perspectivas

Segunda-feira, 4 Maio 2009

O Rádio “Pimba” Português e a propaganda da poligamia

no-brainer

O Rádio “Pimba” Português (Rádio Clube Português) convidou hoje um “filósofo” de seu nome Nuno Nabais para fazer a apologia me®diática e em directo da legalização da poligamia (poligenia + poliandria) em Portugal.

Esta coisa de um indivíduo tirar um curso de filosofia e ser imediatamente considerado como “filósofo”, dá que pensar. A verdade é que um filósofo não é uma bosta qualquer; quanto muito, o filósofo é uma bosta que tem consciência de que é bosta, coisa que a bosta do tal Nuno Nabais não tem.

Para além da licenciatura em filosofia, o filósofo tem que ter um mestrado, um doutoramento, obra publicada e reconhecimento internacional entre os seus pares. Chamar de filósofo a uma merda qualquer só poderia vir da “rádio pimba portuguesa”. O mais que o tal Nuno Nabais pode ser, é um intelectual ― neste caso, e na minha opinião, um intelectualóide de urinol.

Dizia o “Nabais” ― na sua divagação sobre a filosofia das hortaliças ―, que “a poligamia é absolutamente necessária para se acabar com o capitalismo”, porque “o capitalismo assenta na monogamia”. “Aliás”, dizia ele que “o casamento deveria ser abolido, porque ele é um dos suportes do capitalismo”.

Só uma mente de merda ou alguém com um escatoma mental agudo poderia defender esta tese, quando sabemos que a primeira coisa que o marxismo-leninismo fez (depois do golpe de estado de Outubro de 1917) foi “normalizar” as instituições da sociedade civil soviética, e entre elas o casamento monogâmico. Eu não sou filósofo e sei que nunca o serei, mas não teria dificuldade nenhuma em rebater por escrito os argumentos do “bosta das couves”.

O problema do Rádio “Pimba” Português é que nunca apresenta contraditório quando faz a propaganda do “progressismo” do Bloco de Esquerda. Já estou a ver o tema “original” e “chocante” do próximo debate no programa da tarde do Rádio “Pimba” Português:

“Se a inflação é erecção, a deflação não será a falta dela?”


“Filósofos” de merda! E a pata que os pôs!


Adenda: Recebi um comentário que publico a seguir:

Autor: Aluno/a

Comentário:

Gostaria em 1º lugar de lhe dar os parabéns pela classe e distinção com que defeca as suas ideias. Lamento dize-lo mas sinto que pessoas com o seu nível de mentalidade e sofisticação (já deu pra perceber que adoro figuras de estilo?)não deviam sequer ser levados em consideração, e tendo em conta as respostas que conseguiu, vejo que já teve mais atenção do que aquela que merecia. Não venho defender o DR. Nuno Nabais porque ele não precisa de ninguém que o faça, mas quando vejo injustiças, principalmente com pessoas que não o merecem, não consigo ficar indiferente. O Dr. Nuno Nabais é um homem muito respeitado na Faculdade onde lecciona e extremamente acarinhado por alunos e colegas. Creio que deveria ter mais respeito quando fala de um Homem que faz mais pela cultura do que muitos ministros que o deviam fazer e não fazem. Resepeito e educação nunca fizeram mal a ninguém. Tenha um pouco mais de compostura, por favor. Não lhe faziam mal umas aulas do Dr. Nuno
para ver se aprendia alguma coisa! Em casos como o seu, creio ser uma perda de tempo, mas enfim… Acho que tamanha revolta não pode ser outra coisa senão puro despeito!! Deve ser uma coisa pessoal, mas não venha expurgar as suas frustrações num espaço onde toda a gente o pode ler. Faça-o no seu “Querido diário”, por favor!!

Se alguém vislumbrou neste comentário a intenção de discutir alguma ideia expressa neste postal, faça o favor de me explicar em que termos as ideias foram discutidas. Quando as pessoas deitam mão de uma pretensa “autoridade” baseada num ‘alvará de inteligência’ como argumento eleito para rebaterem ideias dos outros, assistimos a um chorrilho de insultos sem substância. Eu fiz exactamente o contrário do “aluno/a” que sofreu já uma lobotomia ideológica: recorri a uma linguagem desbragada, mas fi-lo no combate ideológico (e não pessoal) e expliquei porque o fiz.


Adenda 2:

Achei por bem prestar um esclarecimento acerca deste postal, aqui.

