perspectivas

Segunda-feira, 7 Setembro 2009

O discurso redondo

Filed under: Blogosfera,Política — O. Braga @ 9:03 pm
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Incomoda-me o discurso redondo. Andamos às voltas a tentar decifrar o seu código; por vezes chegamos à conclusão de que não existe código nenhum: o discurso é redondo porque intencionalmente pretende fazer de conta que diz alguma coisa mas não diz nada. Neste caso, para além de redondo, o discurso é circular ― é redondo na forma, e circular no conteúdo que induz o raciocínio.
Outras vezes o discurso é redondo porque é cifrado; transporta um código consigo que é necessário decifrar. Incomoda-me muito mais um discurso redondo sobre a realidade simples e objectiva do que o discurso impenetrável de Hegel, porque no primeiro caso não haveria necessidade da cifra que a narrativa ambígua introduz no discurso, enquanto que em Hegel damos um desconto à especulação filosófica.

O discurso redondo é uma especialidade portuguesa; herdamo-lo dos judeus cristãos novos, que em discurso redondo diziam ámen ao padre enquanto o mandavam f**** baixinho e substituíam as chouriças de carne pelas alheiras com pão. Quarenta e oito anos de Salazarismo aprimoraram o discurso redondo cifrado e português, que transformou um qualquer espaço comunicacional numa loja maçónica onde tudo se processava por sinais e símbolos. Dizemos as coisas sem as dizer, como quem não quer a coisa. Insinuamos mas não afirmamos, e a este processo de dizer sem dizer, chamamos de “boa educação”. O bem-educado não afirma que o o parceiro do lado é um FDP quando acha mesmo que ele o é: insinua, porque fica melhor; constrói uma narrativa que tece uma teia argumentativa cifrada e cerrada somente compreensível pelos correlegionários ou compagnons de route.


É claro que Judite de Sousa foi bem comportada durante os quatro anos de Sócrates, porque se não o fosse estaria a engrossar o número de jornalistas colocados na prateleira da RTP. É claro que Judite é casada com um autarca do PSD. É claro que a convicção dela não é difusa: é clara. Claríssima! E essa convicção não é ditada por nenhuma influência que não seja pela própria convicção, não só da Judite de Sousa como de muita gente. O ser humano vive de crenças que se baseiam na probabilidade das evidências, e uma jornalista não foge à regra. Ou não?!

O postal diz exactamente isto, mas o problema é que pode ser interpretado “à vontade do freguês”. Ou não diz exactamente isto?!

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