perspectivas

Domingo, 8 Fevereiro 2009

“De Darwin a Hitler”, por Richard Weikart

Não existem dúvidas nenhumas de que Darwin era racista. E não existem dúvidas nenhumas de que o alegado “anti-racismo” da esquerda do “igualitarismo entre iguais” pretende esconder uma contradição interna insanável e inerente à própria ética evolucionista e darwinista: não é possível conceber o darwinismo sem o racismo.

O que une ideologicamente o blogger Daniel Oliveira (Esquerda), o blogger João Miranda (direita libertária) e alguns outros bloguistas (nem todos) conotados com a denominada “Extrema-direita”, é o darwinismo como filosofia de base ideológico-política.

Assim como a filosofia de Hegel deu lugar a uma escolástica hegeliana de direita e a uma esquerda hegeliana (David Strauss, Feuerbach, et al), assim o darwinismo é hoje utilizado como base filosófica que serve tanto a esquerda como uma certa direita.

Podemos ver neste vídeo ( http://www.youtube.com/watch?v=w_5EwYpLD6A ) uma palestra proferida pelo professor universitário de História, o americano Richard Weikart, em que ele fala do seu livro “From Darwin to Hitler”. Weikart enumera as consequências do darwinismo como filosofia e as suas repercussões na ética e na moralidade ― e não propriamente como uma mera teoria científica ligada à biologia ―, e atribuiu à filosofia darwinista a seguintes características básicas:

  1. A desigualdade humana primordial como base filosófica fundamental;
  2. O relativismo moral que subverte os Direitos Humanos;
  3. A ancestralidade animal do ser humano entendida como um valor de primeira grandeza;
  4. Negação do dualismo “Corpo” versus “Alma” (epifenomenalismo);
  5. A guerra como necessidade imprescindível à existência humana;
  6. A morte como sinónimo de progresso.



Entender o que se passa hoje com as diversas ideologias políticas presentes na nossa sociedade, passa pelo conceito dos “Memes” de Richard Dawkins, que aliás não é novo: já Hegel referiu, na sua “História da Filosofia”, a importância da historicidade da filosofia (e portanto, da cultura) como tradição:

«Aquilo que cada geração faz no campo da ciência, da produção espiritual, traduz-se numa herança para a qual contribuiu, com as suas poupanças, todo o mundo anterior…e este acto de herdar traduz-se ao mesmo tempo num receber e num fazer frutificar a herança. A herança plasma a alma de todas as gerações seguintes, forma a sua substância espiritual sob a forma de hábitos, determina as suas máximas, os seus preconceitos, a sua riqueza; e ao mesmo tempo, o património recebido torna-se por sua vez material disponível que surge transformado pelo espírito ― de tal modo que aquilo que foi recebido acaba por ser modificado, e a matéria elaborada, graças portanto ao trabalho de elaboração, enriquece-se sem no entanto deixar de se conservar como antes.»

Richard Weikart

Richard Weikart

Existe aqui, em Hegel, o conceito de devir cultural ― aquilo em que se transforma a cultura sem deixar de ser o que era antes da transformação. A diferença é que Dawkins atribuiu a causa do fenómeno a uma espécie de “metafísica biológica e genética”, enquanto Hegel explicou o fenómeno como simples transmutação cultural das ideias.

Naturalmente que existe ainda hoje na nossa cultura um misto da herança cristã com a herança darwinista ― que são totalmente antagónicas ―, e vem daí a actual “guerra cultural” de que nos fala Stanley Kurtz. Portanto, tanto o Daniel Oliveira como o João Miranda, embora vivendo numa sociedade com princípios e valores remanescentes da ética cristã, sofrem uma grande influência de uma cultura filosófica antagónica que decorreu da introdução do darwinismo como ética evolucionista. Naturalmente que a influência da ética evolucionista é mais forte na nossa sociedade actual do que era antes do Pós-modernismo, porque este introduziu a desconstrução da História ― por via do Existencialismo e da Teoria da Linguagem ― na nossa cultura popular.

Numa grande maioria dos pensadores modernos e pós-modernos, a ética evolucionista está presente, umas vezes dissimulada outras vezes declarada. Desde Marx e Nietzsche até Von Mises e Hayek, passando pelos utopistas-negativos e neomarxistas do politicamente correcto, existencialistas, neo-empiristas, etc., o darwinismo marca indelevelmente a nossa herança cultural, embora a maioria das pessoas não se dê conta da sua influência no nosso pensamento e na nossa cultura.

Alguns darwinistas de renome mundial dizem que o darwinismo não está minimamente relacionado com a ética e com a política, e por isso dizem que ética evolucionista é uma falácia naturalista e um darwinismo distorcido. Sendo ou não uma falácia naturalista, a verdade é que a ética evolucionista existe, umas vezes mitigada e dissimulada em Hayek, Von Mises, etc., outras vezes radical, ostensiva, clara e declarada como em Peter Singer, Richard Dawkins, Sam Harris, Daniel Dennett, et al.


