perspectivas

Terça-feira, 13 Janeiro 2009

Ainda sobre Mário Soares e a Turquia

Filed under: Europa — O. Braga @ 2:45 pm
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Ainda a propósito deste postal sobre Mário Soares, existe a ideia de que a Turquia tem um Estado laico, e que a adesão da Turquia islâmica à União Europeia será um exemplo para os outros países da região ― uma espécie de cenoura que se dá aos burros para eles se mexerem. Esta é a ideia da esquerda maçónica em relação à adesão da Turquia à UE.

Contudo, o esquerdalho maçónico comete um grave erro de análise, quando pretende comparar o catolicismo medieval, que controlava mais ou menos os Estados da Europa, com o Islamismo.

O Direito Canónico da Igreja Católica sempre existiu em paralelo com o Direito Positivo ― herdado do Direito Romano ― de cada Estado europeu. Em nenhum momento histórico algum Estado europeu adoptou o Direito Canónico católico em detrimento do seu próprio Direito Positivo, isto é, não existiram teocracias na Europa. O feudalismo europeu ― tal como o feudalismo chinês ― constituiu-se como a negação da teocracia, embora o sistema feudal utilizasse a religião cristã ― na China, o Confucionismo ― para que o regime político feudal se alicerçasse profundamente. Porquê? Porque a natureza do Catolicismo (e do Cristianismo em geral) é muito diferente da natureza do Islamismo. Nunca existiu um feudalismo no mundo islâmico: no Islão, os dirigentes políticos eram também os lideres religiosos, enquanto que na Europa sempre coexistiram o clero cristão e a nobreza feudal que controlava a política.

O caso do laicismo turco é contra-natura, vai contra a essência do Islamismo, é assente num baralho de cartas em equilíbrio precário, e não é o facto de a Turquia aderir à União Europeia que vai alterar esse equilíbrio precário entre a essência do Direito Islâmico (Sharia) e o laicismo. A adesão da Turquia à UE, o que poderá fazer, é postergar por algum tempo a possibilidade de uma convulsão interna. A alternativa a isto será proibir a prática da religião islâmica e perseguir politicamente o proselitismo islâmico.

O laicismo turco só subsiste enquanto existir a ameaça garantista dos militares turcos, o que, convenhamos, é muito pouco para que um Estado laico possa existir de forma consistente. Na Turquia, existe desde o consulado de Ataturk, uma espécie de MFA (Movimento das Forças Armadas) em alerta permanente para garantir o laicismo e a democracia representativa.

O mundo islâmico é um mundo à parte com características específicas. Lidar com o mundo islâmico pressupõe o respeito pela sua especificidade como cultura, a não ser que exista uma grande reforma da própria religião, mas isso terá que partir do interior do Islão e não por imposição externa. Mário Soares (e a Esquerda) está errado.

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