perspectivas

Quinta-feira, 18 Setembro 2008

A mente revolucionária

Filed under: Política — O. Braga @ 5:18 pm
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A galeria revolucionária

A galeria revolucionária

Segundo Olavo de Carvalho, a mente revolucionária tem 3 características essenciais:

A inversão da percepção do tempo

As pessoas normais consideram que o passado é algo imutável e que o futuro é algo de contingente ― “o passado está enterrado e o futuro a Deus pertence”, diz o senso-comum.

A mente revolucionária não raciocina desta forma: para ela, o futuro utópico é um objectivo que será inexoravelmente atingido ― o futuro utópico é uma certeza; não pode ser mudado.
Por outro lado, a mente revolucionária considera que o passado pode ser mudado (e ferozmente denunciado!) através da reinterpretação da História por via do desconstrucionismo ideológico (Nietzsche → Gramsci → Heidegger → Sartre → Foucault → Derrida → Habermas). Em suma: o futuro é uma certeza, e o passado uma contingência ― isto é, o reviralho total.

A inversão da moral

Em função da crença num futuro utópico dado como certo e determinado, em direcção ao qual a sociedade caminha sem qualquer possibilidade de desvio, a mente revolucionária acredita que esse futuro utópico inexorável é isento de “mal” ― esse futuro será perfeito, isento de erros humanos. Por isso, em função desse futuro utópico certo e dado como adquirido, todos os meios utilizados para atingir a inexorabilidade desse futuro estão, à partida, justificados. Trata-se de uma moral teleológica: os fins justificam todos os meios possíveis.

Inversão do sujeito – objecto

A culpa dos actos de horror causados pela mente revolucionária é sempre das vítimas, porque estas não compreenderam as noções revolucionárias que levariam ao inexorável futuro perfeito e destituído de qualquer “mal”. As vítimas da mente revolucionária não foram assassinadas: antes suicidaram-se, e a acção da mente revolucionária é a que obedece sem remissão a uma verdade dialéctica imbuída de uma certeza científica que clama pela necessidade desse futuro sem “mal” ― portanto, a acção da mente revolucionária é impessoal, isenta de culpa ou de quaisquer responsabilidades morais ou legais nos actos criminosos que comete.
Segundo a mente revolucionária, as pessoas assassinadas por Che Guevara ou por Hitler, foram elas próprias as culpadas da sua morte (suicidaram-se), por se terem recusado a compreender a inexorabilidade do futuro sem “mal” de que os revolucionários seriam simples executores providenciais.


Ser-se “conservador” resume-se à antítese destas características da mente revolucionária. Quando me perguntarem o que é o “conservadorismo”, farei um link para este postal com a seguinte nota: é a antítese disto.

(Sticky post)

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13 comentários »

  1. A culpa dos actos de horror causados pela mente revolucionária é sempre das vítimas, porque estas não compreenderam as noções revolucionárias que levariam ao inexorável futuro perfeito e destituído de qualquer “mal”.

    Mas, no caso do “revolucionário” este tenta impor aquilo que ele acredita ser “mal”, a partir daí; as cosiderações acredito que sejam pessoais, mesmo quando a finalidade da revolução vai além deste. E , quando ele alvitrou a visibilidade de mudança estava impregnado de moral- ora- impor uma nova condição “o futuro sem o mal”.Logo, qualquer ideal , para mim seria um imposição uma inversão moral e partiria de dentro para fora,não postergando as influências históricas-claro- já que minha tese foi a moral…E isto é um ciclo um retorno sempre ao mesmo eixo, ou seja, é só recordar um pouco das ações Capitalistas-Comunistas, mundo-bipolar.

    Obrigado, pela atenção!

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    Comentar por Raphael — Quinta-feira, 18 Setembro 2008 @ 9:38 pm | Responder

  2. “Logo, qualquer ideal , para mim seria um imposição uma inversão moral e partiria de dentro para fora.”

