perspectivas

Segunda-feira, 9 Março 2009

O “mercado das teorias”

Filed under: cultura — O. Braga @ 3:27 pm
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A partir da revolução burguesa de 1789 em Paris, a Europa e o mundo passaram a viver numa lógica de mercado, e submetida a ela ficaram também as ideias e as teorias, sejam estas científicas, políticas, religiosas ou outras. Filósofos, políticos, cientistas e religiosos passaram desde então a vender as suas ideias no “mercado das teorias”, da mesma maneira que o agricultor vai ao bazar vender o produto da sua sementeira do ano.

A lógica do mercado é simples: as coisas valem aquilo que no bazar se dá por elas. No “mercado das teorias”, estas também só valem o que se dá por elas, independentemente do seu valor intrínseco.

Segundo a lógica do “mercado das teorias”, uma teoria é boa se tiver uma venda fácil e se ela fidelizar a clientela ― porque não há clientes fiéis, mas clientes fidelizados. Não é importante se a teoria é bem fundamentada ou não: para que a teoria venda bem é só necessário que as ideias sejam apelativas e imediatistas, por forma a cativarem o consumo de uma clientela tão numerosa quanto possível.

Todas as ideias políticas ― incluindo o marxismo ― se sujeitaram e se apresentaram ao “mercado das teorias”. Algumas teorias procuraram encontrar “nichos de mercado”, tentando “demarcar-se da concorrência” de teorias mais apelativas e de aceitação instintiva pelo mainstream do mercado; nesta categoria de teorias está, por exemplo, o marxismo cultural, que depois de conquistar um nicho no “mercado das teorias” a partir dos anos 20 do século passado, ressurgiu nos anos 90 como um produto que substituiu o marxismo económico que tinha esgotado o seu “ciclo de vida” e se encontrava numa situação de queda abrupta de vendas.

Segundo a lógica do “mercado das teorias”, uma boa teoria tem que conter aquilo que os consumidores querem maioritariamente ouvir (ou ler), mesmo que o conteúdo dessa teoria seja parcial ou totalmente falso. A verdade e a mentira não fazem parte da lógica de mercado senão na medida em que o mercado considere a mentira como sendo mentira, e a verdade como sendo verdade ― aqui, a ordem dos factores é arbitrária e determinada pela “cultura do mercado”, e neste sentido a “mão invisível” presente no “mercado das teorias” pode optar por valorizar e inflacionar o preço de uma teoria logicamente absurda como sendo verdadeira.
Quando o preço de uma teoria sobe no “mercado das teorias”, passa a ter mais valor cultural mas só enquanto o princípio do “paradoxo do valor” não actua (ver mais adiante). Ora essa inflação dos preços das teorias é determinada pelos factores da lógica de mercado, a ver: imediatismo da teoria em relação às necessidades básicas do “espírito do tempo”, e uma acção de Marketing adequada ao consumidor-alvo tipificado, por um lado, e às características do produto teórico, por outro.

A profundidade lógico-analítica de uma teoria ― que pode determinar o seu maior grau de autenticidade ― não é condição necessária para uma boa aceitação no “mercado das teorias”, mas sim o imediatismo com que essa teoria é adoptada (comprada) pelo mercado. Quando vendemos ideias, é necessário que essas ideias estejam de acordo com aquilo que as pessoas querem comprar, independentemente dessas ideias serem intrinsecamente pobres ou ricas à luz da inteligência lógico-matemática. Quando uma teoria pretende forçar a sua venda através da tentativa de formatação da vontade do consumidor ― criando “necessidades artificiais” no mercado ― tem sempre um curto ciclo de vida, como aconteceu com o nazismo.

Foi nesta lógica de mercado que os produtores da teoria do nazismo conseguiram vender as suas ideias a praticamente todo o povo alemão; neste caso, uma parte do povo alemão acabou por comprar as ideias que mais lhe convinham naquele particular momento histórico, e à outra parte do povo foram criadas “necessidades artificiais” que a convenceram a consumir o produto ideológico nazi.

Por outro lado, no caso do nazismo, o “ciclo de vida” deste produto ideológico foi efémero (também) porque o consumidor global se apercebeu rapidamente que este tipo de produto ideológico pretendia impor-se como único no mercado (monopólio), o que fez com que a concorrência ideológica ao nazismo presente no “mercado as teorias” se unisse estrategicamente à volta de um consenso que permitisse a sua sobrevivência como alternativa ideológica. Perante uma acção de tomada de posição unânime e exclusivista do “mercado das teorias” por parte do nazismo, as outras teorias juntaram-se numa acção conjunta de Marketing por forma a que o consumidor valorizasse as alternativas de consumo ideológico ― mesmo sem que o consumidor tivesse tido sequer ainda a percepção da monstruosidade humana do nazismo.

