perspectivas

Sexta-feira, 26 Junho 2009

A verdade de Descartes

Filed under: filosofia,Religare — O. Braga @ 6:44 pm
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René Descartes

René Descartes

Kant considerou um escândalo que não existisse uma prova da existência do mundo exterior ao sujeito pensante. Verificamos que não é possível provar racionalmente a existência de um mundo exterior, independente do ser humano ― e por isso é que a teoria das ciências modernas, nomeadamente a mecânica quântica, parte do princípio de que esse mundo exterior independente só pode ter o estatuto lógico de uma hipótese. Karl Popper, defendendo a sua dama, afirmou: “o mundo exterior é uma hipótese de trabalho para a ciência da natureza”.

Quando a mecânica quântica coloca literalmente em causa a consubstancialidade do mundo macroscópico exterior ao sujeito, não só corrobora Descartes como corrobora, até certo ponto, George Berkeley e o seu Imaterialismo.

A única coisa de que eu tenho a absoluta certeza é de que “eu sou”, e baseando-me nessa certeza que é minha, o mundo que me rodeia, existe ― os amigos, a família, etc., são uma realidade tão original como a experiência directa do meu próprio Cogito, isto é, da minha existência. A minha existência ― como a de nós todos ― é algo insondável e absoluto, assim como é insondável a existência do “englobante existencial” (Deus). O “Cogito” de Descartes é ― grosso modo ― a “coisa em si” de Kant e a “existência” dos existencialistas.

Karl Jaspers escreveu que “a existência é algo que nunca se tornará um objecto, é a origem, a partir da qual eu penso e actuo ― existência é aquilo que apenas posso ser, mas não posso ver ou saber” . (in “Da Verdade”).

A existência não é um simples existir, mas antes uma categoria contraposta aos objectos. A existência não é uma “coisa no mundo”, se se entende por “mundo” os objectos que nos rodeiam. Tal como o ser humano não pode alcançar a sua sombra, o pensamento não pode alcançar a existência daquele que pensa.

Com o neopositivismo, que é matriz do pensamento moderno, alguns (como Rudolfo Carnap) tentaram contornar o Cogito através de uma manobra de diversão: em vez de reconhecer a insondabilidade da existência e do “englobante existencial” (Deus), a questão do Absoluto passou a ser considerada um problema falso ou aparente que não merecia o valor da nossa atenção. A filosofia só se deveria ocupar com aquilo que fosse perceptível aos nossos sentidos ― tudo aquilo que está para além da objectividade seria catalogado como “absurdo”. Só não seria absurdo aquilo que se pudesse medir, que fosse mensurável.
Porém, se considerarmos a experiência mental de Poincaré, segundo a qual o universo poderia aumentar para o dobro, proporcionalmente e em todas as suas partes, e ninguém daria conta do fenómeno ― aqui as medições de Carnap deixariam de ser suficientes para aquilatar a realidade.

A contradição mais abstrusa de Carnap é que ele não terá compreendido que ele próprio, como um ser detentor de um Cogito e com um Eu muito particular, nem sequer pode aparecer no mundo que ele definiu; o próprio Carnap eliminou o Carnap do mundo.

A noção de Cogito, de Descartes, não é original. Antes dele, Santo Agostinho defendeu a mesma ideia, embora por outras palavras. Através dos seus “Solilóquios”, Santo Agostinho transformou o seu sujeito em objecto, e chegou à conclusão de que o ser humano é sempre mais do que aquilo que ele pensa de si mesmo, já que ele se dividiu em sujeito-objecto; por um lado, ele é aquilo que pensa sobre si mesmo (é o próprio conteúdo do pensamento) e por outro lado é aquele que pensa esse conteúdo. O conteúdo do pensamento é uma “coisa”, mas o pensamento activo desse conteúdo não é uma “coisa”.
Por um lado, eu sou objecto sobre o qual penso; por outro, sou sujeito que pensa sobre si próprio. O conteúdo do pensamento que penso sobre mim é incompleto e por isso não é suficiente para me definir e abranger. Diz Santo Agostinho:

“Se não existisse o Eu, não poderia duvidar absolutamente de nada. Por conseguinte, a dúvida prova por si própria a verdade: eu existo se duvido, porque a dúvida só é possível se eu existo.”

Portanto, Descartes limitou-se a utilizar o mote de Santo Agostinho: posso duvidar de tudo senão do facto de que duvido.

Existe aqui um Absoluto que é válido sem prova ― que é validado unicamente pela evidência e pela experiência interiores: eu existo através do pensamento (consciência) e com certeza absoluta. Eu tenho uma certeza de mim próprio que não pode ser provada, mas que está profundamente enraizada em mim e em que posso confiar absolutamente. Eu existo, e nada mais no mundo tem este grau de certeza e de credibilidade.

O Cogito é a “última instância” da experiência do Eu, para além da qual não me é possível ultrapassar; o Cogito está na base da possibilidade de todas as outras experiências das coisas fora de mim próprio.

Adenda: ocorreu-me escrever este postal em função destoutro.

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1 Comentário »

  1. Gostei do que você escreveu, mais ainda, no tocante a Agostinho, ele que afirmava “cogito sum” no universal, e, em Descartes há o “ergo”, pois, Descartes parte para a autopercepção, visa o conhecimento de sua natureza, distingue da natureza dos chamados corpos sensíveis, que é de natureza extensa. Descartes utiliza o argumento do cogito, ao meu ver, como um método para garantir as ideias claras e distintas, que a partir da Meditação Segunda começa a se tornar garantia de verdade, depois será garantida pela prova da existência de Deus. Assim, semelhante a Agostinho, Descartes utiliza o cogito como artificio para conhecer as demais coisas, em Agostinho explícito no conhecimento da interioridade para conhecer a Deus, que é sabedoria.

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    Comentar por danbaseggio — Sexta-feira, 26 Junho 2009 @ 8:48 pm | Responder


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