A ética evolucionista tem como primeira característica o princípio da desigualdade humana primordial como base filosófica fundamental. Porém, esta característica dividiu-se em duas facções distintas: a da esquerda e a da direita darwinistas.

A direita darwinista adoptou este princípio à letra: se a evolução darwinista requer a variação e a variedade, a desigualdade entre os seres humanos ― nascidos ou não nascidos ― é um valor e uma virtude em si mesma no sentido de permitir a evolução à custa da eliminação dos mais fracos. A direita darwinista argumenta que “a ciência prova que a desigualdade é uma necessidade evolutiva”, e é, por isso, anti-socialista. As doenças mentais são entendidas como um retrocesso genético aos primatas inferiores, marcado pela recessividade genética que urge purgar através da eliminação física dos seres humanos que as transportem. As desigualdade no tratamento das diferentes raças é assumida como uma virtude.

A ameaça do sub-humano

A ameaça do sub-humano

A esquerda adoptou o “igualitarismo dos iguais”, segundo o qual todos os “iguais” ― que incluem as diversas raças humanas ― têm direito a uma igualdade de tratamento por parte do Estado. Fora do igualitarismo da esquerda estão os “desiguais”, de que faz parte a elite política que conduz a fé metastática (termo de Eric Vögelin) da construção do paraíso de justiça na Terra, por um lado, e os desiguais que podem ameaçar, com a sua simples presença, a fé metastática dos “iguais” na conquista do paraíso terreno, por outro. Desta segunda classe de “desiguais” fazem parte os não-nascidos, as crianças nascidas com doenças congénitas e os idosos com doenças terminais que custam dinheiro ao erário público, e que, por isso, prejudicam o bem-estar dos “iguais”.

Portanto, a duas principais diferenças entre a ética evolucionista de direita e de esquerda, é que, nos dois casos, a desigualdade é simplesmente colocada a um nível diferente: a direita darwinista assume a ética evolucionista de uma forma pura e dura, enquanto que a esquerda ― que é sempre darwinista ― assume o “igualitarismo dos iguais” como condicionante da ética evolucionista, e a herança cultural do messianismo judaico ― que chegou à Esquerda, nomeadamente, por via da maçonaria e do Iluminismo ― da fé metastática que promete o paraíso na Terra. Uma certa “extrema-direita” alia alguns princípios da esquerda (“igualitarismo dos iguais”) aos da direita darwinista de depuração racial, fazendo um sincretismo entre a direita darwinista e a esquerda.

O segundo princípio da ética evolucionista ― a partir de agora a coisa é comum à esquerda contemporânea pós-marxista e à direita darwinista ― é o relativismo moral que subverte os Direitos Humanos. O próprio Charles Darwin escreveu, na sua autobiografia:

«Tanto quanto eu possa ter consciência, uma pessoa só pode ter como regra de vida seguir aqueles impulsos e instintos que são os mais fortes ou os que lhe pareçam os melhores.»

Em função de Darwin, a moralidade mudou. Se toda a gente segue “os impulsos e instintos que são os mais fortes ou os que lhe pareçam os melhores”, os Declaração Universal dos Direitos Humanos como valor absoluto deixa de existir, porque a ética deixa de ser universal para ser aquilo que cada um entenda ser “os seus impulsos e instintos mais fortes”. Uma abstracção teórica sobre o fim último da ética evolucionista leva-nos a um cenário de “selva humana”, em que os princípios civilizacionais são a própria anti-civilização apoiada na Técnica que passa a tentar suprir a falta da ética universal e do combustível moral cristão.

O terceiro princípio da ética evolucionista é da ancestralidade animal do ser humano entendida como um valor de primeira grandeza. Darwin defendia a ideia de que a diferença entre o ser humano e os primatas se resume a uma questão de “grau”, isto é, trata-se de uma diferença quantitativa e não de uma diferença qualitativa. Quando nós assistimos hoje à preocupação da política de esquerda ― que é sempre darwinista ―, nomeadamente o amigo de Sócrates, José Luís Zapatero, em extender aos macacos os direitos humanos ao mesmo tempo que se liberaliza o aborto, vemos este princípio ético evolucionista em acção.

A ética cristã diz que ambas as coisas são importantes ― defender a existência dos animais e defender a santidade da vida humana. A ética evolucionista reduz a diferença entre o ser humano e o macaco a uma questão de “grau”, em que não existem diferenças qualitativas mas somente diferenças quantitativas em termos genéticos. Portanto, para a ética evolucionista, salvar uma espécie animal em extinção e eliminar o excedente humano através do aborto, do infanticídio das crianças deficientes e da eutanásia ― seguindo assim a teoria malthusiana ―, obedecem ao princípio de equivalência genética quantitativa entre um ser humano e um outro animal qualquer. Tudo se resume a uma questão de gestão dos recursos genéticos existentes. O ser humano e o macaco são praticamente a mesma coisa.

