perspectivas

Sábado, 27 Setembro 2008

Bonhoeffer e a Nova Teologia

Bonhöffer

Bonhöffer

Ontem (26/9) estive a ver um programa na RTP2 sobre a vida de Dietrich Bonhoeffer, e dei comigo a pensar que sendo Bonhoeffer contemporâneo de Maximiliano Kolbe, nunca se deu a este último a importância nos me®dia que se dá àquele. Uma das razões é, certamente, a de que Kolbe foi católico e Bonhoeffer era luterano. A cultura anglo-saxónica não se perdoa a si mesma pelo seu falhanço teológico, e por isso continua sistematicamente a secundarizar a importância da ICAR na História do Cristianismo.


A Reforma de Lutero foi um fenómeno que anunciava muita coisa de positivo e depois resultou exactamente no contrário das suas intenções de princípio, porque a Reforma luterana trazia já em si os germes da sua contradição.

A Reforma teve duas consequências historicamente marcantes e negativas:

A primeira, foi a de reconhecer o princípio inabalável do Estado absolutista e o princípio da inexistência de liberdade humana na sua própria teologia (que consequentemente acabou por defender a limitação dos direitos dos cidadãos em relação ao Estado, em consequência de uma visão determinista do mundo), e o princípio da total submissão da igreja luterana ao absolutismo de Estado. Não sei como Bonhoeffer, como luterano, se pôde revoltar contra Hitler se o próprio Lutero já tinha legitimado todos os ditadores “ad Aeternum”.
Ademais, não podemos esquecer que o próprio Lutero defendeu por escrito a perseguição aos judeus, tal como a Igreja Católica o fez; não sei com que argumentos os luteranos podem denunciar ou criticar a Inquisição católica.

Em segundo lugar, a Reforma provocou outra tragédia: a Contra-Reforma católica que se iniciou a partir do concílio de Trento (1545), que fez com que a ICAR passasse a defender exactamente o oposto de Lutero ― para se “desmarcar da concorrência”, como princípio nuclear do Marketing ― isto é, o princípio de não reconhecimento incondicional e “a priori” do Estado absolutista e o princípio de que a Igreja Católica estava acima dos Estados. Com a Reforma, muita da evolução teológica que aconteceu com o Renascimento foi anulada, e até mesmo São Tomás de Aquino foi parcialmente colocado em causa com um retorno às origens, que não foi um retorno aos Evangelhos mas antes um retorno ao “período patrístico” ― isto é, ao início da fundação da ICAR proselitista, clerical e ritual (S. Agostinho). Com a Contra-Reforma, o catolicismo e luteranismo afastaram-se de tal forma que a história da vida de Jesus Cristo passou a ser um despiciendo detalhe teológico comum às duas doutrinas.


Eu não simpatizo grande coisa com Bonhoeffer. “Cheira-me” a teólogo envergonhado da sua herança luterana, e que na sua fuga ideológica para a frente, acabou, na prática, por colocar em causa os princípios básicos do Cristianismo. Bonhoeffer, como a esmagadora maioria dos “novos teólogos”, era um panteísta ― tal como Espinosa o foi ― e por isso, era um naturalista e materialista: Deus era a própria Natureza e Jesus Cristo era um homem igual a outro qualquer. Mais: a Nova Teologia entronca-se ideologicamente com a Utopia Negativa ― vulgo “marxismo cultural”.
O mal que a Nova Teologia causou à cristandade europeia foi imenso, e tudo o que se está a passar hoje na Europa do norte está também relacionado com a promiscuidade ideológica entre o marxismo e a Nova Teologia de origem luterana que se propagou ― como uma epidemia ― ao catolicismo com o advento do pós-modernismo. O “catolicismo marxista” da América do Sul teve origem na Nova Teologia luterana de Bonhoeffer.

