perspectivas

Segunda-feira, 17 Agosto 2009

O problema do inatismo das ideias

brain

Uma das grandes polémicas filosóficas foi a do inatismo das ideias. Não vai muito tempo, o ateu Bertrand Russell insultava Platão e Leibniz; Nietzsche dizia que Kant era estúpido; Locke afirmava que Descartes não estava totalmente certo, embora não o desmentisse em toda a linha e até entrasse em contradição em relação ao inatismo. A contradição ética de Espinosa ainda foi mais flagrante: ao mesmo tempo que adoptou a teoria de Hobbes no que respeita à valorização do poder absoluto político e terreno, com a consequente ausência do inatismo, considerava que o Bem consistia na união com o seu Deus panteísta; Espinosa foi ateu e panteísta ao mesmo tempo.

Mas o problema já vinha de trás, dos gregos da escola Megárica e dos estóicos. Do epicurismo e do estoicismo surgiu a teoria da “tábua rasa” mais tarde adoptada pelos empiristas ingleses a partir de John Locke. Influenciado por este, Voltaire assumiu a mesma linha de pensamento. Com o positivismo, a luta contra o inatismo passou a ser feroz e atingiu o seu clímax com Karl Marx; pelo meio ficou o coitado do Darwin que nunca se assumiu publicamente como ateu.

A atitude mais moderada no meio desta controvérsia foi a de Leibniz que considerava que o inatismo era parcelar e diminuto, isto é, existem apenas pequenos resquícios de ideias inatas, e todas as outras são consequência da experiência. Mesmo assim, foi criticado pelos empiristas ingleses como Hume, Bentham e Stuart Mill (entre outros).

Entretanto, vão aparecendo notícias da ciência que nos dizem que Leibniz não estaria de todo errado, e que Platão viu aquilo que a alegada inteligência do Bertrand Russell não conseguiu ver: o cérebro humano processa a informação da realidade exterior independentemente do sentido da visão.

O cérebro de um cego de nascença separa os objectos concebidos através das ideias e conceitos que tem desses objectos (sem nunca os ter visto, naturalmente) por categorias específicas processadas em determinadas áreas do cérebro ― tal como o faz uma pessoa que não é cega, isto é, o funcionamento do cérebro humano é independente da sensação, ou melhor, o cérebro não necessita da sensação para a percepção.

1 Comentário »

  1. Realmente, o problema inatismo x empirismo é constante na história da filosofia e, por extensão, na história do conhecimento. Contudo, acho que Kant começou a indicar o caminho: embora o conhecimento se origine segundo o tempo na experiência, há estruturas anteriores, inatas, que determinam o tipo de experiência e, portanto, de conhecimento que se pode ter. Por conseguinte, é óbvio que a mente humana pode processar a experiência de objetos independentemente do sentido da visão, e que o cérebro não necessita de um tipo específico de sensação para que exista a percepção de objetos. Um abraço.

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    Comentar por Gustavo Bertoche — Terça-feira, 18 Agosto 2009 @ 1:05 am | Responder


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