perspectivas

Segunda-feira, 31 Agosto 2009

A maçonaria é uma religião?

Filed under: Maçonaria — O. Braga @ 10:00 am
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Dado o carácter secreto e esotérico da maçonaria, não podemos com segurança afirmar o conteúdo dos ensinamentos maçónicos. Porém, podemos descrever formalmente (forma) a maçonaria.

A maçonaria possui:

  • templos;
  • altares;
  • código moral;
  • rituais de liturgia;
  • vestimentas e apetrechos para os ritos;
  • dias festivos;
  • hierarquia;
  • rituais de iniciação;
  • rituais fúnebres;
  • promessas de eterna recompensa e/ou punição.

Por isso, e do ponto de vista formal podemos afirmar com autoridade de facto que a maçonaria é uma religião, independentemente de podermos eventualmente não saber qual é o conteúdo dessa religião.

14 comentários »

  1. “Por isso, e do ponto de vista formal podemos afirmar com autoridade de facto que a maçonaria é uma religião…”

    Pessoalmente acho que mais do que não poder, não o devia afirmar. Apesar de declarar saber mais da maçonaria que muitos dos seus aprendizes (o que até aceito porque sou dado a acreditar no que me dizem,talvez até de uma forma demasiado generosa) o que está a tentar fazer é cristalizar no leitor uma ideia de uma maçonaria “que se contradiz” por ser eminentemente anti-religiosa, sendo ela própria uma religião.

    Não vamos entrar aqui na discussão sobre a maçonaria adogmática e as correntes deístas ou teístas. Saberá, pelo que afirma, do que estou a falar e portanto saberá também que está a generalizar.

    Para mais facilmente fazer passar a sua imagem (preconceituosa, digo-o sem qualquer intenção ofensiva) do que é a maçonaria ao leitor menos conhecedor?

    – “rituais de adoração;” ?
    – “promessas de eterna recompensa e/ou punição.” ?

    Sinto-me tentado a pedir-lhe detalhes das duas alíneas acima…

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    Comentar por M:.M:. — Segunda-feira, 31 Agosto 2009 @ 3:56 pm | Responder

  2. 1.

    Falei em “rituais de iniciação“. “Adoração” não está lá escrito. Não convém tergiversar.

    Verifico com interesse que nenhum dos items (características) acima referidas foi desmentida.

    2.

    Existem dois tipos de preconceitos: o positivo e o negativo. De que tipo é o seu? O meu está aberto à discussão, e por isso é positivo. Um ser humano sem preconceitos é um cadáver; será que V.Exa. escreve do outro mundo?

    3.

    Não sei se lhe dá jeito que eu cite aqui uma série de obras de maçons, e algumas delas bem recentes. Se quiser, posso fazê-lo, embora me pareça prolixo porque muitas delas já são do domínio público.

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    Comentar por O. Braga — Segunda-feira, 31 Agosto 2009 @ 6:09 pm | Responder

  3. “- rituais de adoração;”

    4ª alínea…

    Claro que tenho preconceitos. Mas vivo com eles, não para eles: são os meus esqueletos no armário. Decerto não faço cruzadas por eles e tenho a humildade de reconhecer que nalguns poderei estar errado, e que é uma questão de tempo até alguém me provar que assim é.

    E, por favor, não use o “V. Exa” para me afastar. Ao abrir este espaço na blogosfera decerto não está à espera de manter diálogos num “registo parlamentar”, está?

    É claro que me dá jeito que cite as obras que refere como sendo “de maçons”: Como Maçon, não passo de um eterno aprendiz. Pelo que continuo curioso em relação aos já pedidos detalhes…

    Como agradecimento, num próximo comentário irei deixar-lhe uma ligação para um documento que me parece irá apreciar, quer pela mensagem, quer pelo valor histórico.

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    Comentar por M:.M:. — Segunda-feira, 31 Agosto 2009 @ 6:23 pm | Responder

  4. 1.

    Os rituais de iniciação pertencem à categoria do formalismo do ritual maçónico. Os eventuais rituais de adoração pertencem ao conteúdo dos rituais, que por serem de carácter esotérico e secreto, não referi aqui no postal, sublinhando contudo esse aspecto.

    Se existe uma iniciação, existe uma metanóia; se existe uma metanóia, por uma questão de lógica elementar, podemos supor a existência de um conteúdo ritualizado.

    2.

    A ideia de que quando alguém defende princípios está a “fazer cruzadas” é exactamente o sintoma do relativismo maçónico. Através desse argumento, que é isento de qualquer valor, pretende-se calar as vozes discordantes do ideário da maçonaria.

