perspectivas

Sexta-feira, 30 Janeiro 2009

A fraude ideológica do existencialismo (ou “porque não gosto de Fado”)

Filed under: filosofia — O. Braga @ 9:30 am
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Platão defende a ideia de que o ser humano não pode ser avaliado em função de uma circunstância existencial ― como defenderam Ortega y Gasset e todos os existencialistas contemporâneos ―, mas é o ser humano que, independentemente das características do mundo que o rodeia, molda a sua forma de estar perante a circunstância.

Ortega Y Gasset disse: “Eu sou eu e a minha circunstância”. Platão, embora não o tenha dito, deduz-se da suas ideias que poderia ter dito: “Eu sou eu e a causa da minha circunstância”.

Para Gasset, a sua circunstância (o “mundo da vida”) era o objecto do seu sujeito, mas também era um efeito sem causa.

Para Platão, o objecto do seu sujeito era a causa que determinou a sua circunstância. A sua circunstância era apenas o efeito de uma causa.

O existencialista comporta-se como um determinado aluno a quem o professor de matemática coloca um problema algébrico para resolver. Perante o problema, o aluno pensa que aquele é o único problema que lhe poderia ter calhado, e que o professor não lhe poderia ter dado outro. Esse problema algébrico é aceite pelo aluno existencialista como uma facticidade, isto é, algo que é contingente e sem razão intrínseca nem justificação racional. Perante esta aceitação determinista e fatalista ― o fado ― em relação àquele (e só aquele) problema algébrico que lhe calhou, o aluno existencialista parte para a sua definição de responsabilidade e liberdade, isto é, o aluno parte de um princípio irracional para especular sobre a sua responsabilidade e liberdade. Obviamente que quando partimos de princípios irracionais para analisar o que quer que seja, as nossas conclusões não podem ser racionais.

O aluno platónico pensa de forma diferente. Perante o problema algébrico que o professor de matemática lhe deu para resolver, ele pensa que existe uma razão qualquer para que o professor lhe tenha dado aquele problema algébrico específico e não outro, embora ele não saiba exactamente qual é essa razão, porque só o professor a poderia explicar. E perante a possibilidade da existência de uma razão por parte do professor, o aluno platónico parte para a sua definição de responsabilidade e liberdade, isto é, a sua definição de responsabilidade e de liberdade parte do princípio de que terá que existir uma relação causal que racionalize essa definição.

A diferença entre os dois alunos está na racionalidade da avaliação da sua situação. O aluno existencialista aceita a facticidade, isto é, a irracionalidade primordial da sua situação (a “circunstância” de Ortega y Gasset), enquanto que o aluno platónico, embora não estando por dentro de toda a informação que o condiciona, parte do princípio de que essa informação (o Conhecimento) estará eventualmente disponível através de uma dialéctica de indagação subjectiva e objectiva.

Para Platão, o filósofo é aquele que ama o conhecimento na sua totalidade e não somente em alguma parte singular, e o conhecimento é “aquilo que absolutamente é, é absolutamente cognoscível, aquilo que de nenhum modo é, de nenhum modo é cognoscível”. Portanto, o conhecimento não é só aquilo que nos parece óbvio e transparente de acordo com as aparências, mas também aquilo que desconhecemos. Usando a metáfora dos alunos, podemos dizer que as razões do professor ao optar por um determinado teste de álgebra e não outro ― embora essas razões sejam desconhecidas pelos alunos ―, elas não deixam de fazer parte do conhecimento potencial (Razão) que circunscreve a realidade dos dois alunos.

Portanto, o existencialismo parte de um princípio irracional que é a facticidade, e por isso não pode fazer parte filosofia propriamente dita. Também não pode fazer parte da ciência, porque o princípio que norteia a ciência é ― ou deveria ser ― o mesmo princípio da filosofia segundo o qual o conhecimento é “aquilo que absolutamente é, é absolutamente cognoscível, aquilo que de nenhum modo é, de nenhum modo é cognoscível”. Quando o incognoscível (considerado “a priori” como sendo perene, mas que pode ser circunstancial) passa a ser o limite da Razão, passamos para o domínio da ideologia política, e é isso que o existencialismo é ― se não é uma ideologia política em si mesma, é concerteza um adereço ou instrumento de acção de uma ideologia política. Ora, a filosofia e a ciência não são ideologias políticas.

