perspectivas

Domingo, 30 Agosto 2009

Portugal: resumo de 200 anos de vergonha (IV)

Filed under: Portugal — O. Braga @ 5:22 am
Tags: , , ,

O rei D. Manuel II no exílio escreveu ao conde de Mafra, ainda antes de 19/1/1919:

«O manicómio nacional está cada vez mais activo, dando [disso] triste exemplo os nossos monárquicos.»

O rei resumiu aquilo que eu penso sobre a I república.

D. Manuel II foi apoiado pelo integralismo lusitano (IL) até ao momento em que aquele decidiu que não voltaria a Portugal senão quando existissem condições de concórdia nacional ― o que não aconteceu. Em face dessa posição do rei, o IL deixou de o apoiar passou a fazê-lo em relação a D. Duarte Nuno, neto de D. Miguel.

Desde logo, o simples facto de um rei ser alvo de uma escolha arbitrária ao sabor de volubilidades de temperamentos meridionais, não lembra a ninguém com juízo escorreito. O rei pode ser ou não ser aceite pelo povo, e nunca discriminado por uma elite. O rei não é uma condição de posse titular que denota o “ter”, senão alguém que existe anteriormente à propriedade do título: o ser. É-se rei; não se tem um título de rei. O rei não é um conde nem um barão, porque estes, sim, são detentores de títulos próprios do “ter”; os títulos nobiliárquicos existem depois do rei e em função dele ― os títulos existem como efeitos de uma causa, e a causa de um efeito não pode ser o próprio efeito. Por uma questão de lógica elementar, o rei é.

O “ser” existe antes do “ter”; o “ter” é uma consequência do “ser”. Tem-se algo porque se é, mas mesmo que se deixe de ter não se deixa de se ser quem é. A posse, seja do que for, não define o rei, porque ele é intrinsecamente e na medida em que é a síntese de uma nação. E mesmo que o rei viva ostracizado pela política oficial ― como acontece hoje com o rei D. Duarte Pio ― ele não deixa de ser quem é. Por isso é que maçonaria assassinou D. Carlos I, porque um rei só deixa de ser quem é quando morre ― e ainda assim fica no povo a memória dele.

Ademais, o IL foi mal agradecido para com D. Manuel II, porque este apoiou sempre ― e por escrito ― as ideias do IL em detrimento da corrente constitucionalista e liberal da Carta. Este terá sido, na minha opinião, um erro do rei que contribuiu para a divisão do movimento monárquico ainda mais do já estava. De resto, o rei ao tomar partido nas querelas monárquicas acabou por fazer parte do “manicómio nacional” que criticara na sua carta ao conde de Mafra…


Anteriormente falei na utopia histórica em que se imagina a possibilidade daquilo que não aconteceu. Ao longo de todo o texto até aqui fiz uma sucinta análise crítica da História portuguesa até à república. Naturalmente que uma análise crítica não é uma ucronia na medida em que aquela faz a crítica a um cenário histórico sem imaginar outro em seu lugar. A ucronia parte de um determinado momento histórico para, baseando-se nele, construir a “História Alternativa” seguindo exactamente os métodos da mente revolucionária maçónica. Foi isto que o IL fez, e mais ainda: através da ucronia partilhou o determinismo histórico em grau idêntico ao dos radicais maçónicos.

Por isso é que eu digo que Rousseau influenciou tanto Robespierre (de quem era amigo íntimo), como Afonso Costa e como António Sardinha. E os que defendem hoje o IL tal qual concebido no início do século XX incorrem numa dupla ucronia, que é a ucronia de uma outra ucronia.

Para além destes aspectos formais que me merecem reparo, existem diferenças de conteúdo. A ideia do IL segundo a qual a monarquia aponta necessariamente para um corporativismo político é, para além de utópica e gnóstica, contrária à essência da própria monarquia tal qual surgiu com a nacionalidade. É um absurdo que se crie um “modelo monárquico” em que se inclua o rei como uma peça de um sistema, não só porque o rei está acima de qualquer sistema político, como porque o rei existe em função do povo e só deste, e não em função de uma elite constituída ao abrigo do conceito de “vontade geral” do “Contrato Social” de Rousseau.

Sobre a personalidade de António Sardinha não me vou pronunciar, porque também tenho os meus defeitos. Mas sempre digo que dele não se pode dizer que tenha existido uma coerência política senão no seu apego exacerbado ao totalitarismo, provavelmente por razões que não se ligam tanto à razão quanto à emoção e ao seu perfil psicológico. António Sardinha foi republicano no tempo da monarquia, e monárquico no tempo da república. O IL apoiou o golpe-de-estado de 1926 que acabou por conduzir Salazar ao Estado Novo.

Não é possível voltarmos a 1805 e a partir daí construirmos uma ucronia, embora tivesse sido desejável que o caminho seguido a partir de 1817 tivesse sido diferente, adoptando-se uma política de reformas em lugar do radicalismo seguido. Também não é possível defender hoje uma “monarquia cartista e liberal” porque ambas as teorias ― o integralismo e o cartismo ―, para além de totalmente anacrónicas, partem de um princípio do “rei que tem um título” em lugar do princípio do “rei que é”. O Vintismo, o Miguelismo e o Cartismo tiveram o condão de contribuir para dissociar Portugal das suas origens históricas e culturais, a ponto de que nos esquecermos que a política circunstancial passa e o rei permanece.

A ucronia do IL não aconteceu porque era impossível, e temos agora de olhar para o futuro e não para uma utopia passadista. O passado está enterrado e o futuro a Deus pertence.

Quando os monárquicos utilizam o mesmo método revolucionário da maçonaria, aqueles perdem sempre porque se movimentam em território alheio e hostil. O lugar da monarquia é o da “razão cristã”; o da república maçónica é o da “emoção gnóstica”. A razão que sustenta o Cristianismo compreende a emoção, enquanto que o gnosticismo se afasta sempre e mais da razão.

A razão nunca pode permitir que se coarcte a liberdade, entendida como fundamento ontológico da consciência individual através do exercício da vontade ― e não a liberdade entendida pelo gnosticismo maçónico como sendo o acto livre com origem na consciência em si mesma (ver nota).

Basta lermos praticamente todos os filósofos cristãos desde Orígenes a Louis Lavelle, para percebermos o valor da liberdade no Cristianismo. O princípio que deve nortear os valores monárquicos deve ser sempre o da liberdade entendida conforme a filosofia cristã que moldou a nossa nacionalidade, porque se o povo não for livre teremos um rei cativo.

Nota: segundo a razão cristã, não somos livres porque escolhemos, mas escolhemos por somos livres; mais uma vez verificamos,através da lógica, a afirmação primacial do “ser” através da qual um fenómeno nunca pode ter como causa o seu próprio efeito. Tal como o acto de ver não pode ser a causa do funcionamento do olho, assim a liberdade não pode ser o efeito dos actos livres do ser humano. Se a consciência é causada pela sua própria acção, passa a ser a causa de si mesma, o que é um absurdo. A consciência é apenas o instrumento através do qual a liberdade se expressa impulsionada pela vontade.

1 Comentário »

  1. […] série de postais falei da ucronia, que é também filha de Rousseau. A utopia de Tomás Moro, assim como a ucronia de Renouvier, […]

    Gostar

    Pingback por O Positivismo e a Razão « perspectivas — Domingo, 30 Agosto 2009 @ 7:20 pm | Responder


RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

AVISO: os comentários escritos segundo o AO serão corrigidos para português.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: