perspectivas

Quarta-feira, 1 Julho 2009

O estado da ética (2)

Filed under: ética,cultura,educação,filosofia — O. Braga @ 4:33 pm
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A descoberta dos valores

Cada cultura procede de uma selecção entre os valores que lhe são conhecidos. Se os valores existem predeterminados objectivamente, então reúnem-se as condições da ética: os valores possuem uma validade universal, são intemporais e são identificáveis nas suas características principais.

Assim como o artista e o cientista, o filósofo não inventa nem cria nada; apenas descobre a realidade. A teoria da relatividade já existia na natureza antes de Einstein a ter descoberto; todas as obras de arte de todos os artistas, existiam como possibilidades dentro da “constante cosmológica da natureza” ― 10120 ― de que falei aqui. Dentro desta constante cosmológica ― e mesmo para além dela ―, muitíssimas mais teorias científicas e filosóficas há para descobrir, e muitas obras de arte possíveis se mantêm no anonimato à espera dos artistas que nelas se inspirem. Os poemas têm a sua potencialidade no número 1 seguido de 120 zeros, o que significa que a produção poética desde o princípio da humanidade é irrisória. De igual modo, os valores morais existem objectivamente e o ser humano apenas os vai descobrindo à medida que vai evoluindo. Assim como existe uma verdade objectiva no domínio da natureza que o Homem vai descobrindo, também existem valores morais objectivos no domínio do espírito que o ser humano vai constatando. Por vezes, dá-nos a sensação de que o Homem involui em vez de evoluir; é difícil dizer quando uma crise significa uma decadência civilizacional porque o futuro é difícil de prever e uma crise pode ser sinal de desenvolvimento. Se “o futuro do Homem é o Homem” ― como escreveu o prof. Joel Serrão ― , está nas mãos do ser humano traçar esse futuro que não existe previamente definido, embora os valores para o construir já existam determinados.

descoberta-dos-valoresO filósofo do realismo fenomenológico Nicolau Hartmann descobriu uma teoria segundo a qual “os valores possuem uma existência em si”, o que significa “a independência do facto de o sujeito os considerar como tal ― nada mais e nada menos” (in “Ética”). Tal como existe o axioma segundo o qual o círculo tem um centro, assim também existe sempre e é sempre verdadeiro, numa dimensão espiritual ― independentemente de o ser humano o reconhecer ou não ―, o valor da honestidade ou da fidelidade (por exemplo); estes valores existem igualmente numa dimensão do “ideal”, independentemente do seu conhecimento ou da sua aplicação moral. Isto significa que o ser humano não tem necessidade de deduzir estes valores morais de uma utilidade qualquer; eles valem independentemente do seu conhecimento ou da sua aplicação moral. Amor e ódio apenas descobrem o valor; mas descobrem-no antes que ele tenha sido intuído ou preferido, e por isso constituem um movimento em cujo processo se irradiam e iluminam valores até então desconhecidos, até ao limite da constante cosmológica da natureza (10120) e possivelmente para além dela.

Assim, por exemplo, o valor da justiça vale por si, e este valor pode ser compreendido pelo ser humano. Se deduzíssemos o significado do valor da justiça a partir da sua utilidade ou oportunidade política, não existiria justiça propriamente dita. Portanto, a justiça não pode depender de algo que não esteja já incluído no seu significado. Segundo Hartmann, “aquilo que é belo, é belo por si, aquilo que é cómico, é cómico por si; aquilo que é nobre ou digno do amor, é nobre ou digno de amor por si”. Para Hartmann, nem todos os valores são iguais, ou seja, existe uma hierarquia de valores. Por exemplo, o valor do altruísmo está acima do interesse próprio. O valor do amor ao próximo está acima do valor da credibilidade. Diz Hartmann: “o bem é a orientação para o valor superior; o mau, no entanto, é a orientação para um valor inferior”. Portanto, o mal e o bem não são definíveis em si mesmos: antes dependem da situação e da orientação concreta da decisão. Não são os valores que são relativos; são as situações em miríade que são diferentes.

“Cada moral vigente reconhece apenas alguns valores ou um único, que salienta, para tornar o ponto de referência para tudo o resto. Por conseguinte, cada moral vigente, por muito unilateral que seja, possui uma verdade.” ― Nicolau Hartmann

Cada cultura procede de uma selecção entre os valores que lhe são conhecidos. Se os valores existem predeterminados objectivamente, então reúnem-se as condições da ética: os valores possuem uma validade universal, são intemporais e são identificáveis nas suas características principais. O problema que se coloca a partir daqui é saber qual é a posição hierárquica de cada um dos valores entre si. Neste ponto, Nicolau Hartmann não nos pode ajudar porque o seu (dele) realismo não o permite. Para podermos estabelecer uma hierarquia clara, teríamos que ser capazes de a deduzir de “alguma coisa”, o que significa que a filosofia teria que ser capaz de conhecer a metafísica de uma forma segura. Em relação a esta hierarquia, escreve Hartmann: “Com isso, não se nega, de maneira alguma, que esta hierarquia possa orientar-se por um princípio superior, mas sim que seja possível reconhecer um tal princípio”.

Avançamos já no nosso raciocínio e já chegamos à conclusão de que apenas nos falta saber e definir essa hierarquia de valores para que a ética possa ser utilizável e vinculativa.

A versão completa deste artigo pode ser lida aqui.

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