perspectivas

Segunda-feira, 31 Agosto 2009

Laicismo ou totalitarismo?

O Estado laico descamba hoje para duas coisas: ou o Estado ateu, ou o Estado da religião maçónica, que não são a mesma coisa dependendo da filiação gnóstica com maior influência no Estado em causa. A manifestação perceptível do Estado maçónico é o laicismo. Num caso ou noutro, tratam-se de religiões, sendo que o Estado ateísta entra numa contradição autofágica própria de um gnosticismo mais radical.

O laicismo é supostamente a equidistância do Estado em relação às diversas religiões (que inclui o ateísmo). Mas será que a obsessão laicista não se pode transformar numa espécie de “religião civil”?

O laicismo, sem assumir claramente o ateísmo, acaba por se transformar numa religião civil, embora se apresente como uma religiosidade pela negativa ― isto é, depende da existência das religiões tradicionais para poder sobreviver ―, sendo que todas as pessoas que professem uma religião diferente da laica passam a ser uma espécie de novos heréticos. Os fundamentalismos sempre precisaram dos heréticos para poderem sobreviver.

A linha que separa o ateísmo do laicismo é ténue, porque ambas as religiões condenam a manifestação pública de religiosidades diferentes das da “religião civil”.

Por outro lado, o laicismo como religião civil professa o credo no relativismo ― a única coisa absoluta que existe para o laico é o relativismo absoluto. No laicismo não existe, na verdade, uma ideia de tolerância religiosa senão a de um afastamento das religiões tradicionais da vida pública, em beneficio da supremacia de uma religião civil que parte do relativismo absoluto para impôr o absoluto relativismo; pertencer a outra religião que não a “civil” passou a ser tabu, para além de ser motivo para discriminação política a nível do Estado laico.

O mais ridículo no laicismo, é a ideia de alguns idiotas úteis laicos segundo a qual “o Estado não deve ser usado para impôr a moral”. Esta ideia é defendida pelos laicistas como sendo a demonstração da sua “neutralidade”, não se dando conta de que a sustentação da neutralidade moral é, em si mesma, não-neutral.

Com o argumento inicial de impedir que o Estado imponha uma determinada religião na sociedade, o laicismo evoluiu para um processo de opressão sobre uma maioria que não comunga da religião civil estatal. O novo tabu imposto pelo Estado é o da tentativa de proibição do julgamento ético e moral do comportamento humano, e por inerência pretendendo, assim, enfraquecer o espírito crítico dos cidadãos. É por aí que pode vir um novo totalitarismo.

A alternativa ao Estado laico é o Estado livre ― um Estado onde toda a gente possa manifestar a sua religiosidade [dentro das regras legais de um Estado aberto à sociedade] sem temer represálias políticas ou de outra ordem.

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2 comentários »

  1. Não há uma religião maçónica. E chamar o ateísmo (ou o laicismo) de religião, é, obviamente falacioso e revelador, até, perdoe-me, de má-fé.

    “A alternativa ao Estado laico é o Estado livre ― um Estado onde toda a gente possa manifestar a sua religiosidade [dentro das regras legais de um Estado aberto à sociedade] sem temer represálias políticas ou de outra ordem. ”

    Se fosse maçon, saberia que é isso que estes defendem. “Onde todos possam mostrar a sua religiosidade”… ou falta dela.

    O que não toleramos são imposições, e catequeses encobertas e patrocinadas pelo Estado.

    “A alternativa ao Estado laico é o Estado livre”. Esta afirmação foi só para provocar, não foi?!

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    Comentar por M:.M:. — Segunda-feira, 31 Agosto 2009 @ 5:56 am | Responder

  2. 1.
    Quanto à religião maçónica, ver:

    http://wp.me/p2jQx-385

    2.

    “E chamar o ateísmo (ou o laicismo) de religião, é, obviamente falacioso e revelador, até, perdoe-me, de má-fé.”

    Caro amigo: não basta dizer que não é; tem que se dizer porque não é. Quando afirmamos algo e não dizemos por que o afirmamos, estamos a dogmatizar. Naturalmente que ninguém é obrigado a provar que está certo, porque a partir do momento em que alguém emite uma opinião, parte do princípio de que está certo e não tem que provar nada. Mas quando se trata de uma discussão deste tipo, não basta afirmar: temos, além disso, de argumentar em favor da nossa opinião de forma a sustentar a sua credibilidade. Numa discussão, as opiniões deixam de estar isoladas.

    Devo-lhe dizer que talvez tenha que se juntar a mais gente para reunir os argumentos para me contradizer.

    O simples facto de alguém dizer que “Deus não existe” traduz uma manifestação de crença dogmática, porque a ciência nunca pode provar que seja o que for não existe. O ateísmo pode não ser uma manifestação formal da religiosidade (como é a maçonaria), mas tem um conteúdo dogmático.

    3.

    “Se fosse maçon, saberia que é isso que estes defendem. “Onde todos possam mostrar a sua religiosidade”… ou falta dela.”

    Vou-lhe dizer uma coisa e acredite se quiser: eu sei mais da maçonaria que muitos que lá andam abaixo do 3 grau. Portanto, conta aqui a sua palavra contra a minha.

    4.

    “O que não toleramos são imposições, e catequeses encobertas e patrocinadas pelo Estado.”

    A frase acima revela uma imposição. Isto significa que a maçonaria tem como imposição não tolerar imposições de outras correntes que não sejam da própria maçonaria. A partir desta imposição maçónica, constrói-se a catequese maçónica que pretende patrocinar o Estado.

    5.

    “”A alternativa ao Estado laico é o Estado livre”. Esta afirmação foi só para provocar, não foi?!”

    Qualquer confissão religiosa parte do princípio de que o Estado livre é aquele que perfilha o seu ideário, e a maçonaria não é excepção. Por isso a sua ideia de provocação, porque para si o Estado maçónico é sinónimo de Estado livre. Naturalmente que Vc não se dá contra das suas próprias contradições porque vive num sistema fechado (ver teorema de Goedel).

    O Estado livre é um Estado livre da maçonaria. É por esse Estado que os portugueses têm obrigação ética e moral de lutar.

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    Comentar por O. Braga — Segunda-feira, 31 Agosto 2009 @ 10:00 am | Responder


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