14 comentários »

  1. Caro amigo,
    Era só para lhe comunicar que esse tal bosta chamado Nuno Nabais é capaz de ter todas essas coisas: mestrado, doutoramento, obra publicada por cá e internacionalmente, e muitas dessas outras manias de filósofo contemporâneo. Mesmo assim, nada disto constitui um filósofo, vá-se lá saber o que constitui um filósofo! Pode não se gostar das ideias do senhor de barbas, mas tenho que admitir que lá acender as centelhas filosóficas nalgumas cabeças lá isso faz (o que fica desde já demonstrado por o ter provocado a escrever esta belíssima diatribe argumentativa seguindo os parâmetros da mui nobre filosofia de botequim).
    Bem haja.

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    Comentar por Schreber — Terça-feira, 5 Maio 2009 @ 8:30 am | Responder

  2. «o filósofo é uma bosta que tem consciência de que é bosta»

    Vai para as minhas citações!

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    Comentar por henrique — Terça-feira, 5 Maio 2009 @ 9:56 am | Responder

  3. Meu caro amigo,

    Essa coisa do “é capaz de ser todas essas coisas: mestrado, doutoramento, obra publicada por cá e internacionalmente, e muitas dessas outras manias de filósofo contemporâneo” é uma mera possibilidade. Nem sequer transparece nas suas palavras uma verosimilhança, quanto mais uma probabilidade ou uma certeza.

    Ninguém falou neste postal no “senhor de barbas”; se ele o incomoda, o problema é seu e não tem que o invectivar numa questão a que ele é alheio.

    O problema que trata este postal é muito prático e nada transcendente: a velha questão de se encontrarem bodes expiatórios permanentes ― desde que Marx e Engels escreveram o Manifesto ― para a não ocorrência da “derrocada do capitalismo”. Primeiro, a “culpa” era da religião segundo Gramsci e Lukacs, e depois juntaram-lhe o casamento e Freud segundo a teoria de uma meia dúzia de sociopatas que se reuniram em Frankfurt. Entretanto, em todos os países comunistas, incluindo a ex-URSS, China e Cuba, o casamento monogâmico sempre fez parte da lei ― e os gays que V. Exas sempre protegem, foram perseguidos nesses países sob a égide do “combate ao capitalismo”. Por isso é que o “filósofo” é uma “bosta”.

    Quem começou por chamar a “bosta” de “filósofo”, não fui eu. E se o caro amigo diz expressamente aqui acima que não sabe o que é um “filósofo”, deveria ser mais prudente e abster-se de comentários típicos de uma filosofia de prostíbulo “avant-garde” e “progressista”.

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    Comentar por O. Braga — Terça-feira, 5 Maio 2009 @ 9:57 am | Responder

  4. Caro Bracarense,
    Devo-lhe desde já as minhas humildes desculpas, e rapidamente me coloco no meu lugar. De facto, em toda a minha ignorância desconheço magistralmente o que faz de alguém um filósofo. Mas vejamos se posso aprender algo com o meu caro amigo, e estou certo de que sim. Segundo o senhor, “Para além da licenciatura em filosofia, o filósofo tem que ter um mestrado, um doutoramento, obra publicada e reconhecimento internacional entre os seus pares.”. Entendo a sua preocupação com a incerteza do talvez que usei na minha frase, o que de novo só posso lamentar. Este mesmo senhor, Nuno Nabais, que pode ser visto habitualmente com a sua barba branca (o que também gerou um equívoco), possui de facto todas essas coisas, sem excepção, o que é facilmente verificável com uma rápida busca no google, ou então se se dirigir pessoalmente à instituição que lhe reconhece estas habilitações e o alberga como professor de filosofia, a faculdade de letras da universidade de Lisboa. Assim, não só deduzo que este senhor se qualifica como filósofo, mas também que até Kant não houve um único exemplar de filósofo. É certo que a tese que defende é radical, mas face ao generalizado desacordo acerca do que é a filosofia e do que constitui um filósofo, ainda bem que há alguém que não receia as consequências de propor em voz alta tal concepção. Bem haja a sua coragem.
    Quanto à obsessão do meu caro amigo pelas questões de “esquerda” e toda essa corja de malfeitores, ladrões da justa e divina propriedade privada, e infanticidas que pululam em cada comício onde se verifique um uso acima do normal da cor vermelha, permita-me o conselho dizendo-lhe que se calhar isto pode estar a tornar-se patológico para o meu amigo. É que o conceito de capitalismo não é propriedade privada da URSS, de Marx, Engels, e demais infanticidas, pelo que não é obrigatório querer derrubar um sistema capitalista para instaurar necessariamente uma sodoma socialista. Assim, não vejo a necessidade de puxar dos galões anti-socialistas para tratar de uma questão em que o socialismo a ser nomeado não deixa de estar num lugar secundário. Os costumes, nos quais se inclui o casamente monogámico, são uma forma importante de manter o status quo com inúmeras implicações, as quais se pode desejar alterar tendo em vista uma república das bananas fascista, ou um qualquer outro regime bem vermelho com o sangue das criançinhas. A título de exemplo, veja-se a República de Platão, argumentavelmente um percursor de Estaline?, onde se defende uma sociedade na qual a estrutura tradicional de família é radicalmente alterada. Veja-se também o caso da muito socialista Esparta.
    Finalmente, ai de mim o ser avant-garde ou progressista, e pedia-lhe que não me insultasse de tal forma. Estou certo de que age nas melhore intenções e com respeito por este seu amigo, mas há coisas que de tão sérias não se prestam a brincadeiras. Jamais virei um urinol ao contrário e o chamei de fonte, e, deus me livre, espero nunca o fazer. Da mesma forma, nunca me passaria pela cabeça a acusação de que todo este ódio contra a esquerdalha ser uma forma perfeita de má consciência de esquerda, respeito-o demais para suspeitar de tal coisa.
    Cumprimentos.

