perspectivas

Sexta-feira, 30 Janeiro 2009

A “moda” como entropia económica

Filed under: economia — O. Braga @ 9:28 am
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Os países que mais rapidamente se desliguem das modas que causaram a presente crise, serão os países que mais rapidamente sairão dela.

No seu livro “A Crise do Capitalismo Global”, George Soros reconhece que duas das causas das crises sistémicas do capitalismo são, por um lado, a falta de ética dos agentes económicos, e por outro lado e principalmente, aquilo a que George Soros chama de “modas”, que consistem em comportamentos seguidistas por parte dos agentes económicos e que constituem uma ameaça tão grande para a estabilidade da sociedade como para a dos mercados financeiros.

Os movimentos de capitais têm tendência para passarem das marcas devido à especulação originada pelos “seguidores das modas”, e o mesmo acontece nos mercados de acções, de mercadorias e imobiliário.

As “modas” não acontecem só nas Bolsas de Valores; os agentes económicos extendem-nas a toda a sociedade, e o problema maior é que quando a crise económica chega ― exactamente devido à falta de ética e às “modas” ―, a sociedade em geral e os agentes económicos em particular e por uma questão de inércia cultural, têm imensa dificuldade em deixar de seguir essas modas que estiveram na origem da própria crise.

As “modas” são preconceitos negativos, isto é, preconceitos que não se discutem, dogmas que são aceites como tal pelos agentes económicos. Dou um exemplo.

Vinha hoje no carro a ouvir a TSF, e logo a seguir ao “teor Fernando Alves” (no DN, temos o “teor Câncio”), passou uma declaração de um cidadão com 44 anos que ficou desempregado, e que tentando arranjar trabalho em Portugal, os patrões lhe diziam sistematicamente que ele já era “velho”. Em resultado disso, esse cidadão emigrou para um país do norte da Europa, onde arranjou imediatamente trabalho, e um dos argumentos do patrão estrangeiro foi de que ele não era “velho”, mas “experiente”. Para o patrão português, o trabalhador de 44 anos era velho; para o patrão alemão, o trabalhador de 44 anos era experiente.

A atitude do patrão português é uma moda porque não tem uma base racional de sustentação, é um preconceito negativo porque quem o defende não se dispõe sequer a discuti-lo. Trata-se de um seguidismo em relação à moda que constituiu a ideia do sucesso dos jovens yuppies de Wall Street que marcaram os anos 90, e que ficou indelevelmente marcada na cultura do empresário português, não obstante se ter provado que o “sucesso yuppie” levou ao crash da Bolsa de NY em finais da década passada.

Um homem de 44 anos que se encontre desempregado, não vai ganhar mais dinheiro do que um homem de 25 anos de idade ― pelo contrário, muitas vezes o homem de 44 anos já tem a sua vida organizada em termos de casa comprada há anos, já tem um bom carro pago, filhos crescidos, etc., e portanto, até se sujeita a um ordenado inferior ao do homem de 25 anos. Acresce ao homem de 44 anos a experiência que o outro necessariamente não tem.

O argumento tradicional do patrão português da “necessidade de meter um jovem para fazer carreira na empresa” é um outro argumento irracional, porque “o trabalho para toda a vida” já não existe.

A montante da economia e da política, está a Cultura. É a Cultura que comanda uma sociedade, e tudo o resto vem por arrasto.

A Cultura não é só a cultura literária e académica ― que são necessárias, também. A Cultura é o resultado do exercício da razão entendido de uma forma holística, isto é, não só de uma forma teórica (literária, estética e académica) mas também empírica e pragmática.

Acontece que as modas vão contra a necessidade do pragmatismo que deve estar sempre presente na gestão de qualquer negócio. Qualquer bom gestor quer ter os melhores empregados ao mais baixo custo possível, e tudo o que contrarie esta lógica faz parte da irracionalidade genérica das modas que são causa de entropias na gestão das empresas.

Os países que mais rapidamente se desliguem das diversas modas que causaram a presente crise, serão os países que mais rapidamente sairão dela. E para isso, precisamos de gestores competentes e pragmáticos, e não de gestores “seguidores de modas” que fazem parte do problema e não da solução.

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