perspectivas

Sábado, 13 Setembro 2008

Sobre a violência doméstica e o divórcio

Filed under: politicamente correcto — O. Braga @ 2:50 pm
Tags: , , , ,

Aqui no condomínio onde moro existe um jovem casal com um filho pequeno, e consta que naquela casa existe violência doméstica. As razões para a violência doméstica são diversas, e algumas delas podem ser mais “compreensíveis” do que outras. Por exemplo, um soldado que vem da guerra e com sequelas graves pós-traumáticas, encontra-se numa condição psicológica que pode dar azo à violência doméstica; neste caso, convém que o homem seja tratado do ponto vista médico, e naturalmente que será mais fácil à sua mulher “compreender” porque é que o marido se comportou de determinada maneira. Mas isto não se aplica só aos soldados: gente vulgar, famílias inteiras, que fogem de um cenário de horror da guerra, transportam consigo traumas decorrentes da violência que experimentaram ou viveram; nestes casos, a violência doméstica encontra terreno fértil para lavrar e para se transmitir à geração seguinte ― lembro-me, neste caso, dos retornados das ex-colónias portuguesas que fugiram às guerras de independência e à descolonização exemplar do Mário Soares.

Noutros casos, o rapaz é sujeito a uma educação com uma forte componente de violência (incluindo até abusos sexuais), o que na prática resulta num síndroma post-traumático de baixa intensidade e portanto negligenciado pelo próprio e pela sociedade, e que permanece “dormente” no inconsciente do menino até à idade adulta. O problema é que é difícil detectar estes casos e convencer os homens a procurar tratamento psicológico: foi ensinado ao homem que deve ser forte, e reconhecer uma fraqueza psicológica proveniente de uma educação deficiente vai contra os cânones culturais.

Portanto, embora reconheça o direito daquela minha vizinha em recorrer ao divórcio porque, neste caso, é vítima de violência doméstica, também reconheço o direito do seu marido a ser tratado psicologicamente, não só do ponto de vista médico como do ponto de vista ético ― porque um psicólogo ou um psiquiatra não são necessariamente eticistas; os agentes da ciência podem ser (ou não) sensíveis à ética, mas a ciência nunca é.

Acontece que na sociedade em que vivemos ― que se caracteriza pela existência de personalidades como José Sócrates, Zapatero e quejandas aberrações humanas com poderes que não deveriam ter ― se faz (e muito bem) o apelo à vítima para que denuncie a agressão e colocam à sua disposição uma parafrenália de mecanismos de apoio à vítima e de censura moral ao agressor, mas esquecem-se que no caso do meu vizinho como no da maioria dos casos, existem sempre duas vítimas (ou mais, porque as crianças também são vítimas que perpetuarão a violência doméstica).

Pelas razões que mencionei acima, o agressor também é vítima. Contudo, ao agressor que sofre psicologicamente por ser agressor e vítima pretérita, o poder político recusa apoio ― não lhe reconhece o estatuto de vítima. Naturalmente que esta discriminação e diferenciação moral de estatutos não é feita inocentemente, é intencional, e tem que ser denunciada. Existe de facto uma intenção política deliberada de diabolização sexista de uma das vítimas e a beatificação social e moral de outra, porque não se reconhece que o agressor (na maior parte dos casos) teve que ser vítima de violência antes de se tornar agressor. É risível constatar que quando “o agressor” é a mulher, os números estatísticos aparecem sempre em rodapé das pantalhas, e os me®dia ― manipulados politicamente ― tudo fazem para que a realidade inversa e politicamente incorrecta da violência doméstica seja ignorada o mais possível pela sociedade.

Os quatro pilares da estratégia neo-marxista em relação à família no Ocidente

  • A diabolização sexista e exclusivista de uma das vítimas tem a intenção deliberada por parte do poder político correcto em contribuir activamente para dissolução institucional do casamento (que segundo Engels é o suporte diabólico da propriedade privada), e este é um dos quatro pilares da estratégica política “herética” e neo-marxista, rumo à cultura da “perversidade polimórfica” preconizada por Herbert Marcuse.
  • O segundo pilar da estratégica neo-marxista de destruição do casamento como base nuclear cultural, social, e por isso, económica e que suporta o continuum histórico da propriedade privada, é o aproveitamento político da história da evolução do estatuto da mulher.
    Todos nós sabemos que o estatuto da mulher tem vindo a ser alterado em função da necessária igualdade de direitos e equivalência de obrigações. Contudo, não nos podemos esquecer que foi nas democracias ocidentais e capitalistas que a mulher passou a votar, e é nas democracias ocidentais que à mulher foi garantida mais liberdade ― em todos os sentidos: liberdade de expressão, de afirmação da feminilidade, etc.. Porém, tirando partido da liberdade existente nas democracias ocidentais capitalistas, os neo-marxistas (que nas suas ditaduras domésticas “amarram” diligentemente as mulheres às funções sociais de género) aproveitam-se da necessária evolução do estatuto da mulher no ocidente para minarem as fundações do sistema em que assenta a propriedade privada, tentando fazer com que o processo necessário de equivalência de estatutos entre os dois sexos se transforme numa guerra entre sexos = guerra ao casamento. Estão inseridos aqui o “feminismo” (que é uma manifestação política e cultural de índole neo-marxista), e o “divórcio simplex” de José Sócrates e do Bloco de Esquerda.
  • O terceiro pilar da estratégia neo-marxista é transformar tudo o que for possível, em “casamento”, porque a partir do momento em que tudo é “casamento”, o casamento passa a ser nada. Contudo, se analisarmos as ditaduras marxistas, desde a ex-URSS à actual Cuba e China, o casamento continua sólido como uma rocha e insensível ao gayzismo; a instabilização da instituição social do casamento só interessa aos neo-marxistas que se faça nos países capitalistas, para assim se minarem as fundações do sistema capitalista e da democracia representativa e “burguesa”.
    Neste pilar estratégico neo-marxista insere-se o “casamento” gay, a adopção de crianças por duplas de gays e o gayzismo em geral, que levará inexoravelmente à poliamoria e, a prazo, à destruição dos laços da família biológica e, portanto, à destruição da sociedade como uma entidade una, isto é, à decadência civilizacional.
  • O quarto pilar da estratégia neo-marxista é a perseguição à religião ― mais ou menos velada, mais ou menos violenta, dependendo do “agudizar das contradições que levam à eliminação do sistema capitalista” ― seguindo à letra a receita de Gramsci e Lukacs. Neste momento já existe uma perseguição política ao Cristianismo bem visível e notória em países do Ocidente, como no Canadá, Suécia, Espanha e em Inglaterra, enquanto outros países já tomaram consciência do que está em causa e já reagem contra a estratégia neo-marxista global, como é o caso da Austrália e provavelmente os Estados Unidos de Sarah Palin.

