perspectivas

Quarta-feira, 17 Dezembro 2008

O aborto livre e o Transumanismo

O "Homem-Deus"
“O Homem-Deus”

O Transumanismo é uma teoria contemporânea que, entre outros aspectos ligados à Ciência e à Técnica, coloca o corpo do ser humano em termos de “propriedade”, não só de cada ser humano mas também como uma “propriedade” (um “activo”) que está à disposição da Técnica e da Ciência. O ser humano fica, assim, reduzido a um “activo” (um asset, em linguagem financeira) e a um commodity próprio da sociedade de consumo. Portanto, se o Pós-modernismo se iniciou com a sociedade de consumo e com a interpretação subjectiva da História (relativismo) dos anos sessenta do século passado, o Transumanismo actual consagra e celebra esse tipo de sociedade de consumo transformando ― em estádio de evolução consequente ― o próprio ser humano num utensílio de consumo, num objecto descartável.

A diferença entre o Transumanismo, por um lado, e o Nazismo e o Comunismo, por outro, prendem-se a detalhes históricos e culturais que marcam sempre as épocas de forma diferenciada. Assim como um ser humano na Alemanha nazi era um asset à disposição de interesses considerados como sendo “superiores” por parte de uma elite, o ser humano na era do Transumanismo é uma “propriedade” manipulável por interesses estranhos a si próprio. Nas suas divagações blogosféricas, H. Sousa escreveu algo correlativo que publicou num opúsculo a que deu o título genérico de “Robotismo”. O Robotismo é uma visão caricatural e irónica do Transumanismo.

Naturalmente que as pessoas que defendem a ideia de que “o corpo é meu”, e que baseando-se neste conceito de “propriedade” do corpo advogam a liberdade de abortar, fazem-no ou por pura ignorância ou por assumido e claro compromisso com uma visão transumanista do ser humano. É preciso ser claro e dizer que o Transumanismo é uma forma de totalitarismo ― é um novo nazismo a que se adicionaram os ingredientes da novidade dos avanços da ciência e da técnica, entretanto verificados. O Transumanismo é um nazismo mais do tipo “Joseph Mengele” do que do tipo “Hitler”, em que a “ciência da política” passa a ser a “política da ciência”.

O Transumanismo é uma espécie de uma Alta Idade Média contemporânea imposta pelo cientificismo; o político desaparece e com ele desaparece também a dialéctica aristotélica, e a justiça e a política passam a existir em função de um Imperialismo da Ciência que monopoliza a ética, sendo que a ética transumanista passa a ser ditada pelo escrutínio compulsivo e obrigatório (e portanto, totalitário) da ciência: o Transumanismo assume que a visão científica acerca do ser humano é, em si mesma, absolutamente positiva e nunca passível de contestação.

O Transumanismo é o que liga a judaico-maçonaria, da Nova Ordem Mundial, à Esquerda europeia neomarxista ― é um ponto de referência ideológico que os aproxima, embora por razões intrínsecas diferentes.

Com a mestria habitual, Olavo de Carvalho escreve aqui:

O apego cognitivo ao corpo, que as velhas doutrinas hindus já ensinavam ser a base de toda ilusão e de todo erro, tornou-se obrigatório ao ponto de que as pessoas consideram seus corpos sua “propriedade”, sobre a qual têm todos os direitos. Em vão lhes mostramos que a propriedade material tem como pressuposto a existência física do proprietário; que o corpo, portanto, não pode ser uma propriedade porque é a condição prévia para a existência de propriedade. Mais ainda, o corpo só poderia ser entendido como propriedade caso se admitisse a existência do proprietário para além e para fora dele. Chamar o corpo de “propriedade” (e mesmo assim não jurídica, mas apenas lógica) faz sentido na perspectiva hindu ou cristã, para as quais a existência da individualidade transcende a do corpo – mas não faz sentido nenhum para a própria perspectiva materialista que, paradoxalmente, a toma como dogma inabalável.

Se você acredita que o corpo é tudo, ele não pode ser sua propriedade: ele é a sua substância, ele é você mesmo. A loucura aí é levada ao extremo no caso das abortistas, que acreditam que tudo o que está dentro do corpo delas lhes pertence, como se o feto, por sua vez, nada tivesse dentro do seu próprio corpo e não fosse por sua vez, nessa lógica, proprietário de si mesmo.

Segundo uma visão materialista acerca do Homem, o corpo humano nunca pode ser uma “propriedade” porque ele é, em si mesmo, a condição prévia para que a propriedade exterior ao ser humano possa existir, isto é, “o proprietário” não pode ser na mesma circunstância e simultaneamente, “a propriedade”.

O tremendo potencial de acção desencadeado pelo advento da tecnologia e da ciência natural modernas no campo da corporalidade legitimou a tal ponto a ilusão do corpo como centro e limite último da individualidade, que a noção mesma de continuidade biográfica dos indivíduos acaba por se tornar dificilmente concebível excepto como “estrutura narrativa” totalmente artificial e sem conexão com a realidade. Giordano Bruno já previa isso: neguem a dimensão espiritual, dizia ele, e acabarão se negando a si mesmos.

O Transumanismo é isso mesmo: a negação da continuidade biográfica do ser humano excluída do contexto e do controlo totalitário da ciência; a biografia humana passa a ser digitalizada num CD e aí fica circunscrita, longe da realidade humana ― a biografia deixa de pertencer ao ser humano porque ele próprio passa ser uma “propriedade”, um “asset” ou activo económico e político ao serviço do novo dogma científico. Esta é uma visão de Esquerda, assim como foram de Esquerda o Nazismo e o Comunismo marxista.

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2 comentários »

  1. Parece que o futuro nao promete…sõ nos resta aproveitar hoje. Espero que muitos escutem a sua voz e a propaguem. Eu entendo o hoje como prioridade tentando que o pretenso e desiliso futuro fique cada dia mais longe.

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    Comentar por delfinaguimaraes — Quinta-feira, 18 Dezembro 2008 @ 12:59 am | Responder

  2. «O Robotismo é uma visão caricatural e irónica do Transumanismo.» Por acaso não sabia… Obrigado pela referência.

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    Comentar por Henrique — Quinta-feira, 18 Dezembro 2008 @ 7:42 pm | Responder


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