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    Comentar por Schreber — Quarta-feira, 6 Maio 2009 @ 9:17 am | Responder

  5. Em primeiro lugar, o texto é longo e característico dos sofistas, entendido aqui no seu pior sentido. Por isso, vou ser obrigado a fazer um “fisking”.

    Não sei quem é o Nabais e sinceramente o meu interesse acerca da personagem circunscreve-se a este postal. Se esse senhor é professor de filosofia numa universidade portuguesa, podemos então todos compreender não só a estupidificação do ensino em geral, como o estado a que chegou o ensino da filosofia em Portugal.

    O facto de se dizer que “não houve filosofia até Kant” revela o desconhecimento total daquilo a que o filósofo (este sim, filósofo) Olavo de Carvalho chamou de “paralaxe cognitiva”.

    A paralaxe cognitiva consiste “no deslocamento, às vezes radical, entre o eixo da construção teórica de um pensador e o eixo da sua experiência humana real, tal como ele mesmo a relata ou tal como a conhecemos por outras fontes fidedignas”. Por exemplo, Marx “inventou” o marxismo mas não fazia a ideia do que era um operário, nem o que era a vida de um operário.
    Kant inventou a “coisa em si”, escreveu profusamente sobre o tema, publicou livros e livros, mas como nós não conhecemos a substância das coisas materiais mas apenas a sua aparência fenoménica, nunca poderemos saber o que é a substância da filosofia de Kant. A paralaxe cognitiva iniciou-se praticamente com Kant, o que significa que ela não existia até finais da Idade Média.

    Uma coisa é dizermos que um indivíduo é sociopata e depois explicarmos porquê. Outra coisa é dizermos que um indivíduo não tem razão porque é sociopata, e sem mais explicações. O que o amigo faz na sua critica aqui acima é um ataque ad Hominem: segundo Vc escreve, eu tenho um “problema patológico”, e por isso não tenho razão. Este tipo de argumentação é tipicamente característico da mente revolucionária: ataca-se a pessoa para não se discutirem as ideias.

    Eu digo e repito que a “filosofia de nabiça” é uma bosta, em primeiro lugar porque se contradiz quando alia o fim do capitalismo ― que pelo terceiro excluído significa a instituição de um regime marxista ― não só à necessidade da legalização da poligamia como à “abolição da própria instituição do casamento” (ipsis verbis), o que é um absurdo factual comprovado como tal pela História do próprio movimento comunista internacional (ou “socialista”, para ser politicamente correcto).

    Em segundo lugar, o “filósofo” padece de uma fé metastática, que consiste em pretender alterar a própria essência nuclear da natureza humana utilizando todos os meios possíveis para esse desiderato, o que inclui o exercício da violência de uma forma arbitrária. O ser humano não é só “instinto”: é também “razão” e “emoção”. Quando os países islâmicos evoluem hoje para o reconhecimento da superioridade da monogamia, não acham estranho que a esquerda defenda o retorno da sociedade aos seus primórdios culturais?

