perspectivas

Domingo, 30 Agosto 2009

O Positivismo e a Razão

Chamo a vossa atenção para este texto que vale a pena ler. Contudo, não deixaria de fazer ressaltar algumas ideias do texto com as quais não estou em total acordo:

A questão da síntese entre o tradicionalismo e o racionalismo ― entendido este como “racionalismo empírico” ou Positivismo

Diz o autor do texto que não existe uma síntese entre o essencialismo e o positivismo (porque na minha opinião, ambas as correntes são racionais; não existe um monopólio da razão por parte do empirismo). Contudo, os caminhos para essa síntese já existem racionalmente definidos. O problema é que o positivismo se afirmou como um mito social de tal forma que gerou “impedâncias” no espírito crítico da comunidade científica e se transformou em dogma para a sociedade em geral. Enquanto que durante o essencialismo tínhamos um clero de sotaina, com o positivismo passamos a ter um novo clero de bata branca.

Os caminhos para a síntese existem, nomeadamente, através da Física quântica. Porém, a ciência faz-se hoje “cada uma para seu lado”. Por exemplo, a biologia ignora ostensiva e totalmente as conclusões da mecânica quântica sobre o comportamento da “função ondulatória quântica” e sobre a “sobreposição da matéria”. O que está a acontecer hoje é muito parecido com o que aconteceu no tempo de Galileu, mas em sinal contrário: existe uma pequena comunidade científica que alerta para uma nova realidade que faz a síntese do essencialismo e do positivismo, mas não só a sociedade em geral está totalmente alheada dessa nova realidade sintética e se mantém fincada no mito social positivista transformado em dogma, como os poderes seculares (economia e a política que controlam os me®dia) e o novo clero (as ciências “cada uma para seu lado”) fazem de conta que essa realidade não existe, em função de interesses particulares óbvios.

As relações promíscuas entre o Poder (economia e política) e a comunidade científica (novo clero) transformam as conclusões da quântica em tabu.

Portanto, o caminho ― não digo que essa síntese exista já hoje no seu estado completo ― para essa síntese existe já, ou seja, existem sinais claros e comprovados pela lógica do formalismo matemático de que essa síntese é perfeitamente plausível e racional.

A questão do romantismo versus positivismo

Quando se fala em romantismo, Rousseau é incontornável. E depois temos toda uma série de “filhos de Rousseau” (para não dizer outra coisa) que se manifestaram pela utopia como o centro da realidade. A realização da utopia exigia uma metanóia (uma conversão à causa ou a um ideal) que dissociava necessariamente o ser humano da sua realidade natural. A metanóia utópica é uma Ersatz da conversão religiosa clássica, mas desta feita em termos gnósticos da “construção do paraíso na terra” e com o recurso ao profetismo do “futuro inexoravelmente certo” ― porém, com a desvantagem de ser desprovida de razão intrínseca.
Quando Voltaire dizia que Rousseau “andava de gatas”, aludiu à sua irracionalidade e com toda a razão: Voltaire tinha a razão conhecida do seu tempo que o sustentava, enquanto que Rousseau se apoiou na subjectividade pura para sustentar a sua ideologia ― porque não podemos dizer, honestamente, que Rousseau tivesse sido um filósofo mas antes um ideólogo no sentido iluminista.

Por último, podemos facilmente constatar que o essencialismo escolástico era muito mais racional do que se pode pensar à luz do positivismo, e claramente incomparavelmente mais racional do que o romantismo. O argumento ontológico, o cosmológico, e todo armazém da escolástica é mais racional do que o ilogismo sentimental oriundo de Rousseau. Pelo menos, os argumentos escolásticos são honestos: alguns foram já validados e provaram; outros são considerados inválidos à luz do conhecimento actual, mas o caminho para prová-los continua em aberto. Mas a “teologia do coração” de Rousseau desiste de argumentos, e não pode ser, por isso, refutada porque não pretende demonstrar seja o que for. A única razão dada pelo romantismo é que nos permite condescender com sonhos agradáveis, ucronias e utopias de um inexorável paraíso na terra: é a razão sem valor. Comparar S. Tomás de Aquino com Rousseau ou Nietzsche é insultuoso para o santo.