    Parece-me implícito neste trecho que “todos os ideais são revolucionários”, no sentido modernista do termo. Para que se perceba a mente revolucionaria, não podemos isolar uma das três características que compõem um conjunto; elas funcionam as três juntas. Naturalmente que há ideais ― o ideal de luta pela justiça, por exemplo ― que não invertem a noção de tempo nem invertem a moral jusnaturalista; esses ideais não são revolucionários. Podemos ter um ideal e não sofrermos por isso a lobotomia revolucionária da total inversão de valores.

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    Comentar por O. Braga — Quinta-feira, 18 Setembro 2008 @ 11:56 pm | Responder

  3. Um post de uma linearidade absoluta.
    Limpo e escorreito.

    (…E haver quem o queira entender?…)

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    Comentar por pedronunesnomundo — Sexta-feira, 19 Setembro 2008 @ 10:15 am | Responder

  4. Mas, foi justamente isso , qualquer ideal – generalizei isto foi um erro, mas queria tratar justamente não só a inversão mas também cultivar o já existente ou imposto em outrora – vide o que Nietzsche deixou claro em Genealogia da Moral.

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    Comentar por Raphael — Sexta-feira, 19 Setembro 2008 @ 4:59 pm | Responder

  5. Conservador como antítese disso tudo me soa bem e até justo com o que é o conservadorismo hoje. Mas a palavra conservar pode dar à palavra conservador uma conotação pejorativa, que pode ser aquele que conserva porque como está é bom para si. Talvez possamos ser conservadores agora, porque há certas conquistas que não podem ser mudadas por quem não as queria – o direito mínimo, de quem está no seu espaço e não incomoda ninguém. E a conservação pode ter sido tão extrema quanto as revoluções. Penso que foram tempos sem meio-termo e talvez o “exagero revolucionário” só o foi para ser tão forte quanto o que considerava “opressor”. É bem verdade que esses elementos são um esquema de síntese verdadeiro de tais revolucionários – e que se pode ter ideais sem distorcer tudo e se achar produtor de soluções. Mas eles são fruto de um projeto moderno que faliu, ou que, após derrubar algumas coisas, teve de sair de cena. Não quero usar o termo “mal necessário”, mas o conservadorismo à época deles talvez fosse tão pejorativo quanto o revolucionário descrito assim.

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    Comentar por joao grando — Sexta-feira, 19 Setembro 2008 @ 8:40 pm | Responder

  6. pode ser aquele que conserva porque como está é bom para si.

    Nem por isso. O libertário também pode ser libertário porque é bom para si. Um conservador que diz que é conservador sem pensar porquê, não é um conservador: é um robô.

    Talvez possamos ser conservadores agora, porque há certas conquistas que não podem ser mudadas por quem não as queria – o direito mínimo, de quem está no seu espaço e não incomoda ninguém.

    Nem por isso. O progresso de uma sociedade, baseado em reformas sucessivas, sempre existiu e antes do surgimento da mente revolucionária. As mulheres começaram a votar nos Estados Unidos pela primeira vez em todo o mundo ― um país conservador e capitalista! Não precisamos da mente revolucionária para fazer as conquistas ― pelo contrário, é a actual mente revolucionária da América do Sul que coloca o Obama em apuro eleitoral, beneficiando McCain.

    Penso que foram tempos sem meio-termo e talvez o “exagero revolucionário” só o foi para ser tão forte quanto o que considerava “opressor”.

    Não “foram tempos”: está acontecer agora. A esquerda radical apenas mudou de táctica; a estratégia é a mesma, porque a esquerda não mudou de nome: continua a ser “esquerda”. (nota: Hitler era de esquerda).

    Mas eles são fruto de um projeto moderno que faliu

    Não faliu coisa nenhuma. Mudaram de táctica, simplesmente. O próprio Marx previu que a revolução poderia demorar um século ou mais; acontece que os bolcheviques se precipitaram e quiseram fazer tudo de uma vez e deu no que deu. A nova geração de revolucionários aprendeu com a experiência, e vão agora com mais calma (política de sedução e anestesia), antes de impôr o modelo totalitarista preconizado por Marx e Engels (a nível global).

