perspectivas

Sexta-feira, 29 Maio 2009

O livre-arbítrio (7)

Filed under: filosofia,Novo Guia dos Perplexos,Quântica,Religare — O. Braga @ 7:34 am

Lógica Quântica

Lógica Quântica

Para mim, que me interesso por estes assuntos desde tenra idade por influência de familiares próximos, e que desde o princípio da minha adolescência sempre me dediquei à leitura de livros e artigos relacionados com a quântica e com as consequências das conclusões desta para uma visão filosófica racional e holística da realidade ― dizia eu que, para mim, colocar em palavras conceitos deste género é mais difícil do que a sua explicação através de desenhos ou imagens. A melhor forma de fazer passar conceitos abstractos e formais como são os quânticos [entre outros], é através de imagens metafóricas. Infelizmente, não tenho jeito para desenhar. Por isso compreendo que o leitor que não esteja familiarizado com estes assuntos, e ao ler esta série de postais sobre o livre-arbítrio, me considere uma espécie de lunático; não o levo a mal por isso.

Antes de continuar, e em função de comentários que já foram feitos, convém definir “determinismo” e “livre-arbítrio”. Para além do determinismo filosófico que sempre existiu desde os gregos pré-socráticos, o determinismo científico consiste na equivalência lógica entre duas proposições da dinâmica newtoniana no que diz respeito a dois diferentes instantes de tempo. Com a relatividade de Einstein, esta definição não se alterou. O determinismo científico corroborou o determinismo filosófico de Heraclito a Espinosa, segundo o qual a liberdade do Homem é uma ilusão porque o ser humano “se sente consciente da sua vontade mas ignora a causa que a determina”. Para Espinosa, a causa era o próprio Deus de um sistema panteísta, e portanto a definição de Espinosa cabe perfeitamente na definição de “determinismo” concebido pela Física clássica (causa-efeito, ocorrendo no tempo).

O “livre-arbítrio” foi defendido pelas religiões em geral (com excepção do Islamismo), desde o Budismo ao Cristianismo, mas também pela filosofia clássica pós-socrática, pelo neoplatonismo, por Santo Agostinho na “Cidade de Deus”, pelos filósofos medievais em geral e em particular por S. Tomás de Aquino, e mesmo por filósofos contemporâneos como Hayek e Eric Voegelin.

Porém, um dos erros dos opositores do “livre-arbítrio” a favor de um “determinismo necessitante”, é a confusão entre “liberdade” e “livre-arbítrio”. O livre-arbítrio é a capacidade de escolha existente independentemente da necessária pré-condição existencial, porque se houvesse um único homem totalmente livre [no sentido de “liberdade sem consciência”] no universo, não haveria Deus. Ao contrário do determinismo panteísta de Espinosa que aceita a nossa vontade como efeito de uma causa pré-determinada [Deus], e do conceito de liberdade de fazermos aquilo que querermos de acordo com a lei, o livre-arbítrio não consiste apenas em fazer a nossa vontade, mas também em lhe desobedecer por iniciativa própria, através do uso da consciência. Ora, a quântica aponta para a existência da consciência a várias escalas ou níveis, e que é determinada pelo livre-arbítrio aqui definido.


Kant

Nos dois últimos postais referi-me a Kant e queria fechar as minhas cogitações acerca do seu conceito de “substância” ou “númeno”. Kant contrapõe o “númeno” ao “fenómeno”, sendo que este é a a representação sensível dos objectos [aparência] enquanto que aquele é a essência ou “substância” dos fenómenos como algo que não é passível da nossa “intuição sensível”. Olavo de Carvalho chama à teoria do númeno de Kant uma manifestação de “paralaxe cognitiva”, uma vez que as cogitações kantianas acerca da “substância” extrapolam a esfera da experiência pessoal de Kant. Contudo, o “númeno” de Kant era para ele tão experiencial como a noção de “fé em Deus” é uma experiência para um católico como o Olavo de Carvalho.

O númeno de Kant é a teorização de uma realidade imanente que coexiste com uma realidade sensível aos nossos sentidos, e aparente, é o corolário lógico do conceito de “juízo sintético a priori”. Intuitivamente, Kant defendeu a ideia de que por detrás de uma realidade sensível e aparente, subjaz uma realidade imanente. O “fenómeno” é o reflexo do conhecimento enquanto empirismo; o “númeno” é o reconhecimento do conhecimento enquanto formalismo da ciência e do realismo matemático. Kant referiu-se ao númeno como sendo um X, como algo ainda desconhecido e que pertence aos limites do conhecimento empírico, porque o conhecimento da ciência do seu tempo não permitia que Kant se referisse ao númeno como a essência da imanência da realidade do mundo quântico.


O livre-arbítrio (1)
O livre-arbítrio (2)

O livre-arbítrio (3)
O livre-arbítrio (4)
O livre-arbítrio (5)
O livre-arbítrio (6)
O livre-arbítrio (7)
O livre-arbítrio (8)

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1 Comentário

  1. […] e comuns no microcosmos, mas à escala humana prevalece o determinismo clássico definido no postal anterior. Os “efeitos de túnel” acontecem na quântica devido aos “saltos quânticos” dos objectos […]

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    Pingback por O milagre de Fátima « perspectivas — Sábado, 30 Maio 2009 @ 9:08 am


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