    3.

    Eu não afasto ninguém. Se há coisa que gosto é de uma boa conversa [mas prepare-se bem!]

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    Comentar por O. Braga — Segunda-feira, 31 Agosto 2009 @ 6:39 pm | Responder

  5. Não há qualquer arrependimento ou conversão na iniciação maçónica. Um maçon descobre-se maçon na iniciação. Ou não. A iniciação maçónica é síntese e não revelação. Não se faz um maçon pela iniciação, descobre-se um maçon. A haver revelação esta é íntima: “foi para isto que naturalmente me encaminhei”. A iniciação não é o fim nem o princípio. É apenas mais uma etapa na viagem que cada um de nós deve percorrer ao longo da nossa vida. Não nos movem certamente “promessas de eterna recompensa” nem medos de eterna punição. Sabemos bem a quem essa postura perante a vida se aplica como uma luva!

    Diga-me, porque é tão difícil a um cristão “apostólico romano” aceitar que existem outras formas de um Homem se relacionar com a sua transcendência que passam por não confiar num Deus, em não acreditar uma verdade revelada, em se recusar a suspender a sua própria razão para aceitar dogmas e ensinamentos que ao longo dos séculos demonstraram ser muitas vezes de origem bem longe de “divina”… antes pelo contrário de mesquinha e torpe origem humana?

    Porque é motivo de anátema a absoluta liberdade de consciência? Porque é que acha que adoptar uma postura adogmática perante o que ainda nos é desconhecido é sínónimo de degradação moral e ética? Mas vamos um pouco mais longe, um maçon deísta pode ser descrito como aquele que acredita na existência de um Deus ou ser supremo, mas nega a religião revelada, baseando a sua crença em função da natureza e da razão… o que incomoda aqui a sua Igreja? A resposta parece-me óbvia…

    Tinha prometido uma ligação que o irá interessar, acho. Atrevo-me até a imaginar que irá patrocinar uma versão revista e aumentada do ópusculo, 120 anos depois…

    Click to access lam_1886.pdf

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    Comentar por M:.M:. — Segunda-feira, 31 Agosto 2009 @ 11:55 pm | Responder

  6. 1.

    Uma metanóia é um processo psicológico através do qual o indivíduo se dissocia da sua realidade natural e assume uma realidade construída ou virtual, de tal forma que o indivíduo sujeito à metanóia repudia a realidade natural anterior. A metanóia nem sempre é sinónimo de arrependimento ou conversão no sentido judaico-cristão, mas tem um traço comum em todas as religiões: o repúdio da realidade anterior, que em muitos casos é a realidade natural.

    No caso do cristianismo, também existe uma metanóia, só que esta está de acordo com a ordem universal que tem em conta o Englobante, ou seja, a metanóia cristã é transcendente e tem em devida conta a Metaxia [dialéctica dos contrários] que é a tensão entre os opostos e a necessidade do justo-meio na manutenção do equilíbrio entre esses opostos.

    Demócrito encarna o princípio da antítese do cristianismo quando torna os pólos da experiência como entidades independentes que se podem unificar; resulta desta ideia a destruição da realidade da existência.

    Na esteira de Demócrito e do gnosticismo, outras religiões defendem a ideia da libertação da existência metáxica através da salvação do negativo (resgate moral do mal), através da ideia segundo a qual a ordem do ser pode ser mudada num processo histórico, e que a mudança do ser depende da política. Estas religiões são imanentes e traduzem a tradição do gnosticismo. A libertação revolucionária em relação à Metaxia existencial, ― conforme acontece com a aplicação do gnosticismo às ideologias modernas ― transforma e modifica o papel da ética em relação aos parâmetros existentes enquanto pensamento clássico e cristão.

    O imanentismo traduz-se, na prática, num retrocesso civilizacional ― note-se que a civilização é independente da Técnica; uma civilização não se define pela Técnica. Enquanto os gregos inventavam a filosofia, os chineses desenvolviam a indústria, mas dos primeiros chegou-nos o saber da ciência. A indústria burguesa não é sinónimo “automático” de civilização; a Técnica é necessária desde que complementada com a ordem do ser que inclui a metaxia transcendental.

    Naturalmente que uma metanóia de uma religião transcendental não pode ser idêntica à de uma religião imanentista. A primeira insere o Homem na Metaxia existencial, e a segunda nega a ordem metáxica do ser por via da alienação psicológica.

    2.

    A retórica não retira a validade da necessidade imposta pela evidência. Se o ritual de iniciação não fosse necessário na maçonaria, não existiria. O resto é conversa.

    3.

