perspectivas

Terça-feira, 24 Fevereiro 2009

O problema da Teodiceia

Filed under: Religare — O. Braga @ 4:55 pm
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Uma questão colocada amiúde é a seguinte: “se Deus é o Bem e criou o mundo, porque é que existe o mal?”

Voltaire criticou Leibniz a propósito da teoria deste último que defendia a ideia de que “vivemos no melhor possível dos mundos”, dando Voltaire como exemplo o terramoto de Lisboa de 1755 em que morreram milhares de pessoas.
De igual modo, os maremotos provocados por um sismo marítimo que assolaram as costas da Índia e Indonésia em Janeiro de 2004 resultaram em centenas de milhares mortos, muitas dos quais pessoas simples e pobres. A pergunta que ouvi na altura era a mesma: “se Deus existe e é bom, porque é que permite que pessoas inocentes, incluindo crianças, morram desta forma? Será que foi Deus que criou o mal?”


Para respondermos a estas perguntas, temos que definir dois conceitos: o conceito da “emanação”, e o conceito da “imanência”, que são coisas diferentes e que por vezes se confundem.

Segundo Platão, e os neoplatónicos como Plotino e Proclo, “emanação” é processo segundo o qual o Uno (Ser Criador) gerou o universo. Para Plotino, quando “o Uno se pensou a si próprio”, deu origem (por emanação) ao Intelecto, que por sua vez deu origem ― por um processo de emanação ― à “Alma do Mundo” que é o “Verbo” e Acto do Intelecto, assim como o Intelecto é Acto do Uno.

Assim, o Uno, o Intelecto e a Alma do Mundo ― segundo Plotino ―, sendo essências diferentes, constituem o “Mundo Inteligível”, e foi baseada nesta trindade platónica que o Cristianismo, nomeadamente através de Santo Agostinho, cimentou a ideia da Santíssima Trindade (Pai, Filho e Espírito Santo).

Coisa diferente de “emanação” é “imanência”, que interpretada de certa forma, pode ser exactamente o oposto de “emanação”. A imanência declara o Uno (ou Absoluto) inseparável do Mundo, sendo que o Uno (Deus) reside do Mundo. Por exemplo, o panteísmo de Espinosa é imanentista na medida em que defende que o mundo faz parte integrante de Deus (imanência) e não que o mundo é uma criação separada de Deus (emanação). De igual modo, o naturalismo cientificista é um monismo imanentista, na medida em que a Natureza substitui a ideia de Absoluto (ou Deus) num mecanismo de imanência que faz com a que a divindade (a Natureza) faça parte do mundo dos homens.

Plotino descreve o processo de “emanação” com várias metáforas: por exemplo, a “emanação” é semelhante ao processo pelo qual a luz se difunde em torno de um corpo luminoso, ou ao processo do calor que se difunde em torno de um corpo cálido, ou ainda, o processo de emanação é semelhante ao perfume que emana do corpo odorífero.

Portanto, o que emana do Uno não pertence ao Uno, embora proceda Dele. Em consequência, a emanação é um processo de degradação da qualidade primeira. Aquilo que emana do Uno é inferior ao Uno, assim como a luz é menos luminosa do que a fonte de onde emana, e o odor do perfume perde intensidade à medida que se afasta do corpo odorífero.

Assim como o Uno, o Intelecto e a Alma do Mundo constituem o “mundo inteligível”, a matéria constitui o “mundo sensível” e emana da “Alma do Mundo”. Existe, portanto, um processo de subsidariedade na criação, sendo que ele é realizado por um processo emanação. Assim, a causa não pertence ao efeito nem o efeito pertence à causa. O “Intelecto” não pertence ao “Uno”, embora o primeiro tenha emanado do segundo. A “Alma do Mundo” não pertence ao “Intelecto”, nem a matéria pertence à “Alma do Mundo”.

