perspectivas

Sábado, 16 Maio 2009

A probabilidade da verdade da criação do universo

Filed under: filosofia,Religare — O. Braga @ 10:39 am

evolucao

Se o nosso universo é finito ― teve um início ―, como podemos explicar o conceito de “infinito” que caracteriza a matemática e que está presente em praticamente tudo o que existe? Ou a lógica matemática está equivocada, ou existe o infinito para além do finito.

A finitude do nosso universo pode ser constatada não só pela evidência da aplicabilidade da segunda lei da termodinâmica ao próprio universo, como através da medição da densidade média da matéria no espaço. No entanto, dizem os relativistas que depois da deposição do sistema axiomático de Euclides, “já não há verdades”; o axioma deixou de ser uma verdade mas antes uma “verdade possível”. Mas o que é uma “verdade possível” senão a verificação prática da necessidade da infinitude num mundo finito? Uma “verdade que é possível” é equivalente ao conceito de “infinitude do finito”. A “possibilidade da verdade” indica a possibilidade da “probabilidade da verdade”, e em consequência, a probabilidade da “certeza da verdade”.

Os relativistas de pacotilha e de circunstância política truncam alguns conceitos científicos modernos por forma a adequá-los aos seus interesses ideológicos e de retórica política, tal como faziam os sofistas na Grécia Antiga.

A “possibilidade de uma verdade” não significa que todas as teorias são “verdades possíveis e dependendo do observador”. Uma verdade possível não é um mero produto da intuição de um qualquer observador, mas de uma lógica formalizada que obedece a leis específicas ― aquela lógica que procura hoje a determinação da “Forma” que Platão antepôs à “Ideia”.

Apesar de a teoria da finitude do nosso universo ser hoje consensual, existe quem a considere apenas como uma “verdade possível”, isto é, há quem continue a defender a perene indecifrabilidade da antinomia de Kant sobre a origem e princípio do universo. Porém, quem procede da última forma não se dá conta que adopta o niilismo da “impossibilidade de conhecer” a realidade, adoptada por Hume ― e posteriormente adoptado e transformado pelo existencialismo materialista através do “princípio da facticidade”. Se uma verdade nunca passa de uma mera possibilidade de ser, e se todas as verdades são equivalentes, a apreensão da realidade é impossível e Hume passa a ter razão quando dizia que a única função da mente é a de explorar os factos, e que a Razão não serve de nada [ao Homem] que adicione algum valor acrescentado a essa exploração dos factos. E se a apreensão da realidade das leis da natureza, segundo Hume, é impossível, e o Homem nada mais faz senão constatar essa realidade sem a poder explicar, Hume “dá um tiro no próprio pé” e admite implicitamente a necessidade da realidade metafísica; o anti-religioso Hume transforma-se num metafisico fundamentalista.

Mas se o conhecimento da realidade é possível, ao contrário do que Hume defendeu, devemos aceitar graus de credibilidade em relação aos diferentes axiomas, o que implica que possam existir não só “verdades possíveis”, mas “verdades prováveis”. Sem as “verdades prováveis”, a própria ciência entra num impasse epistemológico, não avança e passa a adoptar a posição de Hume face à realidade. A adopção da “probabilidade da verdade” aponta o caminho para a “certeza da verdade”, e transporta com ela a secundarização da importância do relativismo.

Portanto, quem disser que todas as verdades são possíveis e nada mais do que isso, adopta a contradição de Hume que nega a metafísica ao mesmo tempo que a reconhece e valida. Quem disser que existem verdades mais possíveis que outras, isto é, “realidades prováveis”, reconhece um caminho para a “certeza da verdade” e por isso assume a relatividade com um mero utensílio ou método de conhecer a existência da verdade.

Se o universo teve um princípio, ele só pode ter sido criado. O que se passou a partir da criação do universo ficou ao abrigo das leis naturais determinadas por Quem criou o universo, leis essas que a ciência constata e estuda. Resulta disto que ambas a ciência e a religião têm razão.

