perspectivas

Quarta-feira, 12 Novembro 2008

Ser jornalista, hoje, é pertencer ao crime organizado

A luta dos professores é o exemplo de como o senso-comum e a racionalidade ainda não se perderam na nossa sociedade. Essencialmente por isso, estou ao lado dos professores.

É-me difícil escrever sobre a realidade portuguesa porque já não sei por que ponta lhe hei-de pegar. Contudo, os me®dia são sempre um bom ponto de partida para uma qualquer análise.
Hoje de manhã, todas as rádios concentravam as suas atenções em três assuntos: o “assalto” de alguns alunos de uma escola de Fafe à ministra da educação (criticando), a anunciada greve dos professores marcada para 19 de Janeiro de 2009 (criticando), e a não-demissão de Vítor Constâncio do Banco de Portugal (“uma no cravo, outra na ferradura”, “sol na eira e chuva no nabal”).

Todas as rádios e respectivos comentadores estão de acordo: “os professores não querem ser avaliados”. A única voz dissonante que ouvi hoje na Antena 1 da RDP, foi a de Bagão Félix . Ora o povo sabe perfeitamente que não é exactamente isso que se passa, isto é, os professores estão apenas contra a filosofia que inspira este modelo de avaliação.

Podemos então inferir que os me®dia tentam enganar o povo. E porquê? Porque ser jornalista, hoje, é ― literalmente ― pertencer ao crime organizado.


Pinto Balsemão (o patrão dos me®dia) veio ontem criticar a ERC (entidade reguladora dos me®dia). Trata-se de uma luta pelo Poder dentro da “máfia”; existe um poder instalado controlado por uma determinada facção política que define a orientação dos me®dia. A crítica de Balsemão não é uma tentativa de diversificar a opinião nos me®dia; trata-se de uma tentativa de mudar o pólo de poder, sem nenhuma garantia prévia de pluralismo e de liberdade de opinião. A crítica de Balsemão insere-se numa dinâmica de luta interna dentro do crime organizado, tal como a liberalização do mercado dos combustíveis não trouxe a livre concorrência mas antes um monopólio privado que impõe os preços dos combustíveis.
A grande concentração de meios em poder ou controlo de poucas pessoas (ou entidades) leva inexoravelmente a um totalitarismo, mais ou menos mitigado.


A ideia de que é possível avaliar o trabalho intelectual utilizando os mesmos métodos e critérios de quem avalia o trabalho físico e mecânico de um operário numa linha de produção, é absolutamente estúpida e só pode vir de uma mente esclerosada como a da ministra da educação e dos seus mentores políticos.

Naturalmente que o absurdo é vermos a Esquerda totalitária ao lado dos professores, quando as reivindicações dos professores não são de Esquerda.

  • Lutar contra a burocracia (em geral) não é, nem nunca foi, uma luta da Esquerda totalitária; todo o totalitarismo necessita desesperadamente de uma burocracia servil;
  • Lutar a favor de uma avaliação independente não é uma luta de uma Esquerda que sempre privilegiou a avaliação política “inter pares”, em detrimento da avaliação técnica externa e independente.

Naturalmente que a Esquerda totalitária “cola-se” à luta dos professores, mas isso é pura coincidência e oportunismo político.

De igual modo, quando os professores denunciam o sistema de “quotas” para progressão na carreira, demarcam-se de uma ideia tecnocrata e neoliberal aplicada ao trabalho intelectual. A luta contra as “quotas” insere-se na ideia de que é insano avaliar o trabalho intelectual da mesma forma que avaliamos o trabalho em série numa linha de produção de T-shirts (ou coisa que o valha). Uma criança não é um mero “commodity”; é um ser humano que não necessita só de ensino, mas também necessita de educação.

Por isso, a luta contra as “quotas” também não é uma luta da Esquerda ou da “direita neoliberal”, porque os professores consideram que os critérios de ascensão na carreira não podem ser regidos por uma ideia de competição utilitarista. Um bom professor não é necessariamente aquela pessoa sem escrúpulos que não olha a meios para atingir os seus fins, que pisa tudo e todos para poder conseguir a sua inclusão dentro das “quotas” estabelecidas para a progressão na carreira. A luta dos professores contra as “quotas” ganha assim uma dimensão ética e moral de grande relevo. Há que encontrar um critério gradativo e ponderado, menos radical e neoliberal, e não atido somente a critérios economicistas, no que diz respeito à limitação dos professores na progressão na carreira profissional.

Não faz sentido que o “Bom” seja inimigo do “Óptimo” senão numa lógica de gestão de uma empresa privada que negocia com “commodities”. Ora, os seres humanos (as crianças) não são “coisas”.

A luta dos professores é um exemplo de como um movimento da sociedade civil pode agir de forma independente e independentemente da colagem oportunista das facções políticas mais ou menos radicais, e de como é insensível à acção do crime organizado que constitui os me®dia. É o exemplo de como o senso-comum e a racionalidade ainda não se perderam na nossa sociedade. Essencialmente por isso, estou ao lado dos professores.

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