A “abertura ao mundo” defendida pelos existencialistas nada mais é do que uma tentativa de ocultação do “pecado original” existencialista que consiste em recusar a existência da razão como pressuposto e causa da existência, por mais que nós desconheçamos as características dessa razão.

Partindo de um pressuposto irracional, todo o desenvolvimento da teoria existencialista está, à partida, inquinado por esse pecado original. Mas o fenómeno da corrupção dos princípios básicos que sempre nortearam a filosofia passaram a corromper a ciência, através da dogmatização absolutista do empirismo que limita o progresso do conhecimento, e tudo isto em nome de um princípio totalitário que tem marcado o século vinte, protagonizado pela mente revolucionária.


Segundo o filósofo brasileiro Olavo de Carvalho, a mente revolucionária tem três características essenciais:

A inversão da percepção do tempo

As pessoas normais consideram que o passado é algo imutável e que o futuro é algo de contingente ― “o passado está enterrado e o futuro a Deus pertence”, diz o senso-comum.

A mente revolucionária não raciocina desta forma: para ela, o futuro utópico é um objectivo que será inexoravelmente atingido ― o futuro utópico é uma certeza; não pode ser mudado.
Por outro lado, a mente revolucionária considera que o passado pode ser mudado (e ferozmente denunciado!) através da reinterpretação da História por via do desconstrucionismo ideológico (Heidegger → Sartre → Foucault → Derrida → Habermas). Em suma: o futuro é uma certeza e o passado uma contingência.

A inversão da moral

Em função da crença num futuro utópico dado como certo e determinado, em direcção ao qual a sociedade caminha sem qualquer possibilidade de desvio, a mente revolucionária acredita que esse futuro utópico inexorável é isento de “mal” ― esse futuro será perfeito, isento de erros humanos. Por isso, em função desse futuro utópico certo e dado como adquirido, todos os meios utilizados para atingir a inexorabilidade desse futuro isento do “mal” estão, à partida, justificados. Trata-se de uma moral teleológica: os fins justificam todos os meios possíveis.

Inversão do sujeito – objecto

A culpa dos actos de horror causados pela mente revolucionária é sempre das vítimas, porque estas não compreenderam as noções revolucionárias que levariam ao inexorável futuro perfeito e destituído de qualquer “mal”. As vítimas da mente revolucionária não foram assassinadas: antes suicidaram-se, e a acção da mente revolucionária é a que obedece sem remissão a uma verdade dialéctica imbuída de uma certeza científica que clama pela necessidade desse futuro sem “mal” ― portanto, a acção da mente revolucionária é impessoal, isenta de culpa ou de quaisquer responsabilidades morais ou legais nos actos criminosos que comete.
Segundo a mente revolucionária, as pessoas assassinadas por Che Guevara ou por Hitler, foram elas próprias as culpadas da sua morte (suicidaram-se), por se terem recusado a compreender a inexorabilidade do futuro sem “mal” de que os revolucionários seriam simples executores providenciais.

6 comentários »

  1. “razão como pressuposto e causa da existência”. Não compreendo essa passagem… O que você quer dizer como a razão ser causa da existência?

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    Comentar por eduardo — Sexta-feira, 30 Janeiro 2009 @ 12:30 pm | Responder

    • Eduardo:

      “Tudo o que é racional, é real. Tudo o que é real, é racional”
      Hegel.

      A razão é a própria realidade. Platão defendeu o mesmo, embora sem a
      sofisticação de Hegel. Acontece que o “incognoscível” de Platão é o
      “infinito” de Hegel, e ambos pertencem à razão.

      Se a realidade é racional, a causa da realidade (existência) terá que
      ser também racional.