    Em terceiro lugar, o escriba incorre numa “falácia de Parménides”, ao utilizar o exemplo da República de Platão transportando-o para a revolução russa (Estaline); a mesma falácia é utilizada, por exemplo, quando se diz que a pederastia era tolerada na Grécia Antiga, e que portanto faz todo o sentido legalizar a pederastia e mesmo a pedofilia, como defende já hoje a esquerda holandesa (estas ideias propagam-se).

    Curiosamente, Estaline ignorou Engels (e a sua teoria sobre o casamento) e manteve a estrutura monogâmica da lei do casamento; Estaline poderia ter sido um assassino, mas não foi um “nabo”.

    Eu não tenho verdades; tenho convicções. E estas estão bem escoradas em ideias, meu caro amigo. Discuta-as, em vez de lançar diatribes ad Hominem.

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    Comentar por O. Braga — Quarta-feira, 6 Maio 2009 @ 1:17 pm | Responder

  6. Caro amigo,
    Seguirei a sua indicação quanto à necessidade de brevidade, reduzindo o meu texto a uma análise ponto por ponto.
    1. Concordo que o interesse pelo senhor Nabais se encontra já esgotado, pelo que não se justifica o prolongamento deste assunto.
    2. Suponho que o meu amigo deve saber muito bem o que é uma dedução, e de como uma dedução válida é em si mesma insofismável. Vejamos então:
    Premissa 1 (defendida pelo senhor meu amigo)- “Para além da licenciatura em filosofia, o filósofo tem que ter um mestrado, um doutoramento, obra publicada e reconhecimento internacional entre os seus pares.”
    Premissa 2 (matéria de facto) – Kant foi o primeiro pensador da história da filosofia a possuir esses requisitos que mencionou, ou seja, não há nenhum pensador antes de Kant que cumpra as suas condições.
    Conclusão A – Não há nenhum filósofo antes de Kant.
    Pensava não ser necessário clarificar o que é que esta dedução significa, mas aqui vai. Não sou eu que tenho esta posição, ela é uma consequência directa das suas afirmações, o que significa que é o meu amigo que a está a defender implicitamente. Assim sendo, o meu amigo apresenta um belo paradoxo quando escreve:
    “O facto de se dizer que “não houve filosofia até Kant” revela o desconhecimento total daquilo a que o filósofo (este sim, filósofo) Olavo de Carvalho chamou de “paralaxe cognitiva”.”
    Premissa 3 (defendida pelo senhor) – Dizer que não houve filosofia até Kant implica desconhecimento do que Olavo de Carvalho chamou de “paralaxe cognitiva”.
    Premissa 4 (demonstrada pelo senhor) – Você, O. Braga, defende uma posição exposta na premissa 1 que implica dedutivamente a defesa da conclusão A, isto é, não houve filosofia até Kant.
    Conclusão B – O senhor, O. Braga, desconhece o que seja a “paralaxe cognitiva”.
    Premissa 5 (demonstrada pelo senhor) – Você conhece o conceito de “paralaxe cognitiva”.
    Como é que é possível o meu amigo desconhecer algo que claramente conhece?
    3. Qual o contributo que o meu amigo traz ao invocar a sua erudição acerca de Olavo de Carvalho? Pretende dizer que afinal a filosofia é sempre caracterizada por esta paralaxe cognitiva, e que por isso realmente só começa em Kant?
    4. Marx nunca foi um operário, de facto. Mas isto não quer dizer que não conhecesse bem a vida dos operários no tempo dele, como aliás a conheciam a maior parte dos homens educados da Inglaterra dessa época.
    5. Parece-lhe que Platão, ao defender a existência de um mundo onde só existem ideias puras e universais às quais nos podemos unir amorosamente, não deslocou radicalmente a sua construção teórica do eixo da sua experiência humana real? Terá ele relatado algum encontro com uma ideia pura?
    E o que dizer da esfera de Parménides? Do argumento ontológico de Santo Anselmo?
    Então o que dizer das mónadas de Leibniz?! (Isto só para referir um dos muitos pensadores entre o final da idade média e Kant).
    6. Jamais quis afirmar que o meu amigo é um sociopata. Sugeri apenas que essa insistência na introdução de referências aos comunistas pode ser patológica. Se em cada parágrafo do meu texto eu arranjasse maneira de relacionar aquilo que se estava a discutir com o cultivo de batatas, certamente que você me apontaria esta obsessão. Mesmo assim, de forma alguma defendo que isto exclua a possibilidade de discutir as suas ideias. Obcecado ou não, ideias são ideias, e até um relógio avariado dá as horas certas duas vezes ao dia.
    7. Para tornar bem claro que a minha mente não é nada revolucionária, digo desde já que nada do que digo se dirige à sua pessoa, mas sim ao seu texto e àquilo que dele se pode retirar, ou seja, às ideias contidas nas suas palavras. E sim, uma das ideias contidas nos seus textos é a de uma obsessão com os ideais de esquerda, quer a tenha na vida real quer não.
    8. “o fim do capitalismo ― que pelo terceiro excluído significa a instituição de um regime marxista”
    Terceiro excluído?! Bem, acho que qualquer pessoa reconhece a existência de muitos outros tipos de regimes que não o capitalista ou o marxista. Invocar a lei lógica do terceiro excluído significa que está a dizer que só há dois tipos de regime político e que não é possível admitir um capitalismo marxista ou um marxismo capitalista. Ora, que não é possível um sistema misto penso que ninguém discutirá. Quanto à tese de que só há dois regimes possíveis, nem sei o que lhe responder, mas concedo-lhe que é claramente possível abrir tanto os conceitos de capitalismo e marxismo para poder lá caber tudo, mas afastar-nos-emos do seu significado histórico e a discussão perde interesse, ou melhor, a discussão desloca radicalmente o seu eixo do eixo da experiência humana real.
    9. A filosofia do senhor nabais pode muito bem estar cheia de contradições, mas em nenhuma altura me intitulei defensor do seu pensamento, apenas apontei as contradições no violento ataque ad homine que lhe é dirigido, aproveitando desse modo para discutir as ideias aí contidas.
    10. O meu amigo recorre à autoridade da essência nuclear da natureza humana, para depois afirmar que ela estava ausente nos primórdios culturais dos humanos? Se é essência está lá sempre, o que teria assim de tão mau o retorno a uma forma dela mesma? Por outro lado, fico novamente espantado com a sua certeza de que sabe exactamente o que constitui a essência nuclear da natureza humana, e que pelos visto inclui a monogamia. Sendo este um assunto permanentemente envolto em controvérsia, gostaria que me explicasse melhor a sua posição acerca da minha essência nuclear.
    11. Terei eu transportado alguma coisa para a revolução russa? O exemplo da República de Platão é o exemplo de um sistema não socialista onde se defende a abolição da estrutura tradicional da família. Portanto, a ideia é dizer que não são só os comunistas que defendem afrontas à santidade do casamento monogâmico. A pergunta acerca da possibilidade de se argumentar que Platão é um percursor de Estaline é de resposta tão óbvia que achei não haver necessidade de a explicitar. Não, Platão não é um precursor de Estaline, ou pelo menos, não mais do que qualquer outro senhor.
    12. Saúdo a força das suas convicções, e espero tê-las discutido bem.
    Cumprimentos.