A questão da liberdade individual

Numa série de postais falei da ucronia, que é também filha de Rousseau. A utopia de Tomás Moro, assim como a ucronia de Renouvier, tinham intenções pedagógicas porque ambos sabiam que o determinismo histórico não existe ― como é hoje comprovado pela quântica: existem apenas possibilidades que se podem realizar ou não. Contudo, Rousseau leva a utopia pateticamente a sério. Por isso, não podemos dizer que Rousseau fosse anti-iluminista porque o Iluminismo se baseou no conhecimento gnóstico, e a ideologia de Rousseau é claramente gnóstica. A diferença entre Voltaire e Rousseau é a de que o primeiro acreditava na força libertadora da ciência como condição para a construção do paraíso na terra, enquanto o segundo acreditava que o paraíso na terra se construía através de do conhecimento esotérico e da construção de uma sociedade fortemente controlada e condicionada na sua liberdade por uma elite, através do conceito de “vontade geral” (que não é a “vontade de todos”).

Não podemos culpar a tecnologia pela metanóia (dissociação psicológica em relação à realidade natural) gnóstica contemporânea. Não é a Internet que tem culpa, mas sim o espírito gnóstico que se instalou e que através dele muita gente vive uma utopia individual e subjectiva (realidade individual desfasada da realidade objectiva). Trata-se de uma doença mental que tem mais a ver com Zeitgeist do que com a tecnologia. Seria como se culpássemos o MacDonald’s por termos uma população obesa, seria retirar ao ser humano a faculdade da vontade e da razão. O que podemos dizer é que a tecnologia é utilizada pela política correcta para disseminar a metanóia gnóstica a tanta gente quanto possível, o que é coisa diferente.

O que o autor diz é: “eu sou inteligente e racional, e considero a maioria irracional, de forma a que a liberdade individual deve ser restringida”. Esta é uma visão de Nietzsche que seguiu Rousseau. É uma visão gnóstica que está na origem do problema e não consta da sua solução.

O gnosticismo positivista é um facto: está aí para toda a gente ver, e não devemos cair no erro de combater o gnosticismo com o gnosticismo; cairíamos num circulo vicioso de irracionalidade que cria mais irracionalidade. Sendo eu da direita política, há quem me considere “moderado”; mas quem diz que eu sou “moderado” é incoerente porque faz do radicalismo gnóstico a essência da própria Razão ― que se pretende total e não parcial ―, ou seja, assimila o gnosticismo para combater o gnosticismo. Seria como se eu assumisse o marxismo para combater o marxismo: um perfeito absurdo.

O gnosticismo deturpou o conceito de liberdade que nos chegou da escolástica cristã. Quando o gnosticismo atribui à consciência individual a sede do acto livre, isto é, a causa da liberdade, pretendeu justificar o libertinismo utilitarista e iluminista (Stuart Mill) ou a repressão totalitária da liberdade individual (Rousseau, Nietzsche, Marx). O gnosticismo, sendo radical e irracional na sua essência, cai invariavelmente num dos extremos.

Da mesma forma que o acto de ver (visão) não pode ser a causa do funcionamento do olho, a liberdade não pode ser causada pelo acto livre. Um fenómeno não pode ter como causa o seu próprio efeito. A consciência é apenas o instrumento através do qual a liberdade se expressa obedecendo à “selecção da vontade” (ver S. Tomás de Aquino).

A partir do momento em que a consciência não é a sede da liberdade, mas antes é-o a vontade selectiva, a repressão exógena da vontade individual, em relação a uma pessoa adulta e idónea, torna-se tão irracional como o conceito de acto livre com sede na consciência, porque essa repressão parte do mesmo princípio irracional para se afirmar.

A única forma de corrigir o acto livre que não se identifique com a “vontade selectiva racional” é utilizando os instrumentos da razão e da lógica, isto é, da educação integral do ser humano. Qualquer correcção da vontade individual que não se escore na razão e na lógica acaba sempre por gerar ainda mais irracionalidade. Para isso, é preciso, antes de mais nada, identificar o gnosticismo em todos os seus componentes ideológicos, e depois combater racionalmente as contradições gnósticas. É esta a verdadeira função das elites culturais esclarecidas, e não o de contribuir para um ciclo perpétuo do “eterno retorno” nietzscheano da irracionalidade que subjuga o ser humano.

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