perspectivas

Sexta-feira, 4 Setembro 2009

A alienação ideológica do conceito de “necessidade natural”

No seu livro “Questões de Método”, Jean-Paul Sartre referiu-se, num pequeno trecho que cito abaixo, sobre a “necessidade” do ser humano face às condições específicas em que nasce e vive.

« Para nós, o Homem caracteriza-se, antes de mais, pela superação de uma situação, por aquilo que ele consegue fazer do que dele fizeram, ainda que ele nunca se reconheça na sua objectivação.

Esta superação, encontramo-la na raíz do humano, e, em primeiro lugar, na necessidade: é ela que conduz, por exemplo, a escassez da população feminina das ilhas Marquesas, como facto estrutural de grupo, à poliandria como instituição matrimonial.

Com efeito, esta escassez não é uma simples carência: da forma mais crua, exprime uma situação na sociedade e já pressupõe um esforço para superá-la; a mais rudimentar das condutas deve determinar-se tanto em relação aos factores reais e presentes que a condicionam, como em relação a um certo objecto ulterior a que ela tenta dar vida. »


As ilhas Marquesas são umas pequenas ilhas isoladas no Oceano Pacífico habitadas até há pouco tempo por humanos em estado primitivo. Acontece que por uma questão de atrofia genética daquela população, nasciam muito mais homens do que mulheres, o que levou a que a poliandria fosse adoptada como instituição matrimonial. Porém, há uma situação que Sartre não equaciona mas subentende: se o problema da escassez de mulheres não existisse, seria normal que a poliandria fosse adoptada nas ilhas Marquesas?

Naturalmente que já temos uma resposta a esta pergunta que Sartre não tinha quando escreveu o livro: com o intercâmbio populacional entre as ilhas Marquesas e outras partes do império francês, a poliandria deixou de ser necessária e praticamente não existe já nessas ilhas.

Podemos dizer que a “necessidade”, neste caso, não é inerente ao Homem mas é imposta pelas circunstâncias naturais. A “necessidade” não é do Homem; ele é racionalmente livre da necessidade. Simplesmente ele aceita a imposição “necessária”, e muitas vezes circunstancial, da Natureza ― submete-se a ela mas não permite que a “necessidade” se transforme em “razão”.

Para o Homem, a razão é independente da necessidade natural, e mesmo sacrificando a razão à alienação necessária, o Homem não deixa saber, por sua natureza própria, que a alienação faz parte da necessidade imposta pela natureza; instintivamente sabe que essa alienação lhe é estranha à razão. E logo que a necessidade natural deixou de ser uma imposição a que não podia fugir, a população das ilhas Marquesas passou a adoptar a monogamia como instituição matrimonial porque é esta a que a razão escolhe.

O mesmo acontece com a poligamia, que existiu por uma questão de necessidade imposta pela Natureza quando os clãs tinham que ser numerosos para poderem sobreviver às condições de vida muito duras. Hoje, a poligamia não existe por necessidade natural senão por uma questão de não superação ― para utilizar a terminologia de Sartre ― de uma realidade pré-existente.

Portanto, não podemos colocar de parte a ideia de que o Homem evolui, como não podemos excluir a hipótese da involução ou retrocesso ― ao contrário do que reza a dialéctica hegeliana e marxista. No mesmo opúsculo, Sartre escreve:

«A alienação pode modificar os resultados da acção, mas não a sua realidade profunda [da acção]. Recusamo-nos a confundir o homem alienado com uma coisa, e a alienação com as leis físicas que regem os condicionalismos da exterioridade. »

O retrocesso do Homem acontece com a alienação que modifica os resultados da acção. A “realidade profunda” da acção não é modificada mas esse facto não impede, por si, um eventual retrocesso do Homem em sociedade ― e quando digo retrocesso refiro-me a uma qualquer necessidade que obrigue o Homem a sacrificar a razão, alienando-se e involuindo.

Na sua “Crítica da Razão Dialéctica”, Sartre critica a dialéctica marxista como a manipulação ideológica da relação entre o Homem e a Natureza ― tal como Hegel tinha manipulado em primeiro lugar. É o que acontece hoje, apesar do marxismo estar oficialmente inválido: a elite política mundial utiliza a noção de “necessidade” de uma forma diferente da utilizada no texto acima: a “necessidade” do politicamente correcto é imposta não pela natureza, mas pela ideologia. A alienação da razão humana não é hoje uma necessidade natural mas uma imposição ideológica de uma elite utilitarista, ela própria alienada.

Dou dois exemplos da manipulação da ideológica da necessidade natural.

O primeiro é a ideia do “controlo populacional” por via totalitária; podem ver aqui (PDF) um texto sobre a irracionalidade das ideias de Obama e de outros políticos alienados que infelizmente ainda merecem a credibilidade de muita gente.

O segundo é a elevação do acto homossexual a um princípio moral através do “casamento” gay, e estes dois fenómenos de alienação estão intimamente relacionados, porque se faz crer ao Homem que a redução “necessária” da população mundial se impõe com a valorização do acto homossexual como uma “sexualidade alternativa” implícita ao acto sexual heterossexual e reprodutivo.

Aquilo que era uma necessidade imposta pela natureza nas ilhas Marquesas ― a poliandria ― e a alienação da razão humana dos ilhéus no sentido da superação de um condicionalismo natural, é hoje um paradigma ideológico para a imposição de uma alienação global ― não por que exista uma imposição natural que exija essa alienação da razão, mas antes por imposição de uma elite política altamente alienada e irracional.

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