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Terça-feira, 8 Setembro 2009

A Moral como expressão humana do Valor

Filed under: ética,filosofia,Religare — O. Braga @ 1:31 pm
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Interessante este artigo e comento daqui.

É preciso ter algum cuidado com o adjectivo “imanente” porque se presta a várias interpretações. Por exemplo, o formalismo matemático utilizado hoje nomeadamente na quântica, é imanente, porque se desloca do eixo da realidade empírica macroscópica para uma realidade essencial microscópica. Para além da transcendência e da imanência, temos o empirismo que é a base do positivismo que classifica e categoriza segundo o princípio da falsificabilidade de Karl Popper.
Aquilo que é imanente não é, por sua natureza, empírico. Por isso, a biologia, a neurociência e a fisiologia são ciências positivistas, enquanto que a Física Quântica já entra na imanência que subjaz à realidade empírica.

Portanto, é simplesmente impossível às ciências biológicas clássicas tirarem ilações sobre áreas da realidade que não só lhes são estranhas, como anteriores. A imanência do formalismo matemático ou da lógica filosófica existe antes da aplicação do método positivista, assim como um axioma existe sem ser condicionado pelas ilações que dele retiramos. Por isso, dizer que a moral ― que tem uma origem axiomática através do Valor ― pode ser explicada pela biologia, é uma contradição. Seria como se atribuíssemos a causa de um efeito ao próprio efeito.

Por outro lado, não podemos dizer que a moral nada tem a ver com a natureza, porque esta é o suporte sobre o qual opera o Valor. A ideia de que a moral é construída exclusiva e subjectivamente a partir da mente humana, é contraditória porque corroboraria a ideia da “moral biológica”. Seria como se disséssemos que o axioma nada tem a ver com a natureza, quando na verdade ele se aplica a uma realidade natural, embora ele não dependa de nada. De igual modo, a natureza é o suporte do valor da moral, embora este não dependa daquela.

O determinismo existe nas ciências que necessitam da causalidade clássica e empírica para poderem operar. O determinismo clássico foi abolido pela quântica; a organização da matéria é espontânea e livre, isto é, não sujeita a um determinismo que não seja a própria existência. No plano da consciência humana, essa liberdade primordial é a regra.
O colapso da função ondulatória quântica, que acontece quando a onda quântica é observada por uma consciência, pode pressupor que a consciência é anterior à própria partícula elementar da matéria que se forma a partir da função ondulatória quântica mediante a observação de uma consciência.

A fé é a expressão do desejo humano na sua procura do Valor Absoluto.

Não existe oposição entre o transcendental e a ciência clássica; essa oposição é criada pelo conceito determinístico da realidade e da necessidade da ciência em se organizar numa cadeia rigorosa de causas e efeitos, sem a qual não pode funcionar ― essa oposição é criada pela ciência positivista para se poder justificar a si própria.

9 comentários »

  1. Caro O. Braga.

    Primeiramente, obrigado pela referência e pela leitura e, nas grandes linhas, concordo consigo. Alguns outros comentários:

    1. Devo lembrá-lo que minhas considerações se deram em referência a uma tese determinada, a saber, aquela que cito no início que, ela sim, opõe biologia e fé, por exemplo, e que tenta filiar de maneira EXCLUSIVA a moral ao fisiologismo.

    2. Não creio que “empirismo” seja uma terceira categoria referente à “transcendente” e “imanente”. “Imanente” significa, em termos gerais, que o fim de algo ou uma ação está no próprio agente. “Transcendente” é, portanto, aquele ato cuja finalidade ou sentido está para além dele. É este o sentido de certos atos em Aristóteles e em Santo Tomás (“pensar” e “cortar”, por exemplo). Empírico, como claramente se pode ver, não se relaciona a esta categoria de atos, mas diz respeito à uma certa qualidade específica de um dado ou conhecimento em relação à sua origem (empeiría, experiência).

    3. Contudo, concordamos que aquilo que não é transcendente não é necessariamente biológico (como queria a autora da tese que refuto). Mas isto é justamente o que eu desejava mostrar.

    4. Não nego – e nem Aristóteles, cujo ponto de vista eu citei – que a natureza seja necessária ao desdobramento da moral. Entretanto, objeto firmemente que ela seja suficiente, como afirma a interlocutora.

