perspectivas

Quinta-feira, 27 Agosto 2009

Portugal: resumo de 200 anos de vergonha (I)

Filed under: Maçonaria,Portugal — O. Braga @ 9:46 pm
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Sinto-me desafiado a escrever sobre o chamado “movimento integralista lusitano”, tentando ser sucinto. Simultaneamente direi também alguma coisa sobre este postal que me chegou por esta via.

O que se passou nos últimos 200 anos em Portugal foi, em termos gerais, uma vergonha, e tanta que eu sinto vergonha de falar disso. A vergonha abrange praticamente toda a gente, desde liberais a miguelistas e ao próprio rei D. João VI e comitiva. Pouca gente teve a lucidez suficiente para se aperceber daquilo que o país necessitava; o próprio D. Pedro IV integrou a expedição que desembarcou em Arnosa do Pampelido em busca dos direitos de sua filha ― os interesses da nação ficaram sempre em segundo plano. Em carta enviada por D. Pedro ― que se encontrava no Brasil ― ao seu pai, aquele defendeu a alienação da nacionalidade portuguesa ao Brasil independente, reduzindo assim a nada uma História de 700 anos.

D. Miguel não fez coisa diferente enquanto fedelho que se pavoneava na corte de Metternich à espera de reclamar os seus direitos. A vergonha é tanta quanto o facto de o próprio rei D. João VI ter morrido envenenado pela sua entourage “apostólica”, e junto com ele foram envenenados também o seu cozinheiro e dois médicos pessoais do rei; Portugal parecia viver no tempo dos Médicis.

Com a revolução burguesa de 1789 em França, Portugal foi apanhado por um torvelinho da História. Naturalmente que ninguém em consciência pode dizer que antes das invasões napoleónicas Portugal vivia no melhor dos mundos; o país precisava de reformas urgentes. Porém, a forma como o processo revolucionário se desenvolveu inquinou as possibilidades de verdadeiras reformas dirigidas por líderes políticos prudentes ― detentores da frònesis grega. Aquilo que não está bem ou não corresponde ao melhor, não justifica o radicalismo que tem como resultado o fazer-se ainda pior. As promessas vãs e demagógicas dos vintistas eram desenhadas nas lojas maçónicas que os próprios soldados ingleses plantaram em Lisboa e Porto; os refugiados franceses da revolução burguesa fugiam a Napoleão ao mesmo tempo que instalavam, também eles, lojas maçónicas na capital.

A partir de 1817, depois de rechaçadas as tropas de Napoleão, em Portugal não havia rei nem roque. As tropas inglesas comandadas por Beresford defendiam o interesse liberal inglês servindo o rei absolutista D. João que se recusava a retornar ao país enquanto desfrutava o clima tropical do Brasil. Portugal passou a ser um protectorado compartilhado entre o governo inglês liberal e um rei exilado absolutista que se recusa a retornar à pátria. As tropas inglesas estacionadas no nosso país recorriam sistematicamente à colecta coerciva de bens e produtos do povo, sacando à fartazana. Depois do saque das tropas napoleónicas, ficaram por cá os ingleses que continuaram o roubo colectivo em soft mode.

Ainda o país não se tinha podido refazer da invasão das tropas jacobinas, uma meia de dúzia de maçons do Porto e defendendo interesses próprios e burgueses, totalmente dissociados do povo da cidade que não sabia o que se estava a ser engendrado, lançou uma revolução maçónica (os vintistas). De um extremo político medieval a precisar de reformas, Portugal passou a outro extremo político claramente anti-cultural e de submissão da economia nacional ao estrangeiro. Tinha começado o inferno português que dura há 200 anos.
Diga-se de passagem que a maçonaria daquele tempo tinha uma qualidade que os maçons actuais não têm: eram patriotas. Quando o general espanhol Barreiros tentou convencê-los a alienar a nacionalidade portuguesa em favor de um Estado Ibérico Liberal sob a égide de Fernando VII, os “regeneradores” recusaram com repulsa enérgica e veemente. Hoje, é a maçonaria que pretende alienar a nacionalidade portuguesa em favor da submissão às mesmas potências europeias de então, através do leviatão europeu e do iberismo.

Radicalismo gera radicalismo, e os vintistas sabiam isso. A ideia dos radicais é sempre fazer instalar a instabilidade política permanente através da eliminação do justo-meio. No meio dos radicalismos alternativos, das lutas pessoais pelo Poder, Portugal saiu a perder. A propaganda vintista equivale hoje à do Bloco de Esquerda: demagógica, irrealizável a curto ou médio prazo, revolucionária porque ignorava a prudência política e porque partia de um princípio de superioridade moral que se revelou catastrófico para a nação.

Com a penetração maçónica no país, a maçonaria nunca deixou de controlar o Poder, seja com os vintistas ou seja com os miguelistas. O absolutismo de D. Miguel já não poderia ser o absolutismo anterior à fuga do rei para o Brasil ― e é por isso que são criticáveis os tradicionalistas “apostólicos” que não se deram conta de que a melhor estratégia política não seria a de um retorno histórico impossível, mas o de uma postura prudente de reformas que garantissem ao país uma evolução na continuidade. E por isso é que os miguelistas tiveram tanta responsabilidade em todo o processo miserável que conduziu à república maçónica quanto os liberais: tudo rama da mesma cepa.

É neste clima de radicalismo em alternância controlado pela maçonaria que se desenrolou a política portuguesa até à república, e continuou depois até aos nossos dias. A verdade é que a política portuguesa nunca conseguiu neutralizar o veneno maçónico que matou D. João VI ― mesmo que esse veneno tenha sido administrado pela entourage miguelista, a verdade é que a causa do descalabro ético e moral neste país teve a sua origem no jacobinismo maçónico.

(continua)

2 comentários »

  1. […] pm Tags: Carbonária, iberismo, jacobinismo, Maçonaria, nacionalismo, Portugal Portugal esteve em estado de guerra contínua entre 1806 e 1851; foi meio século de conflitos externos e internos. Depois de expulsas as tropas de Napoleão, […]

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    Pingback por Portugal: resumo de 200 anos de vergonha (II) « perspectivas — Sexta-feira, 28 Agosto 2009 @ 1:16 pm | Responder

  2. […] Portugal: resumo de 200 anos de vergonha (I) […]

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    Pingback por Portugal: resumo de 200 anos de vergonha (IV) « perspectivas — Domingo, 30 Agosto 2009 @ 6:07 am | Responder


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