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      Comentar por O. Braga — Sábado, 31 Janeiro 2009 @ 10:06 am | Responder

  2. O autor desse texto não deixa claro em que momento a “facticidade” passa a ser um princípio irracional. A espontaneidade e a casualidade do universo não são apenas ideias nascidas dos trabalhos científicos, elas também resolvem os problemas ontológicos. Afinal, se houvesse alguma razão (no sentido teleológico) para o universo entraríamos em um argumento circular ou talvez até mesmo no ceticismo regressivo. O existencialista apenas diminui, em seu discurso, a importância de uma causa para o universo. Há uma razão, mas a sua natureza não é capaz de alterar a nossa condição enquanto animais, não é capaz de solucionar o problema de nossa finitude, logo, da ausência de sentido.

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    Comentar por Gregory House (@Houseracional) — Domingo, 22 Setembro 2013 @ 10:33 pm | Responder

    • Eu prefiro uma teoria deficiente, a nenhuma teoria. Mesmo que uma teoria tenha falhas, é preferível tê-la assim mesmo, do que negar qualquer teoria alegando as falhas que ela possa ter. É preferível uma teoria que se baseie em uma Causa do universo, do que recusar qualquer teoria sobre a origem do universo.

      O cepticismo é a recusa e a negação de qualquer teoria que não se possa medir, esquecendo que a própria medição é uma teoria.

      O procedimento científico está sempre imbuído de considerações teóricas, e não há factos irredutíveis isentos de qualquer teoria. O cientista interpreta as descobertas científicas sempre com o auxilio de alguma teoria. O que interessa ao cientista não é apenas o ponteiro do instrumento de medição, mas antes, a medição só tem valor se estiver em conjugação com uma interpretação do seu significado — para além do facto de o instrumento ter um erro finito experimental (que pode ser infinito, do ponto de vista da física quântica).

      Não há nenhuma lei experimental exacta. Só as há aproximadas, e estão sujeitas a a uma infinidade de traduções simbólicas e, entre estas traduções, o cientista tem que escolher uma delas, que lhe dê uma hipótese conveniente, e sem que a sua escolha tenha sido guiada de algum modo pela experiência.

      O problema surge aqui quando a ciência recusa uma nova teoria que explica melhor uma determinada fracção da realidade, e fá-lo por motivos políticos e ideológicos; ou seja, a ciência agarra-se a um paradigma porque este serve uma determinada mundividência que está de acordo com uma determinada ideologia política.

      Defender a casualidade do universo, do ponto de vista da ciência, é contraditório, porque a ciência baseia-se no princípio da causalidade (causa / efeito). Dizer que “o universo surgiu por acaso” não é compatível com o princípio científico segundo o qual todos os efeitos têm uma causa.

      Fazer desaparecer um problema não resolve esse problema. Ignorar a Causa não resolve o problema da Causa. Reduzir a análise da realidade a uma fracção da realidade pode próprio da ciências especializadas em uma determinada área, mas não é próprio da filosofia.

      Neste sentido, o existencialismo é anti-científico na medida em que coloca em causa o princípio da causalidade que orienta a ciência.

      Portanto, todo o seu raciocínio peca por contradição, ao defender a casualidade da origem do universo, por um lado, e por outro lado e simultaneamente, por defender o princípio da ciência que é, ele próprio, a negação da casualidade — “Deus não joga aos dados”, dizia Einstein.

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      Comentar por O. Braga — Segunda-feira, 23 Setembro 2013 @ 12:00 pm | Responder

    • A espontaneidade e a casualidade do universo são falsas.. simples assim.
      É impossível se pensar num universo ao acaso cientificamente. Nada não consegue produzir alguma coisa. Se o universo não tem uma causa / agente causador o mesmo universo não existe. Então nós tampouco existimos. Posso portanto afirmar que desconheça as causas ou agentes causadores do universo – mas jamais afirmar que ele não os tenha.
      Toda a argumentação fundamental existencialista é falaciosa.

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      Comentar por Herbert Lopes — Terça-feira, 24 Janeiro 2017 @ 5:05 pm | Responder

  3. […] Este verbete é uma resposta a este comentário. […]

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    Pingback por A recusa da Teoria é uma sempre uma forma de teoria | perspectivas — Segunda-feira, 23 Setembro 2013 @ 12:12 pm | Responder


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