perspectivas

Quarta-feira, 19 Agosto 2009

O negócio leonino dos grandes países da União Europeia

Paisagem islandesa

Paisagem islandesa

Antes da crise que rebentou em 2007/2008, a Islândia era sistematicamente acossada pela União Europeia no sentido da sua adesão ao leviatão europeu e à adopção do Euro. Os negócios internacionais corriam bem e a Islândia tinha um PIB per capita dos mais elevados do mundo, equiparado ao irlandês, suíço ou luxemburguês.
Depois de reconhecida a crise global, o Reino Unido passou a tratar a Islândia como uma nação terrorista quando nacionalizou os investimentos islandeses anteriormente realizados na Grã Bretanha, sem consultar ou negociar previamente essa nacionalização com o governo islandês.

A Islândia é um pequeno país com pouco mais de 300 mil habitantes; para que se faça uma ideia, o concelho de Vila Nova de Gaia tem mais gente.

Quando nós vemos um economista na TV a dizer que “a situação económico-financeira mundial é imprevisível”, esse facto não se deve à dificuldade natural de prever o comportamento de uma economia global que depende uma infinidade de variáveis, mas essencialmente deve-se a uma crença sobre a ideia de “mercado racional” através da qual essa teoria económica nos é apresentada como sendo “científica”. A partir do momento em que essa teoria económica é considerada como sendo “científica”, qualquer contradição à própria teoria é justificada com a “imprevisibilidade”; a “imprevisibilidade” passa a ser pau-para-toda-a-colher para justificar as falhas do “método científico” expresso na teoria do “mercado racional”. A verdade é que o mercado é irracional, e para quem o controla convém que assim seja.

Neste momento, mesmo que a Islândia quisesse entrar para a UE e para o Euro não o poderia fazer, porque o Tratado de Maastricht impõe um máximo de dívida de 60% em relação ao PIB bruto. Como os países credores da Islândia reclamam intransigentemente o pagamento da dívida, esta assume um valor de cerca de 250% do PIB daquele pequeno país. Isto significa que a população da Islândia teria que trabalhar 2 anos sem comer nem beber e dormindo no meio da rua ― em condições muito piores do que acontece na Indonésia ou nas Filipinas ― para poder pagar a sua dívida à Inglaterra e à Holanda, para depois poder ter alguma esperança de entrar na UE e no Euro.
Em resultado disto, a emigração em massa está a acontecer na Islândia, o que significa que a ilha nórdica se transformará, por este andar e a breve trecho, num território habitado por poucas dezenas de milhar de pescadores reformados, o que levará a que a dívida islandesa nunca seja realmente paga. Entretanto, ferida de morte, a Islândia mantém-se receptiva a uma proposta russa de instalação de uma base militar naval de grandes dimensões no seu território: eis o resultado da teoria científica da racionalidade do mercado.

O problema não é só da Islândia: os países bálticos, e principalmente a Letónia, apresentam exactamente o mesmo problema. Abriram os seus mercados sem critério racional às importações da União Europeia, o que significa que a produção interna desses países foi relegada para segundo plano e passaram a comprar “tudo feito” nos grandes países da UE. Em resultado, deixaram de exportar, e deixando de exportar ou exportando menos do que seria desejável, passaram a importar também o desemprego a partir das grandes economias da UE ― confiando na teoria do “mercado racional” segundo a qual as dívidas não criam problemas mas reflectem apenas o valor imobilizado que antecipam a inexorabilidade de uma rentabilidade no futuro.
O caso da Suíça como pequeno país é oposto: protegeu o seu pequeno mercado e a sua indústria (embora de uma forma racional e moderada) e mantém hoje a sua capacidade de exportação.

E agora, caro leitor, responda a algumas perguntas: o que se passa em Portugal? Como é que passamos, em poucos anos, a importar de Espanha mais de 30% de tudo o que consumimos? Como é que Portugal desmantelou, em 10 anos, mais de 50% da sua indústria? Pense, caro leitor, pense… Não deixe que a União Europeia e os políticos portugueses vendidos que se abotoam em Bruxelas, pensem por si.

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3 comentários »

  1. No teste que circulou aquando das europeias eu fiquei tão em baixo e ao meio que o partido mais próximo de mim era o PNR.

    Comentar por Henrique — Quarta-feira, 19 Agosto 2009 @ 8:43 pm | Responder

  2. “nacionalizou os investimentos islandeses anteriormente realizados na Grã Bretanha, sem consultar ou negociar previamente essa nacionalização com o governo islandês”

    que anteriormente “nacionalizara” – sem consulta – o dinheiro que os ingleses tinham nos bancos da ilha.

    José Simões

    Comentar por Jose Simoes — Quinta-feira, 20 Agosto 2009 @ 11:58 pm | Responder


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