Porém, a percepção do consumidor em relação ao marxismo não foi a mesma que o mercado teve em relação ao nazismo por uma questão de diferença na estratégia do Marketing marxista. Enquanto que o nazismo optou pelo expansionismo das suas vendas baseando-se numa estratégia agressiva e radical de pulverização do “mercado das teorias” (discurso nazi = “nós somos os bons, e os outros são todos maus”), praticando uma política comercial de preços baixos e mesmo o dumping, o marxismo da linha estalinista preferiu manter a sua política de estabilidade de preços no mercado baseando-se numa estratégia de auto-valorização do seu produto ao mesmo tempo que inteligentemente induzia (de forma subliminar e implícita) o mercado a desconfiar sistematicamente das outras teorias ― e foi assim que o marxismo conseguiu uma boa parte do “mercado das teorias” : China e sudeste asiático, Europa de leste e Cuba.

Porém, o ciclo de vida do produto “marxismo” entrou em fase descendente com a mudança de estratégia de vendas através da corrente trostkista da expansão agressiva e radical adoptada pela China e por Cuba, com uma estratégia similar à adoptada pelo nazismo: a tentativa de pulverização do “mercado das teorias”. Esta mesma estratégia de pulverização ideológica é hoje adoptada pelo marxismo cultural através do politicamente correcto.

O “paradoxo do valor” está presente (embora adaptado ao tipo de produto) no “mercado das teorias”: o valor de uma teoria decorre de uma apreciação subjectiva que o “actor de mercado” ― seja este o produtor das ideias, os intermediários e os consumidores ― no seu conjunto dá a essa teoria no sentido da satisfação de um determinado fim imediato, que muitas vezes é mais psicológico do que uma questão de sobrevivência humana. Quando a satisfação desse fim é conseguida, a “utilidade marginal” da teoria faz com que ela sofra um decréscimo considerável no seu valor ― a “abundância” (aqui, no sentido de “popularidade” e adesão) disponível de uma determinada teoria dita a depreciação do seu valor de mercado.

Não é a valorização da qualidade dos produtos ideológicos, mas antes a quantidade disponível (adesão) no mercado que acaba por transformar a teoria num commodity ― tal como a água acaba por ser desvalorizada pelo mercado em favor do ouro, embora a água seja muito mais importante para a sobrevivência humana do que o ouro. A “mão invisível” do “mercado das teorias” é irracional e procura a satisfação das necessidades básicas e imediatas do mercado, e logo que essas necessidades básicas são satisfeitas, os produtos sofrem uma desvalorização em favor de outros produtos com maior valor cambial porque são mais raros na natureza (embora possam ter conteúdos ideológicos mais cretinos), e assim o mercado desvaloriza a importância real e vital das teorias.

A perversidade do “mercado das teorias” é que acaba por introduzir no consumo as ideias mais abstrusas e irracionais que se transformam em commodities, isto é, ideias consumidas instintivamente através de automatismos culturais impostos pelo Marketing agressivo e radical de algumas teorias exclusivistas ― como aconteceu no passado com o nazismo.
Por exemplo, a linguagem imposta pelo politicamente correcto do marxismo cultural é um conjunto de commodities para consumo ideológico. Por exemplo, não se diz “cego”; diz-se “invisual”; não se fala em “sexos”, mas em “géneros”; não se fala em “equidade” entre homem e mulher, mas de “igualdade”, mesmo que esta não seja objectivamente possível; e por aí fora.

A atitude do conservadorismo perante o “mercado das ideias” é a de que estas não devem ser vendidas com mais valias ― como todas as ideologias fazem com os seus produtos, incluindo o marxismo ― porque as ideias são produtos naturais que devem ser pagas pelo preço justo e não regulamentadas pelo valor de “mercado das teorias”. Para o conservador, e ao contrário do que acontece com os outros produtos humanos, as ideias devem ser vendidas sem margem de lucro, e por isso devem ser excluídas de uma lógica de mercado. Por isso, o conservador remete a gestão do património ideológico de uma sociedade para as múltiplas comunidades da sociedade civil que não têm um fim utilitarista em si mesmas, dissociando as ideias do monopólio da soberania individual.

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