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    Comentar por O. Braga — Sexta-feira, 19 Setembro 2008 @ 9:00 pm | Responder

  7. Concordo, até pq no quesito política e sistema produtivo o capitalismo resiste e se renova a cada crise. Mas , vc acredita que mesmo com uma mudança na política , no mundo atual ainda tem espaço para o comunismo tradicional Karl ou seguindo as tendências modernas o modelo chinês estaria mais viável?

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    Comentar por Raphael — Sexta-feira, 19 Setembro 2008 @ 9:51 pm | Responder

  8. Raphael:

    Se perguntassem a um alemão que vivesse na década de vinte do século passado, se ele previa que o partido nazi subiria ao poder após eleições e imporia um regime totalitário, a maioria dos alemães diria que seria impensável uma tal hipótese ― e de tal forma assim pensavam que acabaram por eleger o partido nazi em eleições livres. Mas a verdade é que o partido nazi foi eleito e paulatinamente foi abolindo as liberdades, incluindo a liberdade de expressão, num processo político com uma dinâmica imparável utilizando a propaganda massiva e a demagogia politicamente correcta.

    Vivemos num tempo em que a possibilidade de um totalitarismo nos parece impensável e absurda, talvez porque pensamos que chegámos ao fim da História. A verdade é que a História não acabou.

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    Comentar por O. Braga — Sexta-feira, 19 Setembro 2008 @ 10:21 pm | Responder

  9. Assim como Marx tbm fez previsões sobre o fim da burguesia e a ascensão do proletariado…

    Vivemos num tempo em que a possibilidade de um totalitarismo nos parece impensável e absurda, talvez porque pensamos que chegámos ao fim da História. A verdade é que a História não acabou.

    Será que pq o própio ideal transmite a idéia de finalidade de um “para que”…um sentido?

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    Comentar por Raphael — Sábado, 20 Setembro 2008 @ 3:16 am | Responder

  10. […] os partidos de Esquerda ― seguindo o exemplo e a tradição da maçonaria ― são os senhores da mente revolucionária. Sobre esta matéria, ler este artigo do Mídia Sem […]

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    Pingback por As palavras-chave do poder esotérico « perspectivas — Terça-feira, 23 Setembro 2008 @ 11:16 am | Responder

  11. […] de consciência aplica-se nos casos em que lhe convém, e já nos casos alheios à necessária mente revolucionária, não convém que se […]

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    Pingback por O cair da máscara « perspectivas — Terça-feira, 23 Setembro 2008 @ 5:24 pm | Responder

  12. repare no seu conservadorismo… http://www.ionline.pt/conteudo/10078-berlusconi-sorri-novo-escandalo-prostituicao-e-drogas … a direita no seu melhor =D mas os “outros” é que são maus…

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    Comentar por dcs10 — Quarta-feira, 24 Junho 2009 @ 12:46 pm | Responder

    • @ D Sousa:

      Desde quando Berlusconi é conservador? Desde quando um neoliberal, como Rockefeller que apoia abertamente o Partido Democrático de Obama nos EUA, é conservador? Desde quando uma pessoa, por ter muito dinheiro, é automaticamente conservadora? Se os vícios privados têm consequências públicas, como se demonstra no caso de Berlusconi, porque é que o mesmo critério não se aplica às orgias dos políticos gays na Grã Bretanha? Porque é que os bacanais gay são “correctos” e os bacanais do Berlusconi são incorrectos? Porque é que as pessoas confundem “conservadorismo” com libertarismo ou até com libertinismo? Porque é que uma pessoa que tem muito dinheiro é automaticamente “conservadora”? Porque é que um pobre não pode ser conservador?

      São estas as perguntas que deixo.

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      Comentar por O. Braga — Quarta-feira, 24 Junho 2009 @ 12:57 pm | Responder


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