A matéria é o último estágio do processo de emanação em cadeia, e a matéria só poder considerada como “mal” no sentido em que pode ser impedimento para o retorno ao Uno, isto é, quando a matéria é considerada pelo ser humano com um fim em si mesma. Contudo, a matéria tem as suas leis particulares, próprias de uma emanação que a constitui como efeito de uma causa, sendo que o efeito (a matéria ou “mundo sensível”) não pertence nem é igual à causa (“mundo inteligível”).


Em resumo, o que está intelectualmente errado ― na medida em que a questão está mal colocada ― é a questão da Teodiceia em si mesma, porque esta tenta reconciliar a matéria (o mundo sensível) com Deus (que é o Uno do Mundo Inteligível) de uma forma imanentista ― utilizando o conceito de “imanência” de que falei acima ― confundindo-se a “transcendência” com a “imanência”. A ordem imanente do mundo material é diversa da ordem transcendental de que é a causa por emanação, e quando se confundem os dois tipos de ordem caímos na tentação da Teodiceia.

A ordem material é uma precária imagem da ordem transcendental de onde foi emanada, e sendo precária assume uma lógica que obedece a leis próprias que não são rigorosamente adequadas à inteligência humana, no sentido em que essa lógica da matéria contém em si mesma a contingência, o risco e o sacrifício. Quando o Homem vive no “mundo sensível” (a matéria), sujeita-se às suas leis, e portanto, as vítimas das catástrofes naturais acontecem por via de fenómenos da matéria (e não de Deus), e sendo a matéria o produto de um processo de subsidariedade na criação por via da “emanação”, ela é simples efeito de uma causa e não pertence intrinsecamente a Deus.

Questão diferente é a do “Kharma Colectivo” ― este sim, é imanente na relação entre o “mundo sensível” e o que Plotino chamou de “Alma do Mundo”. Neste sentido, a “imanência” é entendida como uma complementaridade da “transcendência”, embora mantendo-se a diferenciação entre os dois conceitos. O facto de existir uma diferença essencial entre dois conceitos não significa eles que se anulem por via dessa diferença.

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8 comentários »

  1. Costumo reger minhas crenças numa lei da física que todos conhecem, a “lei da ação e reação”. Acredito que que esta lei explica de forma categórica o que acontece na Terra. O nosso planeta é sujeito a essa lei tanto quanto cada um de seus habitantes. A fórmula é simples e mesmo que não satisfaça as mentes mais “rebuscadas” é o mais amplo sentido dos acontecimentos. Como Jesus dizia “…o reino de meu Pai tem muitas moradas…” (expressão entendida ao bel-prazer de cada um) para mim Ele nos apontava o quanto ainda teríamos que melhorar para alcançar lugar melhor para viver. Lamentarmo-nos porque as “desgraças” acontecem é atribuir a outrem responsabilidades que nos cabem. Olhamos as crianças que morrem no meio de vendavais, terremotos, tsunamis, fome, e nos entristecemos. Somos seres sensíveis que nos comovemos com a fatalidade. Em sentido mais restrito, fazemos a nossa parte em relação aos que podemos alimentar? Abrigar? Socorrer? O nosso olhar consegue enxergar o óbvio e nem sempre enxergamos o que nos compete. Mas é por isso que estamos em evolução. Entender a vida é bem mais complexo.

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    Comentar por delfinaguimaraes — Quarta-feira, 25 Fevereiro 2009 @ 2:40 pm | Responder

  2. Delfina:

    O problema da Teodiceia é o principal ― senão o único ― argumento racional ateísta, e por isso é que é importante explicar porque é que não podemos confundir a “transcendência” com “imanência”. Aquilo que é imanente ao mundo está de certa forma englobado pelo mundo; o que é transcendente está para Além do Mundo (utilizando uma linguagem da filosofia quântica: ALÉM DO MUNDO).

    Os estóicos diferenciavam aquilo que está na nossa mão mudar e aquilo que não está na nossa mão alterar. Eu penso que os estóicos estavam errados: tudo está na nossa mão mudar ― o problema é saber se reunimos as condições subjectivas e objectivas para que aquilo que é possível mudar possa acontecer. Naturalmente que é utopia realizar o paraíso na terra; porém, a fome no mundo, por exemplo, pode ser atenuada.

