perspectivas

Terça-feira, 2 Dezembro 2008

Um exemplo por que não concordo com o Acordo Ortográfico

Filed under: acordo ortográfico — O. Braga @ 3:23 pm
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Na sequência do postal anterior, ressalto a diferença entre “filhos-de-puta” e “filhos de puta”. O Acordo Ortográfico, ao querer impôr a supressão do hífen na construção das nossas palavras, retira a força e a lógica à nossa língua.

“Filho-de-puta” é exclusivamente um sujeito substantivo ― como “João” é sujeito. “Filho de puta” (sem hífen) é, essencialmente, adjectivo. O primeiro é essência pura ― a “filha-da-putice” é inata e natural ― e o segundo é um atributo que pode ser esporádico e passageiro. Quando dizemos que alguém é um “filho de puta” ao proceder de determinada maneira, queremos dizer que essa é uma qualidade do indivíduo que é transitória e remissível, enquanto que um “filho-de-puta” só se modifica por fenómeno que desafie as leis da natureza.

Um “filho-de-puta” é aquele que é “filho de puta” todos os dias ― não é só uma característica de um acto isolado do sujeito em causa.
Existe a mesma diferença quando dizemos que “Fulano é otário” (otário = adjectivo), ou quando dizemos que “Fulano Otário” (Otário = sujeito) é mesmo o nome predicativo do sujeito. “Filho-de-puta” não é só um adjectivo atribuído: é mesmo um segundo nome ou pseudónimo do energúmeno, faz parte intrínseca da besta.

É esta qualidade substantiva da língua portuguesa, que sempre existiu na qualificação dos filhos-de-puta que pululam nas nossas elites, é essa substância que nos querem agora retirar com a limitação da categorização à adjectivação, fazendo com que a força da essência substantiva desapareça da nossa língua ― e que é uma “filha-da-putice” que fazem ao povo e à cultura portuguesas.

Adenda:

Existe um diferendo político-anedótico sobre o “porque” português e o “por que” brasileiro.
Vejam o título deste postal: “Um exemplo por que não concordo com o Acordo Ortográfico”. Eu poderia ter escrito: “Um exemplo segundo o qual (ou pelo qual) não concordo com o Acordo Ortográfico”, que dava no mesmo.

Neste caso, substituir “pelo qual” por “por que” é perfeitamente admissível e correcto, porque se refere ao dativo (o “exemplo” através do qual “eu não concordo com o Aborto Ortogáfico”).
O que os brasileiros comuns fazem é generalizar o “por que” em vício de uso (sem hífen = adjectivo qualificativo) ― como acontece noutros casos de vício-de-uso (com hífen = substantivo) no português europeu ―, porque não é sempre incorrecto, em bom português, usar o “por que” em vez de “porque”. (ver no francês a diferença entre «parce que» e «par ce que»).
Ademais, os eruditos brasileiros que compreendem e dominam perfeitamente a escrita da língua portuguesa (embora com aquelas pequenas e insignificantes alterações na grafia brasileira que já conhecemos) permanecem num silêncio ensurdecedor acerca da polémica que caracteriza algumas das alterações introduzidas por este Acordo Ortográfico, hesitando assim entre a política correcta e a razão etimológica.

2 comentários »

  1. Reparem no seguinte comentário que extraí de um blogue brasileiro acerca do aborto ortográfico:

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    Eu vou contar um segredo para vocês, o sonho da Academia Brasileira de Letras sempre foi salvar o mundo. Eles tem esses complexos, sabem, eles acham que com essas mudanças vão mudar o mundo. Coisa de português.
    Se nós compramos a língua, pagamos caro por isso, muitas toneladas de ouro, porque é que ainda não somos donos do português?

    Sábado, 22 de novembro de 2008 às 04:30

    Ainda querem dar crédito a esta matéria que. de útil, parece nada ter, a não ser arranjar “tricas” entre dois povos que até se dão bem, mas que em questões da Língua, um dos lados não se convnceu que não manda absolutamente nada!
    Começo a pensar que será imperativo alguém mandar dois berros e um murro na mesa e colocar um ponto final nisto, porque já cheira mal o que vem do lado de lá do Oceano Atlântico. Já corri blogues atrás de blogues e até de brasileiros já li que Portugal devia desaparecer do mapa porque é demasiado pequeno para ainda existir! Mas o que é isto? Quem são os brasileiros? Os Portugueses é que são xenófobos? Com arrotos destes dá para ver quem é que precisa de ser ensinado…
    Mas também tive o prazer de ler comentários brasileiros contra o aborto ortográfico, como o seguinte, que resume e bem o que se sente na generalidade:

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    quem teve a ideia deste novo acordo???
    parece-me ridícula esta alteração forçada por leis, a língua é algo vivo que deve ser moldada pelo povo.

    Está tudo dito, ou quase!
    Aqui reside toda a lógica de um processo que não pode ser feito em cima do joelho, nem decidido pela política, muito menos por incompetentes, porque o Estado não é o governo, somos nós, o povo, que desconta e paga os seus impostos, o motor do país, mas infelizmente não muito da economia…
    O povo é que é dono da língua, a este é que cabe a missão de mudar o que melhor lhe convier, e se pensarmos bem, da sã convivência entre todos, Portugueses, Brasileiros e Africanos, talvez não houvesse estúpidos acordos ortográficos, como acontece no Inglês, com tantas variantes no planeta, mas sempre igual na sua essência, entendido por todos os povos! Se queremos uma língua forte devemos esquecer este horrível e anormal aborto ortográfico, que só veio criar atritos e dividir as pessoas, no mau sentido. Em vez de querer acentuar as diferenças que sempre existirão, dever-se-á reforçar e retocar as semelhanças, que devem constituir bem mais de 90% do comum entre o que se diz e o que se escreve dum e doutro lado deste Oceano Atlântico! As discrepâncias que existem desapareceriam com o tempo, normalmente, tudo decorrente da já referida sã convivência entre os respectivos povos falantes da mesma língua… A haver cedências neste campo, e continuarei a defender que quem tem de mandar na Língua é Portugal, terão de acontecer em igual percentagem, e não uns mais que outros. Mas enquanto uns continuarem com a conversa anedótica dos 180 milhões e do G8, não dá para outros conseguirem entender o porquê de se mexer só para estragar… num dos lados.

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    Comentar por Mário Franco — Segunda-feira, 29 Dezembro 2008 @ 6:06 pm | Responder

    • @Mário Franco:

      Os endereços dos links não aparecem no seu comentário.

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      Comentar por O. Braga — Terça-feira, 30 Dezembro 2008 @ 4:32 pm | Responder


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