O quarto princípio da ética evolucionista é a negação do dualismo “Corpo” versus “Alma”, também chamado de “epifenomenalismo” assim definido pelo cão-de-guarda de Darwin, Thomas Huxley. Este princípio é ponto assente entre a esquerda e a direita darwinista; não merece qualquer contestação. A inexistência da alma humana ― segundo o monismo evolucionista e naturalista ― conduz inexoravelmente e por necessidade lógica, ao eugenismo; não há qualquer argumento racional que possa provar o contrário disto.

O quinto princípio da ética evolucionista é a “guerra” como necessidade imprescindível à existência humana. A esquerda e a direita darwinista divergem ligeiramente aqui quanto à necessidade da “guerra”, sendo que a esquerda a vê como uma “guerra” necessária à instauração do “igualitarismo dos iguais”, enquanto que a direita darwinista a encara como uma necessidade absoluta.

O missing link

O missing link

O princípio de Darwin segundo o qual “os organismos se multiplicam mais depressa do que as suas possibilidades de sobrevivência” é baseado na teoria de Malthus segundo a qual existe um desiquilíbrio populacional endémico e natural. Nasce daqui o princípio ético darwinista da “competição selvagem e saudável pelos recursos disponíveis”; nasce daqui o princípio ético darwinista de que uma família numerosa representa a degeneração humana e é sinónimo de sub-desenvolvimento genético e cultural, e que as famílias numerosas estão endemicamente na origem da criminalidade presente na sociedade e, portanto, o eugenismo é uma forma de “rectificar” a situação anómala das famílias numerosas que geneticamente recidivam aos primatas.

A ética evolucionista vê a “competição selvagem e saudável pelos recursos disponíveis” aplicada à História humana, como um processo natural e saudável de eliminação dos mais fracos.

Não existem dúvidas absolutamente nenhumas de que Darwin era racista. E não existem dúvidas nenhumas de que o alegado “anti-racismo” da esquerda do “igualitarismo entre iguais” pretende esconder uma contradição interna insanável e inerente à própria ética evolucionista e darwinista: não é possível conceber o darwinismo sem o racismo.

O sexto princípio da ética evolucionista é a morte como sinónimo de progresso, que resume o conceito de “cultura da morte” que o Papa João Paulo II atribuiu à cultura contemporânea. A “guerra” como necessidade imprescindível à existência humana é sinónimo do conceito de “morte como necessidade de progresso” que marca a esquerda neomarxista e a mente revolucionária ― e a direita darwinista que defende a lei do mais forte e a morte como um motor que impulsiona o progresso evolucionário. Charles Darwin escreveu no seu livro “As Origens das Espécies” :

«É da guerra da natureza, da fome e da morte, que surgem os objectos mais exaltados que são cabalmente concebidos ― nomeadamente a produção de animais superiores.»

Existe aqui um conceito recuperado da Teodiceia de Leibniz segundo a qual o mal do mundo não pode ser atribuído a Deus. O darwinismo recupera o conceito de Teodiceia e transforma-o no conceito de que o “bem natural é produzido pelo mal natural”, sendo que esse “bem natural” é a “morte dos conquistados e dos mais fracos” cientificamente justificada.

Corolário:

Para a esquerda em geral e para a direita darwinista, a santidade cristã da vida humana é revogada, o que conduz objectivamente a uma desvalorização da vida humana. A ética evolucionista conduz, sem sombra de dúvida, à eutanásia, ao infanticídio e ao eugenismo, e é essa mesma ética evolucionista que está na origem de mais de 260 milhões de pessoas assassinadas pelas ideologias políticas escoradas na ética evolucionista de Darwin, nomeadamente pelo comunismo e pelo nazismo no século XX.

4 comentários »

  1. …Zapatero, em extender aos macacos…

    Lapso de multilingue? “Extender” não é uma palavra portuguesa. Quereria, certamente, escrever: estender.

    Bom texto. Boa argumentação. Tem razão no essencial, mas algumas extrapolações parecem-me um pouco… lineares?

    A discussão sobre a ética parece-me verdadeiramente fundamental aos que pretendem “corrigir” e “limpar” o sistema.

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    Comentar por zedeportugal — Terça-feira, 10 Fevereiro 2009 @ 1:42 am | Responder

    • “Extender”: trata-se de um preciosismo. EXTENSÃO, e não ESTENSÃO.
      EXTENSÃO ====> EXTENDER. Quando se trata de um preciosismo, não podemos
      dizer que a morfologia está incorrecta. Alexandre Herculano não fez
      outra coisa.

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      Comentar por O. Braga — Terça-feira, 10 Fevereiro 2009 @ 1:38 pm | Responder

  2. É uma tarefa árdua esta de desmontar os clichés instalados. O Peter Singer, por exemplo, com as suas teorias sobre os direitos dos animais… quando me sentir melhor, ainda poderei explorar esse tema, ehehehe!

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    Comentar por Henrique — Terça-feira, 10 Fevereiro 2009 @ 9:21 pm | Responder

  3. Mas tirando os excessos direitistas, é um tema de debate muito promissor – dentro do campo social

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    Comentar por Cleriston França — Sábado, 12 Janeiro 2013 @ 8:25 pm | Responder


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