    Um abraço.

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    Comentar por Gabriel Ferreira — Terça-feira, 8 Setembro 2009 @ 3:48 pm | Responder

  2. […] Fui citado e comentado aqui. Abaixo, meu comentário ao […]

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    Pingback por Apontamentos sobre o Ateísmo – Ateísmo e Moralidade | Inter-Esse — Terça-feira, 8 Setembro 2009 @ 3:53 pm | Responder

  3. 1.

    Percebi imediatamente o contexto.

    2.

    Dicionário de Filosofia de Gerard Legrand:

    Imanência

    «Termo impreciso, que designa o estatuto atribuído ao Absoluto, “pessoal” ou não, pelas doutrinas que o declaram inseparável do Mundo e nele residente. »

    2.1-

    O Budismo tem uma grande dose de imanência na sua filosofia. Contudo, o “imanente” é utilizado em outros contextos e por isso chamei à atenção para o cuidado em definir o termo. Neste sentido, não podemos dizer que o imanente se opõe ao transcendente, mas que se complementam (Budismo: imanente = Samsara; transcendente = Nirvana). A mesma complementaridade existe na filosofia quântica.

    2.2-

    Quando me referi ao “empirismo”, refiro-me ao conceito clássico de “mundo sensível”. Do mesmo dicionário:

    Empirismo

    «Termo genérico que designa diferentes doutrinas que subordinam ― e até limitam ― o conhecimento à expressão sensível “imediata”, podendo o termo desenvolver-se, se for esse o caso, até incluir a experiência não sensível (associação de ideias) e a admitir, ou mesmo justificar, as consequências ― não imediatas por definição ― da experiência. »

    Ora, tanto o formalismo matemático como a física quântica não só não pertencem à experiência sensível, como a lógica destas é imanente ― no sentido em que não pertencem à realidade sensível ― e neste sentido não são empíricos.

    2.3-

    A etimologia das palavras sofre evolução semântica. Com as descobertas recentes da mecânica quântica, impõe-se a necessidade de três categorias: o transcendente, o imanente, e o sensível ou empírico ― categorias que já existiam no Budismo desde há cerca de 3000 anos.

    3.

    Em tudo o resto, estamos de acordo.

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    Comentar por O. Braga — Terça-feira, 8 Setembro 2009 @ 11:02 pm | Responder

  4. Orlando, boa noite.
    Não sei se você andou acompanhando as discussões aqui:

    http://www.portalateu.com/forum/filosofia-e-pensamento/o-que-faz-de-nos-seres-morais/page-2/

    Mas a título de informação, estamos lidando com iterlocutores que têm problemas de ordem básica no que diz respeito à lógica e definições de conceitos.
    Já mencionamos Aristóteles, Kant, Alasdair MacIntyre, Adorno e Horkheimer, mas nem posso dizer que os argumentos não surtiram efeito e sim que a outra parte simplesmente não para para refletir sobre os pormenores dessas referências, e vivem repetindo uma petição de princípio.

    Como eu cansei, vou copiar e colar seu texto e colocar seu link para referência. Pode ser que outra pessoa explicando a mesma coisa de outra maneira ajude.

    Eu vou simplesmente dizer eles: “Vocês são inteligentes demais pra mim” e “téns razão” (http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=30685313)

    Abraços

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    Comentar por Fabiano Sampaio — Quarta-feira, 9 Setembro 2009 @ 1:44 am | Responder

  5. A primeira grande contradição do Portal Ateu é que é um local onde os ateus se reúnem para combater Aquele que eles dizem que não existe. Se Deus não existe, por quê combatê-Lo?!

    Dei uma olhada pela discussão lá no portal. O argumento que é utilizado pelos defensores da “moral biológica” é o mesmo utilizado por Thomas Huxley no século 19: o argumento ateísta não mudou nada: é exactamente o epifenomenalismo de Huxley. O problema dos biólogos é complicado, por que se o epifenomenalismo é falso, a biologia deixará de ser uma ciência para ser uma técnica, e será substituída pela bioquímica. No seu livro “Caixa Negra de Darwin”, o bioquímico Michael Behe explica o dilema da biologia que faz com que o mito do epifenomenalismo seja afirmado ad Nauseam.

