perspectivas

Terça-feira, 30 Setembro 2008

“L’air du temps”

“L’air du temps” ou a mentalidade de merda

A visão das nossas elites culturais é uma visão sem perspectiva que não distingue o passado do presente, e o presente do futuro ― isto é, uma visão intemporal neo-medieval a precisar urgentemente de uma Renascença.

Depois de ver o programa de ontem da Fátima Campos Ferreira, ficou muito claro para mim que os partidos políticos da “não-esquerda” ― isto para não chamar ao PSD de “centro-direita”, para não ofender o JPP ― devem comprometer-se com o eleitorado a alterar a lei do divórcio que a esquerda radicalizada se prepara para aprovar na Assembleia da República, caso essa “não-esquerda” venha a ter uma maioria no parlamento em 2009. Isto significa que a “não-esquerda” não deverá seguir o exemplo desta esquerda que extrapolou o mandato que recebeu do povo ― quando este votou no partido socialista de José Sócrates não foi concerteza para que o PS seguisse uma política radical de desvalorização da instituição do casamento em nome de uma agenda política específica e de uma estratégia de engenharia social contra-natura.


Para disfarçar um sinistro odor nauseabundo

È preciso que o PSD (e o CDS também) entenda, de uma vez por todas, que qualquer compromisso com a esquerda radical em sede de cultura não serve os seus interesses. O PSD ― e a “não-esquerda” em geral ― tem que perceber que, em qualquer sociedade, a montante da economia está a cultura, e que é a cultura que condiciona os valores segundo os quais assenta toda a actividade e dinâmica sociais, incluindo a economia.

A “não-esquerda” não pode ter medo de assumir uma ruptura com os valores culturais da esquerda radical (na concepção do divórcio, como em outras matérias), esquerda radical cultural essa que já inclui o partido socialista de José Sócrates. Um PSD de “meias-tintas” e de “Maria-vai-com-as-outras” levará inexoravelmente à sua extinção como partido político de alternância no Poder ― eu não tenho dúvida nenhuma sobre isto. A ânsia do actual PSD de procurar a alternância do Poder a qualquer preço, assimilando valores culturais da esquerda radical, é um suicídio político. O PPD/PSD e o CDS/PP não podem deixar que outras forças políticas, incipientes até agora, assumam inexoravelmente um protagonismo social, no futuro próximo, devido à ausência de valores culturais de demarcação em relação à agenda radical cultural de esquerda, que pretende, no caso vertente, claramente a progressiva nacionalização da instituição familiar e das crianças em particular, com fins políticos e económicos claríssimos que constam dos manuais de diversos ideólogos da esquerda totalitária moderna.


Determinada senhora de esquerda presente no programa de TV supracitado falou em percepção do “air du temps”. Eu penso que o nosso “air du temps” é o de uma Escolástica medieval invertida ― vivemos numa Nova Alta Idade Média.

Duas das características marcantes do Zeitgeist da Alta Idade Média foram a não-percepção da passagem do tempo e a assimilação das teorias clássicas greco-romanas como não estando distanciadas do tempo em que ocorreram (presentismo). A Escolástica medieval pegou nos clássicos ― Platão, Aristóteles, etc. ―, moldou-os, adulterou-os e adaptou-os a uma realidade que se pretendia que fosse intemporal, e Platão, que tinha vivido1500 anos antes, passou a fazer parte da cultura coeva como se ainda estivesse vivo.
O Renascimento veio exactamente colocar as teorias clássicas no seu próprio tempo, fazendo com que Platão e Aristóteles fossem entendidos em função do tempo em que ambos viveram. Até na pintura, esta noção de distanciamento espaço-temporal se notou: antes do Renascimento, a pintura europeia não tinha uma perspectiva espacial, e com o Renascimento surgiu a noção de perspectiva na pintura (pintura com diversos planos de perspectiva).

De forma semelhante, o Zeitgeist contemporâneo caracteriza-se por uma falta de distanciamento espaço-temporal em relação aos teóricos modernos ― de Marx a Heidegger. A elite intelectual contemporânea moldou-os, adulterou-os e adaptou-os a uma realidade que se pretende que seja a certeza de um futuro que se confunde integralmente com o presente ― e que constitui a intemporalidade do Zeitgeist presentista. Neste momento, a visão das elites culturais é uma visão sem perspectiva que não distingue o passado do presente, e o presente do futuro ― isto é uma visão intemporal neo-medieval a precisar de uma Renascença (ver “A mente revolucionária“). Irá naturalmente chegar brevemente o momento da ruptura, um momento em que um novo humanismo irá colocar em causa a Escolástica neo-marxista.


É claro que esta lei do divórcio tem como objectivo desvalorizar a instituição do casamento, por motivos claramente políticos. A desvalorização social do casamento tem vários patamares: 1) a criação de uma lei de união-de-facto que em quase nada se distingue do casamento; 2) a criação do divórcio unilateral e sem responsabilidades, que é basicamente do que se trata com esta lei do partido socialista, secundarizado pelo Bloco de Esquerda; 3) a legalização do “casamento” gay, que assim completa um processo que levará, depois, à legalização da poliamoria e das relações múltiplas, rumo ao conceito de “perversidade polimórfica” de Herbert Marcuse que inclui a “tolerância” em relação à pederastia e mesmo em relação à pedofilia. Com estes três passos, o casamento fica desvalorizado socialmente, a desresponsabilização parental é garantida, e o controlo do Estado sobre a instituição familiar fica assegurada, rumo a um doce totalitarismo.

Contudo, as elites político-culturais esqueceram-se de um pormenor importante: “as coisas valem aquilo que dão por elas”, diz o povo.
Se a política de Estado é o da desvalorização do casamento para poder assumir uma postura semi-totalitária em relação à sociedade em geral e às famílias em particular, a sociedade civil pode valorizar o casamento de uma forma independente do Estado.

Dado que a lei de União-de-facto praticamente não distingue esta do casamento, é possível que algumas religiões presentes em Portugal se juntem de forma a criarem o “casamento religioso universal” independente do Estado e prescindindo da anotação em conservatória notarial estatal, criando-se uma instituição de anotação matrimonial privada e paralela à do Estado e de gestão comum a essas religiões. Passará a existir um “certificado de casamento religioso” que poderá complementar os curricula dos cidadãos ― com todas as consequências sociais que podemos imaginar e que eu não vou dizer aqui. Deste modo, passará a existir uma valorização social da instituição do casamento independentemente do Estado a pretender desvalorizar ― é tudo uma questão das religiões presentes em Portugal se colocarem de acordo nesta matéria e criarem um organismo autónomo e comum de gestão do registo do casamento religioso, independentemente da religião ser A, B ou C.

Se o Estado segue uma orientação política tendencialmente totalitária e anti-religiosa, a sociedade não é obrigada a seguir-lhe os passos. Bardamerda para o Estado.

1 Comentário »

  1. […] Por aqui não há “tenure” e rendilhados próprios das “elites” abastardadas; se for preciso mandar para a puta-que-pariu a “elite” lisboeta do “tenure”, e do Terreiro-do-Paço que impõe leis ao povo sem um mandato expresso para o fazer, a gente manda mesmo! E quanto ao debate de ontem, aqui está a minha opinião. […]

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    Pingback por Linguajar com “tenure” « perspectivas — Terça-feira, 30 Setembro 2008 @ 4:19 pm | Responder


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