filosóficas propriamente ditas, e é necessário um meio-termo entre a relação do filósofo com a História e vice versa ― ou seja, é necessário o meio-termo entre as ideias e a vida prática.


Quando nós dizemos que a filosofia de Marx “resultou” do liberalismo filosófico primitivo de finais do século XVI e século XVII, o verbo “resultar” não deve ser entendido como “consequência directa de”, mas deve ser entendido como uma evolução de “fases lógicas”. Podemos formular um princípio geral sobre as influências ideológicas:

Uma filosofia desenvolvida em determinado ambiente sócio-cultural de um determinado país, em que essa filosofia é, no local de origem, resultado da própria sistematização do mainstream e do pensamento predominante, pode em outro país vir a ser fonte de ardor revolucionário que dê lugar a uma revolução real.

Portanto, uma coisa é o liberalismo primitivo em Inglaterra, outra coisa é a transposição das ideias do liberalismo primitivo de Inglaterra para Tumbuktu ou para França. Enquanto que em Inglaterra, o liberalismo primitivo conduziu à democracia, em França a revolução que supostamente se baseou nessas ideias conduziu ao totalitarismo. Enquanto que na Inglaterra, a prática inspirou a teoria, em França a teoria inspirou a prática que, como não poderia deixar de ser, descambou para o oposto defendido pela teoria.
Quando se parte da teoria para a prática corre-se o risco de se conseguir o oposto da teoria, porque a defesa da democracia passa a ser o poder de uma minoria que se diz “democrática” mas que despreza a própria democracia ― como aconteceu em França com a revolução burguesa.

O rei Jaime II não foi afastado pelas forças revoltosas burguesas. Ele foi deposto sem um tiro sequer, depois de a própria aristocracia [nobreza] inglesa se aliar ao alto comércio para depor o rei. As razões da destronização de Jaime II são múltiplas e complexas, e não cabem aqui.

A ideia segundo a qual a “revolução” de 1688 é uma revolução burguesa, é falsa. Por exemplo, Locke fugiu para a Holanda em 1683 na companhia de Lord Shaftesbury, que era seu patrono e membro da alta nobreza de Inglaterra. A palavra “revolução” está propositadamente entre aspas porque o termo só foi cunhado mais tarde no advento da revolução francesa. O termo “revolução gloriosa” foi inventado mais tarde pelos nacionalistas ingleses que se opuseram sistematicamente aos franceses até à queda de Napoleão.

Diga-se, a propósito, que os reformadores moderados franceses seguiram Voltaire que se inspirou em John Locke, enquanto que os revolucionários extremistas ― como Robespierre, que era amigo intimo de Rousseau ― se basearam em Rousseau que era um romântico que defendia a religião subjectiva e a moralidade relativa em função dessa subjectividade, em oposição ao espírito prático de Locke que considerou a base da moralidade de origem divina (Deus).

De Rousseau vieram duas escolas de liberalismo: a primeira, por Bentham, Ricardo e Karl Marx veio por fases lógicas a Estaline; a segunda, por outras fases lógicas, através de Fichte, Byron, Carlyle e Nietzsche até Hitler.
Da filosofia de Locke, as fases de evolução lógica culminaram em Churchill e Roosevelt. Eis a diferença entre os dois “liberalismos”.

Eu, que sou monárquico, fico por vezes admirado como o conceito de monarquia medieval pode ser defendido hoje. É verdade que John Locke não aceitava o direito divino dos reis; mas será que por esse facto Locke pode ser considerado “extremista”, ou ele utilizou simplesmente a Razão? Um extremista é, por natureza, alguém que despreza a Razão [com maiúscula] , e por isso não podemos afirmar que alguém que dá a primazia à Razão é extremista.
O direito divino dos reis implica a total discricionariedade da realeza, o que significa que se pode comparar com a total discricionariedade política de um ditador. A própria Igreja católica, com a contra-reforma, defendeu activamente a recusa do direito divino dos reis ― exactamente o contrário do que defendeu o luteranismo; portanto, quem critica John Locke por recusar o direito divino dos reis, critica também a Igreja católica.
Contudo, Locke não defendeu o fim da monarquia inglesa; apenas defendeu que o rei deveria ser o píncaro da nação, e não um déspota.

A ideia de que John Locke se identifica com Espinoza carece de prova, e portanto e até que exista uma prova, é uma ideia falsa. Espinoza e Hobbes concordaram em muita coisa, e ambos discordaram de Locke.
No “Ensaio sobre a tolerância” de 1667, Locke defende a tolerância religiosa ao mesmo tempo que defende acerrimamente a religião, o culto religioso e a lei natural, e simultaneamente limita o poder civil em matéria religiosa. Para Locke, a liberdade religiosa é ilimitada.

No seu escrito “Epístola”, Locke escreveu : “Os que negam a existência de Deus não podem ser tolerados de modo algum”. A tolerância de Locke era relativa às várias confissões religiosas, isto é, era uma tolerância ecuménica, e não era uma tolerância dos anti-religiosos contra as religiões. Locke só foi contra a igreja católica quando esta se assumiu como intolerante em relação às outras religiões, nomeadamente em relação ao luteranismo e calvinismo, que são ambas religiões cristãs.

Com o devido respeito por quem o escreveu, este texto não tem ponta por onde se lhe pegue, e sinto um imenso desgosto por ver pessoas que se dizem “cristãs” e que assim pensam ― assistimos ao suicídio do cristianismo. Locke, que defendeu com unhas e dentes a propriedade privada, nunca poderia ter dito que “os homens são iguais” senão que os homens nascem iguais em direitos básicos. Não foi isto que Jesus Cristo nos disse?

Dissecar John Locke dava um ensaio longo, e há muita coisa indefensável na filosofia de Locke. Porém, há um conceito de Locke que nunca se pode colocar em causa: o direito do ser humano à liberdade, porque a própria igreja católica através dos seus escolásticos maiores (S. Agostinho, S. Tomás de Aquino, S. Anselmo, Nicolau de Cusa, etc.), defendeu a liberdade humana acima de tudo.

Quem, em nome da igreja católica, defende o totalitarismo, nada mais faz do que trair a tradição da própria igreja católica em nome de uma ideologia que evoluiu de Rousseau até Hitler, passando por Mussolini e pelas suas ramificações ibéricas. Essas pessoas não são católicas: são revolucionárias gnósticas travestidas de católicas.

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