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    Comentar por Schreber — Quinta-feira, 7 Maio 2009 @ 10:07 am | Responder

  7. P.S.- Tudo o que que Kant escreveu sobre a coisa em si foi que ela é um X.

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    Comentar por Schreber — Quinta-feira, 7 Maio 2009 @ 11:15 am | Responder

  8. Ponto por ponto:

    2. Concluo que como nas Academias gregas ― incluindo a de Platão que tinha escrito à porta: “quem não é matemático, que se abstenha de entrar” ―, como não existia oficialmente um “alvará de inteligente” (um diploma, doutoramentos, etc.) reconhecido pela cidade ou pelo país, os seus membros eram todos analfabetos e mentecaptos. Mais uma vez incorre na falácia de Parménides: olha-se para a História com a perspectiva de valor do mundo contemporâneo, ou vice versa quando interessa.

    Naturalmente que toda a gente percebeu que quando eu falo na definição de “filósofo”, refiro-me ao conceito actual enquadrado por um moderno sistema de reconhecimento académico e teórico. Os gregos tinham o seu próprio sistema de reconhecimento académico, que funcionava exactamente “inter pares”. Com a complexidade do advento do modernismo, naturalmente que o sistema de reconhecimento foi adaptado, o que não significa que antes de Kant ninguém tenha pensado a filosofia.

    A filosofia nasceu da religião, e portanto é tão antiga quanto a religiosidade humana.

