perspectivas

Segunda-feira, 18 Agosto 2008

Guilherme de Occam e a crença do cientificismo

Podemos dizer que o positivismo que deu lugar ao cientificismo pós-moderno iniciou-se com Guilherme de Occam (1290 ― 1348), a última grande figura da Escolástica e a primeira da Idade Moderna. Occam ficou celebrizado pelo princípio conhecido como “Navalha de Occam”, segundo o qual o conhecimento implica uma relação imediata, e sem intermediários de qualquer espécie, entre o sujeito cognoscente e a realidade conhecida (princípio que regula o Empirismo).
Um exemplo de um “intermediário” que Occam rejeitaria poderia ser a estátua da sereia que podemos ver na baía de Copenhaga: segundo Occam e o empirismo, a estátua da sereia de Copenhaga nunca conduziria ao conhecimento das sereias se não se conhecesse previamente o conceito do que é uma sereia. Portanto, segundo Occam, a estátua da sereia (o “intermediário”) é inútil para o processo de conhecimento.

Mas será que as sereias existem? O empirismo científico iniciado por Occam não pode provar a não-existência de sereias. Quando alguém ouvir a um “cientista” dizer que “está provado que as sereias não existem”, pode dizer-lhe, com a maior autoridade do mundo, que ele mente; ou, em alternativa, convide esse “cientista” a explicar como é que a ciência chegou a essa conclusão.

A ciência não pode provar a não-existência do que que quer que seja, porque seguindo o princípio de Occam, utiliza um método de indução que se baseia na observação directa dos fenómenos. Com a eliminação dos “elementos intermediários” de Occam, o empirismo só pode provar que algo existe e não pode provar de que algo não existe, e mesmo assim, essa “prova” de existência pode ser enviesada pelo tipo de conhecimentos disponíveis no momento da observação empírica ― o que significa que o conhecimento indutivo é contingente, falível e incerto.

A única forma de se provar a não-existência de algo, é através da dedução ― seja através da lógica filosófica, seja pela lógica matemática ― e a dedução extrapola o empirismo, não necessita deste. Um dos filósofos que melhor defendeu o princípio da dedução aplicável à realidade foi o racionalista Immanuel Kant, com o seu conceito de “a priori”: existem noções e conceitos que não necessitam de prova empírica, mas somente de uma dedução racional; por exemplo, pode ser negada, por simples dedução racional (conceito “a priori”), a existência de um “círculo quadrado” ― não precisamos da experiência para provar que um “círculo quadrado” não existe.

A ciência não pode provar a não-existência do que quer que seja, incluindo a não-existência de sereias.

Quando alguém diz que algo não existe, segue uma crença, e não a ciência. Por isso, podemos induzir ― e deduzir ― que o cientificismo, que deu origem ao naturalismo do Novo Ateísmo, é uma crença. A crença do cientificismo é dogmática, persecutória, totalitária e exclusivista: segundo os crédulos seguidores do cientificismo, nenhuma outra crença pode ser tolerada ― todas as outras crenças devem ser perseguidas e condenadas como sendo heréticas.

Em nome da ciência, corremos o risco de entrar numa Idade Média pós-moderna ― numa nova Escolástica, que não procurando a verdade mas a afirmação de uma verdade pré-concebida, pretende a imposição de uma ordem necessária e perfeita, na qual todas as coisas têm um lugar e uma função determinados, permanecendo nesse lugar e nessa função pela força infalível da ciência interpretada por uma elite que determina e orienta o mundo.

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1 Comentário »

  1. òtimo artigo! esclarece a idéia de Kant de maneira simples.

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    Comentar por emanuel de souza pereira — Sexta-feira, 10 Abril 2009 @ 11:07 pm | Responder


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