    O argumento do epifenomenalismo é falso porque desde logo compartimenta a realidade. Se eu disser que “Portugal é o mundo inteiro”, e não conseguir vislumbrar a realidade para além de Portugal, não vale a pena dizerem-me que existem outros territórios e que a realidade é mais abrangente.

    Estamos em presença daquilo a que se chama “dissonância cognitiva”: a lógica e o absurdo coexistem na mente do ateu. Se ele se sente ferido no seu orgulho, utiliza a lógica para negar a própria lógica, em um processo niilista que se enquista de forma irredutível na sua argumentação porque chega a um ponto em que o processo de negação da lógica através da lógica atinge um ponto crítico de “singularidade”, em que o absurdo aponta para o infinito e toda lógica deixa de poder existir.

    Uma tal de Leonor confunde ética com moral ― e mais grave: confunde moral com cultura. Os princípios básicos da moral existem desde que a História é escrita, e provavelmente existiriam antes do aparecimento da escrita.

    https://espectivas.wordpress.com/o-estado-da-etica/

    O que evolui, construindo civilizações e destruindo-as, é a cultura. Depois, confunde valor individual ou relativo com valor absoluto, partindo do princípio de que o único valor absoluto que existe é o valor relativo ― é o absolutismo do relativismo.

    Caro Fabiano: contra um fideísmo religioso, como é o ateísmo, não é possível discutir. Seria como discutir com um membro da Al Qaeda. O ateísmo é uma religião ortodoxa e fideísta, e por isso a lógica está ausente do mito ateísta. Trata-se de uma crença, e não de filosofia ou ciência.

    Quando se discute a moral humana sem a colocar num contexto universal, percebemos que a intenção do ateu é transformar a moral naquilo que ele quiser dependendo das circunstâncias políticas. A partir daí, abre-se a caixa de pandora revolucionária que permitiu a justificação da “moral por via biológica” como aconteceu no nazismo e no comunismo, e justifica-se também os mais de 200 milhões de seres humanos vítimas da mente revolucionária só no século XX.

    Caro Fabiano: essa gente sofre de uma doença mental grave.

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    Comentar por O. Braga — Quarta-feira, 9 Setembro 2009 @ 7:55 am | Responder

  6. Caro Orlando,

    Em uma certa medida lhe dou a razão, uma vez que a redundância ao absurdo é o que permite que os ateus se prendam às suas bobagens repetidamente e tornem desse absurdo, que na realidade é simplesmente a insustentabilidade das coisas, em sua principal fundamentação (falsamente falando). A contradição está justamente aí, pois acreditam estarem criando fundações para suas posições quando, na verdade, estão apelando a uma racionalidade na qual não há fundamentação alguma. É ridídulo.

    Por outro lado, eu gostaria de lembrar a você que Ortodoxia não é sinônimo de redução ao irracional (ou seja, que nesse nível se equipararia a um ateísmo em seu esforço de racionalizar sem princípios lógicos), uma vez que os discursos de fundamentação da posição ortodoxa do catolicismo consiste amplamente na resolução de problemas teológicos, metafísicos, éticos e, inclusive, epistemológicos.

    G.K. Chesterton, Santo Tomás de Aquino, Santo Agostinho, Blaise Pascal (conquanto considerado herege), mesmo Orígenes (também esbarrando em heresia nas suas formulações), trataram desses assuntos seriamente.
    Embora acredito que você já conheça Chesterton, fica a sugestão de leitura a você e aos visitantes de seu blog que lêm seus artigos com frequência ou que venham a passar só por acaso.

    Abraços
    Volto mais vezes!

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    Comentar por Fabiano Sampaio — Segunda-feira, 14 Setembro 2009 @ 9:14 pm | Responder

  7. Caro Fabiano:

    Orígenes viveu antes do Concílio de Niceia. Não sei como alguém possa ser herético antes de se estabelecerem os paradigmas que definem a heresia ― o que aconteceu com o Concílio de Niceia.
    Portanto, a ideia de que Orígenes era herético antes mesmo de se definir o que era herético, é anacrónica. Seria o mesmo que dizermos que S. Tomás de Aquino era marxista porque foi dos primeiros a definir (e até a denunciá-la em modo suave) a mais-valia decorrente do trabalho humano.

    Quando a ortodoxia é aliada ao fideísmo, torna-se irracional. Foi o que referi: ortodoxia + fideísmo. O fideísmo não é fé; o fideísmo é uma transposição do espírito gnóstico para a religião segundo a qual o futuro é assegurado e dado como certo através do profetismo (metafisico ou cientificista). Sendo que o futuro da religião, segundo os fideístas, é certo e seguro, o fideísta passa à acção revolucionária ― não necessariamente marxista, mas sempre tendente a fazer a cumprir a profecia que dá esse futuro como inexorável.

    Existe muito católico que pensa que segue Santo Agostinho na noção do tempo como “constante presente”, mas que na realidade assimilou inconscientemente o Joaquim de Fiore na sua ideia profética do paraíso na terra da “terceira Era” da História humana.

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    Comentar por O. Braga — Terça-feira, 15 Setembro 2009 @ 5:59 am | Responder

  8. Orlando,
    o sentido de heresia não ter sido inventado à época de Orígenes, não significa que ele, ao tratar de problemas especificamente cristãos, não tenha abordado esses problemas sem se dar conta das implicações no evangélio. Problemas metafísicos e teológicos que criam as bases fundamentais do catecismo foram mais bem pensados por Santo Tomás e Santo Agostinho.
    Então, não cabe dizer que há tempo histórico dos conceitos já que seria o mesmo que você dizer que as noções já existentes seriam automaticamente invalidadas por conta do seu momento histórico ter passado.
    Isso é um equívoco.

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    Comentar por Fabiano Sampaio — Quarta-feira, 23 Setembro 2009 @ 3:24 am | Responder

  9. Caro Fabiano:

    Se formos a ver bem, praticamente todos os padres e bispos (a patrística) que viveram antes do Concílio de Niceia podem ser considerados como hereges à luz daquilo que foi combinado nesse Concílio. Foi isso que eu quis dizer desde o princípio: não é possível ser herege antes de se saber o que é herético.

    Orígenes foi um padre excepcional. Muita gente não sabe de alguns detalhes, e eu, que estudei profundamente estes assuntos, posso explanar aqui algumas ideias.

    No tempo em que Orígenes viveu, a condição feminina (as mulheres) era muito reprimida: as mulheres não tinham direito sequer a aparecer em público sem o corpo todo tapado, e nem sequer tinam o direito de aprender a ler e a escrever simplesmente porque os maridos ou os pais não deixavam que isso acontecesse. Isso significava que Orígenes não podia evangelizar as mulheres ― sejam elas casadas ou solteiras ― porque sendo Orígenes um homem, os pais e os maridos das mulheres não autorizavam qualquer contacto com ele. A fim de poder convencer os homens de que ele, Orígenes, não seria uma ameaça para as mulheres, simplesmente Orígenes se castrou ― cortou fora as partes genitais. A partir desse momento, os homens de Cirenaica e de Alexandria autorizaram a Orígenes o contacto social com as mulheres no sentido da sua evangelização, e não só a dos homens.

    Orígenes compreendeu que a evangelização das mulheres era muito mais importante do que a dos homens, porque são as mulheres que influenciam culturalmente a família. Para conseguir isso, Orígenes submeteu-se ao castramento genital, para assim poder ter acesso ao contacto social com as mulheres sem que os respectivos homens colocassem alguma oposição.

    Pergunto qual será o padre hoje considerado não herético que se sujeitasse a um sacrifício desse género; são raros. Portanto, antes de chamarmos de “herético” a uma pessoa, temos que saber não só aquilo que ele defende (que bota da boca para fora), mas essencialmente o perfil moral (a prática) dessa pessoa e a capacidade de sacrifício que a sua alma pode suportar. Há muita gente que defende a doutrina de Niceia e depois faz exactamente o contrário daquilo que defende, e esses não são considerados de heréticos; contudo, são pior que heréticos: são hipócritas.

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    Comentar por O. Braga — Quarta-feira, 23 Setembro 2009 @ 9:00 am | Responder


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