    Eu não sou um cristão “apostólico romano”. Sou cristão e ponto final. Por uma questão de lógica elementar, nunca defenderia um monismo, seja ele panteísta, pagão, animista, naturalista, maçónico ou imanentista de outra ordem.

    Deus é o nome que o cristianismo encontrou ― por via da etimologia grega latina― para o Englobante. Jesus chamava-Lhe “o Pai”. Não é importante o nome que se Lhe dá, mas é importante aquilo que Ele é [“Eu sou Aquele que é”].

    Não existe a possibilidade objectiva de uma transcendência sem o Englobante [Deus]. Neste sentido, a transcendência sem Deus é uma falácia que traduz a imanência do demiurgo. O cristianismo, para além da imanência, define a transcendência.

    Quando dizemos que “não acreditamos na verdade revelada”, estamos a acreditar numa verdade partindo do pressuposto que ela não é revelada. Já agora, a ler:

    http://wp.me/p2jQx-2FK

    Ora, toda a verdade é revelada. Em termos da Lógica, é impossível conceber uma verdade que não seja revelada pela própria verdade. Não podemos confundir “verdade” com “conhecimento”. O conhecimento pode eventualmente fazer parte da procura da verdade, mas não é a verdade em si mesma. A este propósito, ler:

    http://wp.me/P2jQx-2F7

    A negação da transcendência e da verdade de Deus só pode ser fruto de uma metanóia iniciática que resulta da alienação do espírito humano, e nunca é somente o resultado de um mero processo intelectual. Essa negação é religiosa no sentido da metanóia, assim como é religiosa, por exemplo, a metanóia marxista.

    O seu raciocínio é de quem ignora a História do pensamento humano. Ao ser humano não é possível viver sem crença e quem diz que “se recusa a suspender a razão” é quem não reconhece ou desconhece os fundamentos rudimentares da razão humana. Confunde-se “razão” com “racionalismo positivista”, o que é sinal de profunda ignorância ou má-fé. Suspende-se a razão quando se restringe a realidade a uma parte do Todo, reduzindo o ser humano ao estatuto ético de um arroto. A maçonaria traduz o retorno da barbárie com requintes de malfeitoria porque se pretende legitimar a barbárie positivista através da sua oposição a outras barbáries cometidas no passado: em nome do repúdio pelos cerca de 100 mil mortos pela Inquisição, a maçonaria pretende justificar, de forma condescendente, os mais de 200 milhões de mortos vítimas do positivismo revolucionário só no século XX, para além da justificação do eugenismo e de milhões de crianças que não nasceram em nome de um utilitarismo exacerbado e anti-ético. Não existe um adjectivo que possa classificar a maçonaria tão bem como “luciferina”.

    4.

    Não sei como pode existir “absoluta liberdade” partindo-se de um princípio relativista. Se tudo é relativo, a liberdade também é. Só existe absoluta liberdade se concebermos o princípio de que o absoluto existe. E se o absoluto existe, a verdade também é absoluta.

    Caro leitor: os seus argumentos devem ser escorados na lógica, porque se não forem, eles são ininteligíveis.

    A “postura adogmática” é dogmática no sentido em que transforma o anti-dogma em dogma. O verdadeiro espírito livre é aquele que perscruta a verdade por detrás de todos os dogmas, porque sabe que tudo na experiência humana se revela através do mito e do dogma. O espírito livre é racionalmente condescendente e benévolo em relação ao dogma, porque sabe que o dogma faz parte da condição humana como manifestação do desejo como lacuna radical do Homem; sabe que o desejo humano tem origem transcendental, embora esse desejo seja o motor da realização humana no plano material. O espírito livre situa-se na ordem metáxica universal e sabe que a fé metastática iluminista no “paraíso na terra” à custa de biliões de vítimas é própria de uma mente doente.

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    Comentar por O. Braga — Terça-feira, 1 Setembro 2009 @ 11:23 am | Responder

  7. «Não sei como pode existir “absoluta liberdade” partindo-se de um princípio relativista. Se tudo é relativo, a liberdade também é. Só existe absoluta liberdade se concebermos o princípio de que o absoluto existe. E se o absoluto existe, a verdade também é absoluta.

    Caro leitor: os seus argumentos devem ser escorados na lógica, porque se não forem, eles são ininteligíveis.

