perspectivas

Quarta-feira, 11 Março 2009

Não podemos esquecer que o Bloco de Esquerda é um partido marxista

Uma das características do Bloco de Esquerda é o “psicomarxismo” ― que junta Freud a Marx ― que se vale da tradicional suspeição ideológica generalizada marxista aliada a Freud, para decidir que não existem “consciências inocentes”: a consciência ou é moral, ou imoral. Segundo esta concepção da realidade, qualquer teoria ― e mesmo qualquer opinião ― pode ser desmascarada como sendo uma “ideologia capitalista”, ao mesmo tempo que é um “sintoma oral” que resulta de um recalcamento edipiano do indivíduo que disfarça o desejo de ir para a cama com a sua própria avó.

A razão porque a generalidade dos me®dia dá o beneplácito da propaganda ao Bloco de Esquerda e não fazem exactamente o mesmo em relação ao Partido Comunista, é porque que o PREC ainda está presente na mente de muitos portugueses, e porque o Bloco consegue fazer passar para o público uma imagem de diferença metodológica em relação ao PCP. No caso dos comunistas, seria improfícuo que alguns “jornaleiros” dos nossos me®dia dissessem que o PCP não defende um totalitarismo, porque cairiam no ridículo, e isto porque já existe uma experiência passada vivida pelo povo português que prova que o PCP esteve muito próximo da instauração de uma ditadura do proletariado em Portugal, e que por isso o nosso país esteve muito perto de uma guerra civil em 1976/77.

A verdade é que é impossível que um movimento político seja marxista e não defenda um regime ditatorial; a essência do marxismo é a ditadura e a restrição das “liberdades burguesas”, que inclui a liberdade de expressão. Porém ― e o que é extraordinário ―, o Bloco de Esquerda está a conseguir passar a mensagem segundo a qual é possível ser-se marxista e ao mesmo tempo defender o pluralismo e a liberdade de expressão na sociedade. E as pessoas acreditam!

beA táctica utilizada pelo Bloco de Esquerda junto do eleitorado tradicional do centro-esquerda é a de lançar sistematicamente a suspeição ideológica e moral de uma forma generalizada sobre os adversários políticos, ao mesmo tempo que defende a ideia de que os interesses do BE coincidem exactamente com os interesses dos portugueses e da humanidade.

Assim, toda a cultura da comunicação no nosso país passou a pautar-se pelo “efeito bloquista” de suspeição generalizada decorrente da “superioridade moral” do Bloco de Esquerda, na medida em que os me®dia portugueses se cobriram com o bolor bloquista da suspeita generalizada em relação a tudo e todos, e no meio da suspeição generalizada, são igualmente condenados os criminosos e triturados os adversários políticos inocentes. Isto significa que a consciência do marxista e bloquista é a única que está sempre certa, mesmo quando todos sabemos que o movimento revolucionário matou mais de 200 milhões de pessoas no século XX.

Uma das características do Bloco de Esquerda é o “psicomarxismo” ― que junta Freud a Marx ― que se vale da tradicional suspeição ideológica generalizada marxista aliada a Freud, para decidir que não existem “consciências inocentes”: a consciência ou é moral, ou imoral. Segundo esta concepção da realidade, qualquer teoria ― e mesmo qualquer opinião ― pode ser desmascarada como sendo uma “ideologia capitalista”, ao mesmo tempo que é um “sintoma oral” que resulta de um recalcamento edipiano do indivíduo que disfarça o desejo de ir para a cama com a sua própria avó. Por isso é que o Bloco de Esquerda apoia o gayzismo como sendo “o produto da libertação do ser humano em relação à repressão do instinto que a civilização capitalista impõe ao indivíduo”. Portanto, o “psicodiscurso” bloquista divide-se entre o discurso da experiência interior e o discurso da suspeição sistemática e esquizofrénica em relação ao outro.

Porém, a chave do crescimento do Bloco de Esquerda nas sondagens consiste numa pequena diferença em relação ao PCP. Enquanto este se apoia na luta da classe operária que é o “sujeito revolucionário”, o Bloco de Esquerda definiu que o papel catalizador da luta contra o capitalismo são os jovens estudantes. Portanto, o “sujeito revolucionário” dos bloquistas são os jovens estudantes porque estes são considerados pelo Bloco como o “ponto fraco do sistema capitalista”, e o sistema educativo passa a ser um alvo prioritário de controlo político rumo à tomada do poder totalitário.


Conforme escreveu Olavo de Carvalho, a mente do dirigente do Bloco de Esquerda (e dos marxistas em geral) apresenta três características essenciais, a ver:

A inversão da percepção do tempo

As pessoas normais consideram que o passado é algo imutável e que o futuro é algo de contingente ― “o passado está enterrado e o futuro a Deus pertence”, diz o senso-comum.