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    Comentar por O. Braga — Quarta-feira, 25 Fevereiro 2009 @ 5:44 pm | Responder

  3. A Física Quântica que para mim era um palavrão (acho que já falei) está tornando-se uma fonte de busca e esclarecimento. A mente aberta ao novo – no sentido de ignorado – cresce na medida em que se esclarece. Olhando para trás temos uma infinidade de professores, de gente que colocou nas páginas da história ensinamentos para toda a vida. Olhando para a frente a curiosidade nos leva a mundos indecifráveis por gente rudimentar como eu, mas com a fortuna de ler quem realiza a tarefa de pesquisar. Agora é só refletir, e, isso é trabalho individual até que as dúvidas surjam e a busca pelo esclarecimento se torne imperativa. Obrigada.

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    Comentar por delfinaguimaraes — Quarta-feira, 25 Fevereiro 2009 @ 8:39 pm | Responder

  4. O Panteísmo emanentista é uma filosofia interessante e sedutora na medida em que defende que Deus gerou o Universo a partir da sua própria substância e, deste modo, não o criou a partir do Nada. O Universo é gerado e não criado. Assim, parece ficar resolvido e ultrapassado o problema do Nada. É que do Nada não pode surgir alguma coisa a não ser que o Nada seja tratado como sendo alguma coisa. A criação a partir do Nada, quer seja por Deus quer seja pelo Acaso dos ateus materialistas, levanta uma contradição lógica, pois o Nada para “ser” Nada não pode ser “alguma coisa” e do verdadeiro Nada nada sai ou se produz ou se cria. O Nada é a ausência e a impossibilidade da Existência. Deste modo, é filosoficamente sedutor ver o Mundo como derivado da substância do próprio Deus, conquanto ele não seja Deus.

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    Comentar por Sérgio Sodré — Sexta-feira, 2 Julho 2010 @ 4:20 pm | Responder

    • @ Sérgio Sodré:

      Porém, há um problema: a ciência já demonstrou por dedução da lógica-matemática, que o universo surgiu do Nada através do Big Bang. Portanto, nem tudo o que é filosoficamente sedutor pode ser tido em consideração.

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      Comentar por O. Braga — Sexta-feira, 2 Julho 2010 @ 7:07 pm | Responder

  5. […] — Sérgio Sodré […]

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    Pingback por Sobre o Ser e o Não-ser « perspectivas — Sexta-feira, 2 Julho 2010 @ 9:21 pm | Responder

  6. @ O. Braga

    Julgo que o Big Bang aponta no sentido do enfraquecimento da crença no Universo Eterno semelhante à ideia de Deus, mas também aponta para a não aceitação do Nada como sua origem, até por definição do próprio Nada. Quando a Ciência não afirmava que o Universo teve um começo era aceitável admitir que este sempre existira. Com o Big Bang admite-se que teve um começo e esse só pode ser explicado por um outro princípio sem começo que o tenha produzido. A Ciência não pode demonstrar que algo surgiu do Nada, nenhuma experiência se pode realizar nesse sentido. Aliás, nem o espaço vazio seria o Nada, nem o vácuo seria o Nada, ambos são já alguma coisa… De um ponto estritamente racional, algo produziu o Big Bang e não nada produziu o Big Bang. O Nada criador é irracional e por isso remete para o domínio da pura Fé e eu já perdi a fé bastante para ser ateu. Mas claro que não tenho certezas neste domínio apenas lanço alguma reflexão para trocar opiniões e, porque não, aferir sensibilidades.

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    Comentar por Sérgio Sodré — Domingo, 4 Julho 2010 @ 6:45 pm | Responder

  7. 1. Ler : https://espectivas.wordpress.com/2010/07/02/sobre-o-ser-e-o-nao-ser/

    O Nada é não-matéria.

    2. Vc não perdeu a fé: mudou de fé.

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    Comentar por O. Braga — Domingo, 4 Julho 2010 @ 8:46 pm | Responder


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