    2.1 O amigo não percebeu o que eu quis dizer, mas não se preocupe que eu explico:

    “O facto de se dizer que “não houve filosofia até Kant” revela o desconhecimento total daquilo a que o filósofo (este sim, filósofo) Olavo de Carvalho chamou de “paralaxe cognitiva”.”

    O que se quer dizer é que não existiram filósofos com teorias perfeitas, isto é, a própria teoria de Kant apresenta as suas lacunas. Veja-se o que escreveu Bertrand Russell (com quem eu não simpatizo) sobre Kant:

    “Immanuel Kant é geralmente considerado o maior filósofo moderno. Não concordo com esta estimativa, mas seria loucura não lhe reconhecer a grande importância.”

    Segundo Russell, que é um ateísta insuspeito, se existiram “filósofos modernos”, terão existido filósofos “não modernos”.

    A partir deste testemunho de Russel, todo o seu raciocínio passa a ser prolixo e improfícuo, o que de certo modo demonstra que por vezes a lógica de alguns “é uma batata” ― a não ser que o caro amigo também não considere Russell um filósofo.

    3. Transcrevo fielmente o que Olavo escreveu:

    Denomino paralaxe cognitiva o deslocamento, às vezes radical, entre o eixo da construção teórica de um pensador e o eixo da sua experiência humana real, tal como ele mesmo a relata ou tal como a conhecemos por outras fontes fidedignas. Raro e excepcional na Antiguidade e na Idade Média, esse deslocamento começa a aparecer com frequência cada vez mais notável a partir do século XVI, dando a algumas das filosofias modernas a aparência cómica de gesticulações sonambúlicas totalmente alheias ao ambiente real em que se desenvolvem.
    Um exemplo claro é a teoria de Kant sobre a incognoscibilidade da “coisa em si”. Se não conhecemos a substância das coisas materiais, mas somente a sua aparência fenoménica, que esperança podemos ter de atingir um dia, a partir de indícios materiais, isto é, letras impressas numa folha de papel, a substância da filosofia de Immanuel Kant? Certamente o filósofo de Koenigsberg não se contentaria se apreendêssemos somente a aparência fenoménica da sua filosofia, a qual filosofia, nesse sentido, é radicalmente incompatível com o ato de escrever livros – e olhem que Kant os escreveu em profusão.

    Por mais coerente que seja consigo mesma, a filosofia de Kant é incoerente com a sua própria existência de obra publicada. Outro exemplo: Karl Marx diz que só o proletariado pode apreender o movimento real da história, porque as classes que o precedem vivem aprisionadas na fantasia subjectiva das suas respectivas ideologias de classe. Mas, se é assim, por que o primeiro a perceber isso e a apreender o movimento alegadamente real da história foi o próprio Karl Marx, que não era proletário, não tinha nenhuma experiência da vida proletária e até a idade madura só conhecia os proletários por meio de leituras? Ou a ideologia de classe é inerente à posição social real do sujeito, ou é de livre escolha independentemente da posição social, mas neste último caso não é ideologia de classe de maneira alguma e sim apenas ideologia pessoal projectada ex post facto sobre uma classe, também de livre escolha.
    Os exemplos desse tipo são tantos, mas tantos, que não espero senão recensear uma ínfima amostragem deles. Inevitavelmente, a semelhança estrutural entre a paralaxe cognitiva e a inversão do tempo tinha de se tornar clara um dia, por mais obtusa que fosse a minha cabeça.

    5. Se existe alguma coisa intrínseca à experiência humana (e à subjectividade) é a “ideia” (“O homem pensa” ― Espinosa). A “ideia” é a forma pela qual o pensamento se relaciona com o real, e neste sentido todo o ser humano tem a experiência da “ideia”. A comparação de Platão e da sua (dele) “ideia” não tem cabimento como exemplo de paralaxe cognitiva.

    Em relação aos pontos seguintes, voltarei noutro comentário porque tenho que sair.

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    Comentar por O. Braga — Quinta-feira, 7 Maio 2009 @ 12:53 pm | Responder

  9. Voltando à “vaca fria”:

    Em relação à “ideia pura” no sentido de “consciência”, aconselho a consulta dos últimos desenvolvimentos da mecânica quântica, nomeadamente as experiências feitas na Universidade de Genebra com “emparelhamento” de fotões que definiram e provaram em laboratório a chamada “não-localidade” dos fotões, que sugerem que os fotões “emparelhados” por um laser comunicam em entre si a uma velocidade (no mínimo) superior em 10.000 vezes em relação à velocidade da luz.