7 comentários »

  1. Diz a Ciência que o espaço e o tempo (cronológico) apareceram com o Universo. Só dentro deste sistema em que existe espaço/tempo podemos falar de finito e infinito.

    Estando Nós, Humanos, dentro dum universo finito, o nosso referencial racional funciona com os conceitos de finito/infinito. Porém, admitindo o Universo como finito, ao darmos um paço para além dos seus limites, entramos, não no infinito, mas no Absoluto, na Eternidade, onde não há espaço/tempo, nem “conceitos” de finito/infinito, pois destes só se pode falar num sistema “criado” pelo Absoluto ou Eternidade.

    Não havendo espaço/tempo apenas existe o Absoluto, a Eternidade, que Nós, no sistema referencial do Mundo Finito em que vivemos, chamamos, falsamente, Infinito, pois até o conceito de Infinito é “relativo” e possível apenas no sistema em que há espaço/tempo.

    Quem quererá comentar?

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    Comentar por Victor Rosa de Freitas — Sábado, 16 Maio 2009 @ 7:22 pm | Responder

  2. @ VRF

    O conceito de “infinito” que a matemática prescreve é logicamente incompatível com o “finito”. O assunto dava umas 600 palavras, e noutro postal que virá depois.

    Basicamente, o que a Física Quântica (e não a filosofia quântica) defende utilizando a lógica formal e não uma mera intuição humana, é que o infinito matemático indicia o próprio Absoluto religioso. Eu estou aqui a falar de conclusões da ciência (verdade provável), e não de uma teoria filosófica (verdade possível).

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    Comentar por O. Braga — Sábado, 16 Maio 2009 @ 7:51 pm | Responder

  3. “Ou a lógica matemática está equivocada, ou existe o infinito para além do finito”. Parece que existe o infinito além do finito. Pela teoria da relatividade, salvo engano, o que teve início (“Big Bang”) foi o continuum “espaço/tempo”. É ele que se expande. É isso que se chama “Universo”. Mas, dentro “de que” o Universo teve início? Se há “algo” além (outras dimensões além do espaço e do tempo), a teoria da relatividade não responde e, sendo assim, este “algo” pode ser infinito. Ou deve ser. S.m.j..

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    Comentar por Paulo De Tarso — Domingo, 24 Maio 2015 @ 2:50 pm | Responder

    • Mas esse “infinito” que você refere não faz parte do finito do espaço-tempo que se iniciou no Big Bang — o espaço-tempo é finito porque teve um começo, e tudo o que tem um começo (mesmo que não tenha um fim) é finito.

      Quando a Física descobrir por que razão as partículas elementares aparecem e desaparecem, como por magia, no universo, então talvez a ciência possa racionalmente deduzir o que a religião já deduziu há milhares de anos.

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      Comentar por O. Braga — Domingo, 24 Maio 2015 @ 6:58 pm | Responder

      • Sim, estamos de acordo, foi isso o que eu quis dizer: o “infinito” não faz parte do finito espaço-tempo. Aliás, é “dentro” desse “infinito” que o espaço-tempo se “expande” (além de “nele” ter tido início). Se se pode assim dizer (pois aqui há noção de espaço), o “infinito” adimensional, ou pluridimensional, “contém” o finito espaço-tempo. É difícil falar dessas coisas se estamos, obviamente, limitados à dimensão do espaço-tempo.

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        Comentar por Paulo De Tarso — Domingo, 24 Maio 2015 @ 7:09 pm

  4. Pode não “conter”, no sentido de “englobar”. O conceito de englobante é panenteísta (panenteísmo).

    A ideia que eu tenho de “infinito” não é panenteísta.

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    Comentar por O. Braga — Domingo, 24 Maio 2015 @ 7:20 pm | Responder

    • Se um dia puder desenvolver (se já não o fez) este tema, do que seja o “infinito” não panenteísta, agradeço. Em particular, sob a ótica da consciência humana – ou, de como “algo” (consciência) que é (ou está) finito/limitado pode entender o infinito/ilimitado.

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      Comentar por Paulo De Tarso — Domingo, 24 Maio 2015 @ 7:36 pm | Responder


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