perspectivas

Sexta-feira, 4 Setembro 2009

A ética sofista politicamente correcta

etica-sofistaEste senhor parte de um princípio sofista: o de que a ética é coisa que depende da etnia. O sofista Hípias dizia que a proibição do incesto não era coisa natural porque existia um povo vizinho da Antiga Grécia que praticava o incesto, e por isso a ética dessa etnia era tão ética como a grega. Contudo, a proibição do incesto é absolutamente racional porque nela assenta a ordem da família: se os filhos casassem com as suas mães [como aconteceu com o Édipo da mitologia grega], deixava de ser possível a distinção entre gerações; deixaria de se saber quem são os pais, filhos, maridos ― as categorias fundamentais da família ruiriam e qualquer hierarquia como pressuposto da autoridade tornar-se-ia impossível.

A ideia politicamente correcta de que o tabu é, em si mesmo, irracional, e de que “a ética é coisa étnica”, traduz a absoluta irracionalidade do politicamente correcto. O tabu passa a ser tabu; gera-se um raciocínio circular.

De igual modo, e partindo do mesmo princípio sofista de ética, esse senhor não pode criticar eticamente a excisão feminina porque esta faz parte da “ética” de alguns povos africanos; simplesmente não é possível defender a tese de que uma professora pode dançar nua para os seus alunos, e uma tribo africana não pode cortar o clitóris às suas meninas ― mesmo tendo consciência da diferença da violência entre os dois actos. Porém, na acção da professora que dança nua para as crianças, não deixa de existir violência na medida em que a exposição da sexualidade ou erotismo adultos não é consentânea com os interesses naturais das crianças, tendo em conta a faixa etária. Pela mesma ordem de ideias, seria defensável a exibição de filmes pornográficos a crianças.

A ideia de que a nudez e o erotismo adultos perante as crianças fazem parte da “ética de herança cultural africana”, e de que a excisão feminina africana já não faz, é contraditória.

Portanto, a primeira conclusão é a de que o escriba é estúpido. Mas há mais: escreve o dito eticista:

“Vamos para um fenómeno aparentemente estranho: quem ainda não percebeu que as crianças adoram danças que fazem movimentos que nós, adultos, achamos sensuais e até mesmo obscenos?

Quem ainda não percebeu que mulheres sensuais, às vezes completamente nuas, com seios avantajados ou outras partes do corpo em destaque, viram ídolos fáceis das crianças?”

Bom, a partir daqui já não podemos considerar o escriba como um simples estúpido: trata-se, mesmo, de um grande filho-da-puta — é essa a minha opinião.

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4 Comentários »

  1. Sim, dá dó de um desconhecido quando ele vem xingar o filósofo, já afamado, de filho da puta. É a perda do argumento, da razão e tudo o mais. Dá dó, todo desconhecido faz isso mesmo.

    Comentário por Paulo Ghiraldelli Jr. — Sexta-feira, 4 Setembro 2009 @ 8:03 am | Responder

  2. Ah, agora sim, vi que é português. Tá tudo explicado!

    Comentário por Paulo Ghiraldelli Jr. — Sexta-feira, 4 Setembro 2009 @ 8:08 am | Responder

  3. Exactamente porque o filósofo é desconhecido, o adjectivo tem uma conotação indiferenciada (não objectiva). Por outro lado, não se trata de um ataque ad Hominem porque se explicou prévia e anteriormente a razão do adjectivo.

    O facto de eu ser directo na classificação não significa que eu não tenha razão: os argumentos do artigo são péssimos. Quando se considera a ética como um conjunto de costumes, não é possível que uma ética oriunda de uma “herança cultural” específica seja boa numas coisas e más noutras, porque se está a considerar a ética como “coisa étnica”, isto é, como um todo inerente à própria idiossincrasia de uma etnia em questão. Portanto, tão boa é a dança erótica africana como a excisão feminina porque pertencem à mesma ética etnológica.

    Razão tem o Olavo de Carvalho: a filosofia no Brasil nunca esteve como está agora. E com respeito aos brasileiros como Olavo, não digo que o que penso de alguns brasileiros (felizmente são poucos).

    Comentário por O. Braga — Sexta-feira, 4 Setembro 2009 @ 8:56 am | Responder

  4. Acho engraçado o nosso “querido” escriba declarando que Paulo Ghiraldelli Jr é um afamado filosofo, quando quem faz esse comentário é o Próprio Paulo Guiraldelli

    Comentário por Luis — Quinta-feira, 10 Setembro 2009 @ 5:17 am | Responder


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