    De qualquer forma, a “ideia” faz parte da experiência de cada ser humano, embora a noção da “ideia” possa ser expressa de forma diferente por cada um.

    6. É tão patológica a minha insistência em relação à crítica ao marxismo, como é patológica a sua estranheza em relação à minha insistência na crítica. A patologia de alguém fundamenta-se; a sua patologia consiste em considerar uma ditadura como algo de sublime. Só alguém com uma patologia incurável pode considerar uma ditadura como um sistema político ideal, como parece ser o seu caso quando considera a minha crítica como sendo patológica.

    7. Se a sua mente não é revolucionária, não compreendo a sua obsessão com o meu texto. Será patologia?

    8. Diga-me um só sistema político em que o capitalismo seja abolido e que não seja imbuído das ideias de Marx e Engels. Só um.

    9. Meu caro: ainda bem que afinal já não defende as ideias do Nabais. Estamos a evoluir.

    10. A “essência nuclear da natureza humana”, por definição e passo a redundância, está ligada à Natureza Humana. Quando me provarem que a essência nuclear do ser humano é igual à de um bonobo (ou coisa que o valha), passarei a dar razão ao Nabais.

    O caro amigo confunde “essência nuclear da natureza humana” com “cultura” ― aliás, toda a sua construção ideológica é uma confusão. Transcrevo o que escrevi:

    o “filósofo” padece de uma fé metastática, que consiste em pretender alterar a própria essência nuclear da natureza humana utilizando todos os meios possíveis para esse desiderato, o que inclui o exercício da violência de uma forma arbitrária. O ser humano não é só “instinto”: é também “razão” e “emoção”.

    (ponto)

    Quando os países islâmicos evoluem hoje para o reconhecimento da superioridade da monogamia, não acham estranho que a esquerda defenda o retorno da sociedade aos seus primórdios culturais?

    A proposição tem duas partes distintas: a primeira alude à natureza humana, e a segunda à cultura. A negação da evolução cultural é uma forma de niilismo, assim como o é a defesa da involução cultural. Não confundir o rei “Nabucodonosor” com “nabo no cu do sôr”.

    11. A República de Platão não abolia nem a monogamia, nem abolia o casamento, nem instituía o “casamento” gay, apesar de a homossexualidade ser tolerada na Antiga Grécia. A única coisa que a Platão defendeu foi que as crianças fossem educadas pelo Estado e fora do ambiente familiar tradicional para que as mulheres tivessem as mesmas funções sociais do homem.
    Não confundir “as obras do mestre Picasso” com “as picas de aço do mestre de obras”.

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    Comentar por O. Braga — Quinta-feira, 7 Maio 2009 @ 2:17 pm | Responder

  10. Caro amigo Schreber: penso que o seu ponto de vista foi claramente exposto, as minhas posições também. Não faz sentido continuar ad Aeternum com este diálogo. O essencial das duas posições ficou exposto para um julgamento suficiente dos leitores.

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    Comentar por O. Braga — Sexta-feira, 8 Maio 2009 @ 8:43 am | Responder

  11. […] Nesta agenda política inserem-se várias iniciativas que a priori nos parecem desconexas, mas que obedecem a uma ordem moral disruptiva que consciente ou inconscientemente existe de facto e é alimentada pela propaganda política do esquerdalho. Entre essas iniciativas está uma visão radical da educação sexual nas nossas escolas, está a distribuição de preservativos a alunos de 11 / 12 anos, e está a defesa da poligamia e da abolição do casamento por parte de um “filósofo bosta” que tem ace…. […]

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    Pingback por A copralalia pedagógica da ‘educação sexual’ da professora de Espinho « perspectivas — Quarta-feira, 20 Maio 2009 @ 9:29 pm | Responder