    A “postura adogmática” é dogmática no sentido em que transforma o anti-dogma em dogma. O verdadeiro espírito livre é aquele que perscruta a verdade por detrás de todos os dogmas, porque sabe que tudo na experiência humana se revela através do mito e do dogma. O espírito livre é racionalmente condescendente e benévolo em relação ao dogma, porque sabe que o dogma faz parte da condição humana como manifestação do desejo como lacuna radical do Homem; sabe que o desejo humano tem origem transcendental, embora esse desejo seja o motor da realização humana no plano material. O espírito livre situa-se na ordem metáxica universal e sabe que a fé metastática iluminista no “paraíso na terra” à custa de biliões de vítimas é própria de uma mente doente.»

    De uma lógica arrasadora! Parabéns, Orlando!

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    Comentar por Henrique — Terça-feira, 1 Setembro 2009 @ 12:12 pm | Responder

  8. A sua erudição não é, na minha pouco humilde opinião, compatível com uma afirmação como “A maçonaria traduz o retorno da barbárie com requintes de malfeitoria porque se pretende legitimar a barbárie positivista através da sua oposição a outras barbáries cometidas no passado”.

    Se num determinado momento ainda pensei em “me preparar bem” para “um bom diálogo”, acabei agora por verificar que o tempo me é demasiado precioso para que o possa perder a esgrimir argumentos com quem tão bem sabe citar eminentes autoridades filosóficas e religiosas, a começar pela própria Bíblia.

    E para quê? O seu caminho está por si bem delineado e se pudesse atirar-me-ia para os calabouços de uma qualquer Caxias, apenas por ser Maçon, como já aconteceu no passado.

    Pena é que tanto conhecimento (que não é sabedoria, longe disso) se esgote, aparentemente, numa cruzada nacionalista-cristã, usando as palavras, as definições, os formalismos, como armas de arremesso, a cada passo sugerindo a ignorância e´/ou a má-fé do interlocutor.

    São batalhas estéreis essas. Que não vou combater, exigiria de mim demais para tão infímo retorno, desculpe-me a franqueza. A esterilidade e assepsia de mentes académico-obssessivas choca-me, a mim que sou da terra e para a terra vivo.

    Quando publicar a versão Século XXI do “Manual da Liga Anti-Maçónica” envie-me uma cópia por email (que sabe decerto qual é).

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    Comentar por M:.M:. — Terça-feira, 1 Setembro 2009 @ 12:12 pm | Responder

  9. […] de uma forma acrítica em nome de uma obsessão herética. O fundamento da maçonaria é o gnosticismo, e tudo o que alimente o gnosticismo maçónico em detrimento das religiões tradicionais é […]

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    Pingback por O risco calculado « perspectivas — Sábado, 5 Setembro 2009 @ 3:56 am | Responder

  10. Gostaria de colher opiniões, de todos, independente do posicionamento, quanto a um artigo que recentemente escrevi sobre um assunto. Alguns mandaram comentários desaforados, sugerindo que eu estava muito interessado na “ordem do mal”, enfim… Não sou obrigado a deixar publicadas coisa assim, não é mesmo? Para aqueles que desejarem contribuir, de fato, fica aqui o meu convite.

    Paz e bem!

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    Comentar por Marcelo Lemos — Quinta-feira, 27 Maio 2010 @ 4:54 pm | Responder

  11. Desculpem pela falha; o artigo em questão é o seguinte:

    http://olharreformado.wordpress.com/2010/05/26/questoes-que-eu-gostaria-de-fazer-a-cada-cristao-macom/

    Paz!

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    Comentar por Marcelo Lemos — Quinta-feira, 27 Maio 2010 @ 4:55 pm | Responder

  12. […] do conceito, não é uma instituição “proto-religiosa”, como José Pacheco Pereira afirma: antes é formalmente uma religião, embora o conteúdo doutrinal e litúrgico da religião maçónica primordial seja desconhecido […]

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    Pingback por A evolução e progresso da maçonaria portuguesa « perspectivas — Domingo, 8 Janeiro 2012 @ 4:23 pm | Responder

  13. […] iniciados e de grau inferior da maçonaria não tenham, porventura, consciência plena deste facto, a maçonaria é uma religião. E como eu nada tenho contra as religiões, e pelo contrário sou a favor da liberdade religiosa, […]

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    Pingback por Fernando Pessoa, a maçonaria, e José Pacheco Pereira « perspectivas — Quarta-feira, 27 Junho 2012 @ 4:51 am | Responder

  14. […] iniciados e de grau inferior da maçonaria não tenham, porventura, consciência plena deste fato, a maçonaria é uma religião. E como eu nada tenho contra as religiões, e pelo contrário sou a favor da liberdade religiosa, […]

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    Pingback por Fernando Pessoa, a maçonaria, e José Pacheco Pereira [ por O. Braga ] « S3b4h's Blog — Quinta-feira, 28 Junho 2012 @ 12:13 am | Responder


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