Bonhoeffer foi um hipócrita que a História ― contada numa perspectiva materialista ― consagrou como um herói. Só um clérigo hipócrita pode pensar que a fé que diz professar se pode separar das próprias religiões e da ética. Eu posso perceber que até os espíritos mais lúcidos tiveram momentos de dúvida e de auto-interrogação de fé ― como aconteceu com a Madre Teresa de Calcutá. O que não posso conceber é que um clérigo defenda uma ética que separe o Homem de Deus, já que Bonhoeffer defendeu a ideia de que a metafísica, no sentido do “sobrenatural”, não existe. Em grande parte, o actual estado espiritual anémico da Europa do norte deve-se, em muito, a homens como Bonhoeffer.

7 comentários »

  1. Convém lembrar que um dos motivos pragmáticos do cismo luterano foi a de permitir aos cristãos o exercício do Juro, para permitir assim roubar o nicho de mercado que muito fez enriquecer a comunidade judaica.

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    Comentar por Luis Bonifácio — Sábado, 27 Setembro 2008 @ 4:08 pm | Responder

  2. Eu nunca tinha ouvido falar de Maximiliano Kolbe !!!!!

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    Comentar por Henrique — Segunda-feira, 29 Setembro 2008 @ 7:09 am | Responder

  3. Pero, Orlando, permíteme una pequeña maldad: Portugal se acogió en su día a la protección de la marina de la cabeza de la iglesia cismática anglicana…

    Por lo demás estoy de acuerdo en que la “Reforma” fur una empresa de Destrucción, de demolición.

    Tu valoración de Trento es nueva para mí. ¿Puedes ponerme algún enlace o recomendarme algún libro (o desarrollar el tema si es de tu cosecha)?

    Un abrazo

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    Comentar por AMDG — Segunda-feira, 29 Setembro 2008 @ 8:10 pm | Responder

  4. “Pero, Orlando, permíteme una pequeña maldad: Portugal se acogió en su día a la protección de la marina de la cabeza de la iglesia cismática anglicana…”

    El Generalissimo Franco ha hecho lo mismo con el ateísta Hitler, en la guerra civil española. Se llama esto “decisión de soberania” 😆

    Existe un libro de un autor portugues: «Linguagem, Retórica e Filosofia do Renascimento», de Leonel Ribeiro dos Santos. Pero si haces una busca en internet “concilio + Trento + Reforma” puedes encontrar algo.

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    Comentar por O. Braga — Segunda-feira, 29 Setembro 2008 @ 8:20 pm | Responder

  5. Estava a ler seu artigo, e perceber o descontexto de suas colocações. Afirmar que a Reforma teve, em seu balanço total, mais peso negativo do que positivo, é ainda sonhar com a hegemonia católica e medieval que foi destruída no século XVI. A modernidade é filha da Reforma. Prova é que os países católicos demorarm muito mais para a alcançarem, do que os países onde os burgueses protestantes assumiram o poder. Para mim, pouco importa protestantismo ou catolicismo, mas, sem sombra de dúvidas, é o Papa Bento XVI que ainda está a dar as maiores mostras de mentalidade arcaica, embora eu tenha que reconhecer os avestruzes reinando também no protestantismo.
    Tiago Lenin

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    Comentar por Tiago — Terça-feira, 17 Março 2009 @ 6:21 pm | Responder

  6. @Tiago: A modernidade é filha da reforma; o secularismo e o ateísmo também. Os cristãos não-católicos só prosperam em ambientes onde existam também católicos e outras religiões, como o judaísmo.

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    Comentar por O. Braga — Quinta-feira, 19 Março 2009 @ 8:57 pm | Responder

  7. Olá amigos, um bom dia na paz!
    As atitudes são produtos das influências sofridas pela experiências.
    O que vimos tem dois lados negativos que se contradizem e por isso evidenciam o caminho, saber: Não podemos pretender que a vida cristã seja resumida em um mero ativismo totalmente descomprometido com os propósitos eternos de Deus que a igreja tem exclusividade em proclamar, e também não podemos nos acomodar em uma consciência “metafisicana” ( sobrenatural) também irresponsavel, determinar o curso da história, numa postura dominante, uma vez que essa conduta não tem mais lugar na conjuntura posmodernizada.
    todos somos levados a tomar atitude que refletem fortemente ao momento que estamos vivendo…
    Um forte abraço!!!

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    Comentar por sergio sena — Quinta-feira, 24 Dezembro 2009 @ 1:55 pm | Responder


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