  12. (…)
    O senhor, o senhor Schreber e o senhor Olavo parecem esquecer uma coisa: a metafísica é insusceptível de confirmação ou infirmação experimental; por isso, as formas de Platão, as mónadas sem janela, de Leibniz cuja harmonia está pré-estabelecida, a coisa em si de Kant ou o destino histórico do proletariado como emancipador da humanidade de Marx são teses que ou são aceites a partir dos seus pressupostos, argumentando-se melhor ou pior, ou simplesmente não o são; sim, a tese do proletariado é metafísica, daí o marxismo não ser uma ciência, Mais: estarão estas teses a um nível tão diferenciado conceptualmente? A própria religião não deixa de se fundamentar em pressupostos metafísicos, com uma contrapartida sígnica de onde emerge a fé, mas ainda assim longe de um acesso inequívoco aos desígnios da divindade – se nós não somos Deus, que nos transcende absolutamente, como é que sabemos exactamente os Seus planos para nós e para o mundo? É essa mediação empírica, a qual é sempre problemática, que o senhor Olavo procura contemplar com o conceito de paralaxe cognitiva; o que ele não salienta é que, se ela se acentua a partir do século XVI, é porque a mundividência religiosa até aí hegemónica e em que tudo era potencial signo da sua verdade começa a ser colocada em causa. A razão aspira à universalidade mas adquire contornos históricos na sua aplicação. Por isso, se é óbvio que “a filosofia nasceu da religião, e portanto é tão antiga quanto a religiosidade humana”, ela cedo se exerceu como instância racional crítica; legitimadora do cristianismo em todo o período medieval, depois reguladora, finalmente descambando em vários ateísmos; e quer você queira quer não, Kant é um dos primeiros ‘coveiros’ de Deus, à revelia de si mesmo, ao demonstrar nas antinomias da razão pura, nomeadamente na quarta, que a razão só por si tanto pode pensar a existência de um ser necessário como não, isto é, a lógica não é suficiente para justificar que Deus existe. E com isto não estou a negar a existência de Deus nem a querer validar o relativismo, apenas a tentar entender os limites da razão. Como ouvi uma vez dizer Maria Filomena Molder, o grande objecto da racionalidade filosófica é a própria racionalidade e os seus próprios limites (cito de cor).

    (seguem-se insultos)

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    Comentar por custodiodavid — Segunda-feira, 20 Junho 2011 @ 12:54 pm | Responder

    • O primeiro parágrafo do seu comentário foi eliminado porque se tratava apenas e só de um argumento ad Hominem — uma tentativa de desqualificar pessoalmente o opositor ideológico, pretendendo com isso ganhar vantagem retórica.

      Vamos à segunda parte do seu comentário — que é a única não é um ataque pessoal.

      1.

      “a metafísica é insusceptível de confirmação ou infirmação experimental”.

      Esta sua proposição não é susceptível, ela mesma de confirmação ou infirmação experimental.

      Explicando melhor: você pretende dizer que “a significação é a verificação” — ou seja, que só tem sentido racional aquilo que é verificável (experimentalmente ou através de modus ponens); e partindo deste pressuposto, você diz que a metafísica (ou teses metafisicas) ou são aceites, ou não são aceites (como se de espécies de dogmas se tratassem), e que, por isso, não dependem da racionalidade que você alegadamente atribui à experimentação.

      Essa sua proposição (“a significação é a verificação”) não é, ela própria, verificável, e por isso, segue-se que a o seu método empírico/científico têm a sua raiz na metafísica. Você nega a metafísica utilizando a própria metafísica. Deu para entender, ou quer que lhe faça um desenho?

      2. Evite a linguagem gongórica e adopte um discurso simples. Você não passa a ter automaticamente razão por complicar aquilo que é simples. Se você aprendeu com o Nabais a complicar e a adoptar gongorismos, reconheça que está errado e rectifique o seu método de argumentação.

      3. Não sei se deu conta, o seu comentário tinha 3.906 palavras e 22.972 caracteres, e eu reduzi-o apenas à segunda parte. Isto só revela a sua fraqueza argumentativa. Não é por você escrever um livro com muitas folhas que passa a ter razão naquilo que diz.

      4. Não misture conceitos em um arrazoado ininteligível. Não é por você se tornar incompreensível que vai impressionar a plateia e convencê-la de que você tem razão. Seja objectivo, assertivo e conciso. Aprenda com Leibniz a esquematizar os seus argumentos.

      5. Você tem falta de prática: tem que treinar mais. Esqueça aquilo que o Nabais lhe ensinou! Vá estudar um pouco e a sério, e reapareça daqui a um ano.

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      Comentar por O. Braga — Segunda-feira, 20 Junho 2011 @ 3:38 pm | Responder

  13. […] esta proposição de um comentador : “A metafísica é insusceptível de confirmação ou infirmação […]

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    Pingback por A dificuldade do conhecimento (3) « perspectivas — Segunda-feira, 20 Junho 2011 @ 9:58 pm | Responder


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