A mente revolucionária bloquista não raciocina desta forma: para ela, o futuro utópico é um objectivo que será inexoravelmente atingido ― o futuro utópico é uma certeza; não pode ser mudado.
Por outro lado, a mente revolucionária considera que o passado pode ser mudado (e ferozmente denunciado!) através da reinterpretação da História por via do desconstrutivismo ideológico (Heidegger → Sartre → Foucault → Derrida → Habermas). Em suma: o futuro é uma certeza, e o passado uma contingência ― isto é, o reviralho e a demência totais.

A inversão da moral

Em função da crença num futuro utópico dado como certo e determinado, em direcção ao qual a sociedade caminha sem qualquer possibilidade de desvio, a mente revolucionária acredita que esse futuro utópico inexorável é isento de “mal” ― esse futuro será perfeito, isento de erros humanos. Por isso, em função desse futuro utópico certo e dado como adquirido, todas os meios utilizados para atingir a inexorabilidade desse futuro estão, à partida, justificados. Trata-se de uma moral teleológica: os fins justificam todos os meios possíveis.

A inversão do sujeito e do objecto

A culpa dos actos de horror dos 200 milhões de mortos causados pela mente revolucionária ao longo do século XX é sempre das vítimas, porque estas não compreenderam as noções revolucionárias que levariam ao inexorável futuro perfeito e destituído de qualquer “mal”. As vítimas da mente revolucionária ― e bloquista ― não foram assassinadas: antes suicidaram-se, e a acção da mente revolucionária é a que obedece sem remissão a uma verdade dialéctica imbuída de uma certeza científica que clama pela necessidade desse futuro sem “mal” ― portanto, a acção da mente revolucionária é impessoal, isenta de culpa ou de quaisquer responsabilidades morais ou legais nos actos criminosos que comete.
Segundo a mente revolucionária, as pessoas assassinadas pelos bolcheviques comandados por Trotski e por Lenine durante e depois do golpe de Estado de 1917 na Rússia, foram elas próprias as culpadas da sua morte (suicidaram-se!), por se terem recusado a compreender a inexorabilidade do “futuro sem mal” de que os revolucionários seriam simples executores providenciais.

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4 comentários »

  1. Excelente e esclarecedor texto para quemcomo eu se interessa mas não tem conhecimentos profundos deste assunto.
    Beijo

    Comentar por Aradhana — Quarta-feira, 11 Março 2009 @ 7:51 pm | Responder

  2. Excelente post.
    Fiquei preocupado com o semblante carregado e triste de João Semedo, deputado e consumidor de Caviar de Esquerda, na Assembleia, ao comentar a vinda do Zézito de Angola, a Portugal.
    Até pensei que se ia atirar da varanda para a rua, cansado de tanta ilusão!
    Na verdade, os bloquistas ainda são mais perigosos que a canalha comunista do PcP.
    Apre!

    Comentar por Karlos Kellog — Quinta-feira, 12 Março 2009 @ 1:19 am | Responder

  3. A relação constantemente feita entre o marxismo e a sua exigência ditatorial proletária é uma interpretação rápida e automática devido aos factos e experências conhecidas. As nações que conseguiram impor o marxismo tiverem, obrigatoriamente, de adoptar esta ditadura não pela aplicação do marxismo mas pela mediocridade ética, não dos trabalhadores, mas sim da dita burguesia, traduzida seja em descriminação racial como social. O marxismo seria aplicável e traria a liberdade e igualdade, numa sociedade eticamente justa e visionária, sem necessidade de aplicação da ditadura. Esta sim seria uma interpretação correcta do marxismo.
    Hoje em dia, o Bloco de Esquerda, e bem, difere das opiniões comunistas. Esta discordância só traz beneficios uma vez qeu é preciso várias visões sobre o mesmo problema para que na conclusão sejam tomadas medidas que menos prejudiquem os operários, ou melhor, que mais os beneficiem. Isto, claro, não é aplicável pela constante ambição de poder (e reconhecimento) que se procura, em vez de tal como uma verdadeira esquerda critica e revolucionária, trabalhar em conjunto para o bem do povo. É óbvio, que vivendo num regime neoliberal, esta aplicaçã é restringida por abafores números e altas críticas. Mas é esse o ambiente que os verdadeiros partidos de esquerda devem tomr, para dar a conhecer à sociedade, a verdadeira possibilidade de justiça social, que não gera riqueza, apenas felicidade.

    Comentar por Renato Pereira — Sexta-feira, 13 Março 2009 @ 8:13 pm | Responder

  4. O que é mais importante, a igualdade ou a liberdade?
    O Homem nasce igual, morre igual mas vive diferente, porque é livre!
    Toda a ideologia igualitária restringe, mais cedo ou mais tarde, a liberdade individual e como tal está ferida de morte.
    Também não concordo com o este neoliberalismo irresponsável e egoísta, mas ainda assim deixa espaço aos que se esforçam e merecem.

    Comentar por Eduardo Alves — Sexta-feira, 29 Maio 2009 @ 3:30 pm | Responder


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