  • Em suma: eu não reconheço o divórcio como sendo exclusivamente negativo e que deve ser “proibido”, tanto legal como moralmente. Em alguns casos, o divórcio pode até ser o melhor que se conseguiu de um casamento, e é sempre bom que se salve o mais possível de um desastre principalmente quando existem filhos que não se querem traumatizados.

    O que toda a gente deve estar ciente é que a diabolização do macho que é também vítima, a banalização do divórcio, a extensão legal do casamento a tudo e todos, o feminismo que fomenta uma guerra social entre sexos, e a perseguição à religião que defende padrões ético-sociais, fazem parte de uma estratégia política bem definida e estruturada que pretende a instauração, a longo prazo, de um novo tipo de ditadura neo-marxista que, como corolário, retiraria todos esses “direitos” adquiridos no decurso da lógica própria do sistema ditatorial marxista.

    Bom fim-de-semana.

    2 comentários »

    1. “Noutros casos, o rapaz é sujeito a uma educação com um forte componente de violência (incluindo até abusos sexuais), o que na prática resulta num síndroma post-traumático…”

      Tudo escreveste neste post faz sentido, só que me parece que existem outros factores que levam à violência doméstica, e nem sempre estão ligados a uma violência “pretérita”. É o caso de uma educação sem regras e limites claros. O casal quer continuar com os mesmos valores que adquiriu antes e esquece que quando se divide espaço há que respeitar fronteiras. Mas, ainda acredito que a maioria dos divórcios acontecem porque o que começou com dois acaba normalmente com três ou quatro…e não estou aqui falando de filhos. O indivíduo (pela educação que recebeu) que se considera livre antes, abomina ter que dar satisfações do que faz, atrasos, esquecimentos. Ele só quer ser cuidado, ou sair de casa, ou experimentar novas emoções, não não quer o ônus da mudança. Tudo perdoável, mas ninguém permite em um casamento que o outro ignore que está casado(a). Ou isso não é casamento, mas uma união de vantagens.
      A violência é uma praga que invade a vida de todos nós, mesmo quando a nossa casa é uma tranquilidade. Quando não vem pelos , como você fala, merdia (não sei fazer o r), vem pelas paredes, pelas janelas, no trabalho, no trânsito, enfim, está bem aí do nosso lado.
      Então, não encontro justificativas para a violência ser desculpada. Se alguém está com problemas, traumas, que se cuide antes de contaminar alguém. No caso do casal, os dois precisam de cuidados, e se o estado não oferece essa ajuda, ainda nos resta o padre, o pastor, a família, os amigos, etc.
      Claro que quando se trata de doença, precisa haver a ajuda do estado para quem não pode ser onerado.
      As mulheres, mulheres mesmo, não lutam pela igualdade de direitos. Ao contrário têm saudades do tempo em que não precisavam lutar para ajudar a manter a casa. Antes era só cuidar do conforto físico da família, cozinhar, sobrava até para o chá com as amigas… Agora continuamos com a obrigação de cuidar da casa e ainda temos que dar duro pelo menos 8 horas por dia, fora de casa.
      Eu sou uma das que ajudaria a apertar as pernas da mãe da Bethy, na hora em que ela a pariu.
      Depois dela e seu séquito tudo ficou mais difícil. Nunca os homens se sentiram mais pressionados a provar “quem manda lá em casa”. Onde anda o homem provedor? Sumiu!

      Gostar

      Comentar por Delfina — Sábado, 13 Setembro 2008 @ 5:49 pm | Responder

    2. […] direita e de esquerda, isto é, neoliberais e ala esquerda do PS e Bloco de Esquerda) acreditam que “o casamento é necessário”? o João Miranda está a tentar enganar […]

      Gostar

      Pingback por A ética do desejo « perspectivas — Domingo, 14 Setembro 2008 @ 2:05 pm | Responder


    RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

    AVISO: os comentários escritos segundo o AO serão corrigidos para português.

    Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

    Logótipo da WordPress.com

    Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

    Google photo

    Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

    Imagem do Twitter

    Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

    Facebook photo

    Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

    Connecting to %s

    %d bloggers like this: