perspectivas

Sábado, 15 Agosto 2009

Sobre a “elite” intolerante que manda neste país

Assistimos aqui a um chorrilho de generalidades apresentadas em slogan mode. O texto está de tal forma armadilhado ideologicamente que a sua desmontagem deve ser feita com pinças, porque de outro modo as pessoas não entenderiam o que está em causa com o apelo emotivo imediatista de tipo “slogan” e em nome da “igualdade”. Eu tenho feito isso de forma sistemática e em vários artigos, e continuarei a fazê-lo. Farei o “debunk” desse texto noutro postal aqui.

Como expliquei aqui, o politicamente correcto é o marxismo cultural que evoluiu depois da queda do muro de Berlim. O marxismo, seja em que roupagem exista, é a negação da razão ― é uma logofobia.

Marx assentou toda a sua teoria na recusa (e mesmo receio) dos conceitos filosóficos. Marx recusa-se a utilizar uma linguagem crítica, recorrendo, em vez disso, a símbolos. Marx criou um meio especifico de expressão que é também utilizado nesse texto: quando os signatários se vêem perante um ponto crítico e contraditório, no qual a sua teoria ou conteúdo do texto corre o risco de se auto-contradizer, utilizam metáforas que fazem comparações forçando relações entre termos indefinidos ― no caso do texto, a “igualdade” é um termo utilizado de uma forma difusa e indefinida.

E perguntamos nós: o que é a “igualdade”? O texto não o diz: parte do termo “igualdade” de uma forma indefinida e metafórica, seguindo avant la lettre a linguagem simbólica [slogan] marxista. A “igualdade” é, segundo o texto, aquilo que os autores do texto entendem ser e segundo critérios que eles próprios não explicam. A “igualdade” passa a ser uma metáfora que é produto de uma indefinição do próprio termo utilizado (a “igualdade”).

A metáfora em redor do termo “igualdade” é um elemento ditatorial que é característica do marxismo cultural [e do marxismo em geral], e que impede o debate, porque qualquer pergunta sobre o que é a “igualdade” é considerada imediatamente como sendo uma “pergunta intolerante”. Passa a ser proibido perguntar.


Absurdo com pernas

Absurdo com pernas

Para mim, seria mais fácil abdicar de algumas posições éticas que manifesto aqui neste espaço e que são consideradas como “radicais” por parte de uma auto-proclamada “elite progressista” eminentemente lisboeta e ligada a um sub-mundo cultural auto-denominado de “artístico”. Mas não posso fazê-lo porque ― na tradição do pensamento de John Locke ― penso que a ética deve ser racionalmente fundamentada ― a ética não pode ser somente uma questão de fé, seja em Deus ou no diabo.

John Locke é defensor do carácter racional ou demonstrativo da ética, na medida em que considera que não se pode propor nenhuma regra moral que não deva dar primazia à razão, sendo que a razão de tais regras morais deve ser sempre a sua utilidade para a conservação da sociedade como um todo. Ora, as regras morais nunca se podem dissociar da cultura; é uma perfeita estupidez pensar que é possível que se possa ter uma ética universal válida e racional, e simultaneamente um multiculturalismo.

Neste sentido, Locke considera que dada a disparidade de regras morais seguidas por diferentes grupos em que a humanidade se divide, será sempre necessário isolar e recomendar aquelas [regras morais] que se revelem verdadeiramente eficientes no sentido da conservação da sociedade. Isto parece-me francamente racional.

A “elite progressista” a que me refiro acima procede exactamente como um grupo religioso fideísta e fundamentalista, na medida em que defende uma alteração radical das regras morais com recurso a uma espécie de fé gnóstica que se escora no princípio da possibilidade de uma sociedade perfeita e do paraíso na Terra. Para tal, essa “elite” elimina irracionalmente a hierarquia dos valores éticos ― todos os valores passam a ser sensivelmente iguais, e é nisto que consiste o seu niilismo ―, ou em muitos casos, procede à inversão da moral e dos seus valores. É tão irracional essa “elite” como são os talibãs do Afeganistão: a razão não conta para a formatação de uma ética que beneficie a sociedade como um todo, não só no presente, mas sobretudo para beneficio do futuro colectivo.

Em nome da “tolerância”, essa “elite” pratica a sistematicamente intolerância na medida em que se fecha em preconceitos negativos ― aqueles que são tabu e que não se discutem ― ao mesmo tempo que estigmatizam a razão chamando de “preconceituosos” a todos aqueles que pretendem discutir as regras morais de forma racional. Contra os argumentos, lançam o slogan barato. Contra a razão, assumem posições de fideísmo político.

Ao longo das últimas décadas, a ética hierarquizada e valorativa que tornou possível o caminho e a sobrevivência da nossa sociedade ao longo de quase nove séculos, tem feito concessões sucessivas a essa “elite” em nome da “tolerância” e do “relativismo absoluto” que se transforma em um niilismo. Em nome da celebração cultural de uma minoria, essa “elite” está-se absolutamente nas tintas para a sociedade: trata-se de um caso flagrante de uma sociopatia conotada com uma sub-cultura urbana e ligada ao bas-fond artístico. Concessão após concessão, a irracionalidade impõe-se, e o povo não é ouvido nem achado.

Diz a “elite” que “direitos individuais não se discutem nem podem ser sujeitos a referendo”. Mas quando se tratou do referendo do aborto, alegadamente estavam em causa direitos individuais de quem quer abortar ― não obstante ficassem anulados quaisquer direitos dos abortados ―, e neste caso já houve um referendo “por culpa do Guterres”: não fora a burrice do Guterres, decretava-se o aborto no parlamento porque não se discutem direitos individuais, mesmo que esses direitos atropelem os direitos de outros cidadãos — incluindo aqueles que não nasceram.

Irrita-me que essa “elite” me trate como um mentecapto, que se arroga no direito de me dizer: “não queremos discutir direitos de alguns indivíduos ― a não ser os teus direitos: só os teus direitos podem ser discutidos, e não os direitos dos nossos amigos da nossa sub-cultura urbana. É assim que queremos, e mais nada!”. E quando lhes digo que direitos acrescidos e especiais de uma minoria coarctam necessariamente e sempre outros direitos da maioria, dizem-me com sobranceria: “cale-se, ignorante! Seu fascista! Feche o blogue ou fazemos uma denúncia de censura política.”

Parafraseando o poeta Aleixo, “a razão, mesmo vencida, não deixa de ser razão”; ou como disse Camus no seu livro “A Peste”, “há sempre um momento da História em que quem diz que dois mais dois é igual a quatro, é condenado à morte”.

Adenda:

Do Henrique recebi o seguinte comentário por email:

«O acesso ao casamento civil por parte de casais do mesmo sexo, em condições de plena igualdade com os casais de sexo diferente, não trará apenas justiça, igualdade e dignidade às vidas de mulheres e de homens LGBT. Dignificará também a nossa democracia e cada um e cada uma de nós enquanto cidadãos e cidadãs solidários/as – e será um passo fundamental na luta contra a discriminação e em direcção à igualdade. »

Ao todo, utiliza-se 13 vezes igualdade num texto de 22 linhas, até o email tem igualdade. Porra, assim fica tudo muito mais igual!

Do colega Harms, recebi o seguinte comentário:

“Deixo um comentário, mas mais inspirado no artigo de cima e de carácter genérico, apenas para referir a excelência deste blogue. Cada vez mais consistente. Que continue assim por muito tempo.”

Respigado no Hora Absurda:

“Ainda conseguimos ser manipulados com o apelo à igualdade, e o absurdo é que aqueles que são diferentes e reclamam o direito à diferença é que querem ser igualados para que não haja diferenças. Entretenham-se a contar outras palavras e digam lá se isto não é… MANIPULAÇÃO!”


Sobre este assunto ver o que se escreveu aqui sobre a lei da união-de-facto.

A ler:


Email me (espectivas@nullgmail.com)

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