perspectivas

Sexta-feira, 15 Agosto 2008

A estética, segundo Kant, Kierkegaard e Adorno (3)

Teodoro Adorno foi um marxista cultural; sobre o marxismo cultural, ler isto ― só percebendo o que é o marxismo cultural se poderá entender o juízo estético de Adorno.

Como sabemos, o marxismo cultural deitou mão da teoria de Freud sobre a sexualidade, isto é, Adorno concentra o seu juízo estético nas relações entre a arte, a psicologia e a sócio-história.

Adorno retoma o dogma marxista de que “a arte é própria da burguesia”, dogma este que se fundamenta na velha questão da esquerda hegeliana que se interrogava se a arte poderia sobreviver numa sociedade pós-capitalista.

Adorno tem algo em comum com Kierkegaard: a ideia de “ilusão da liberdade”; segundo Adorno, a liberdade não existe senão como força que combate a ilusória “liberdade burguesa”.

Adorno não vê na arte a procura do belo plástico e estético , mas a procura do conflito que resulta da implícita e pressuposta falta de liberdade do homem. A noção de “belo” é uma noção burguesa aculturada e aculturavél, assim como a arte mercantilista (a arte que se compra e vende) é — segundo Adorno — um produto da sociedade burguesa. Em contraponto, existe a arte verdadeira que se opõe à arte burguesa, em que a noção estética é irrelevante, isto é, a estética passa a ser um instrumento de luta política, assim como a arte burguesa mercantilista é um instrumento de dominação política das massas. Portanto, para Adorno, se para a burguesia é bela uma pintura religiosa renascentista, para a arte do conflito é bela uma exposição niilista.

Para Adorno, a harmonia e a plasticidade de uma obra de arte são irrelevantes, isto é, os padrões harmónicos são valores relativos. O que interessa a Adorno é a hermenêutica da obra de arte ― aquilo que a obra de arte significa e a ideia que transmite, independentemente da harmonia e da estética. Segundo Adorno, a estética submete-e à hermenêutica; o que é importante é a mensagem da obra-de-arte, e não a estética plástica e formal.

Adorno vê na arte uma única função: a política. A técnica do artista passa para segundo plano. A noção de “estética” separada da política simplesmente não existe. Não existe estética sem política, e é exclusivamente na “política correcta” que existe estética. Por exemplo, segundo Adorno, a pintura da Mona Lisa tem uma função política, e a importância das formas do quadro de Da Vinci são irrelevantes, contando apenas a mensagem política que a pintura transmite (hermenêutica). Adorno vê na estética politicamente correcta uma arma contra a estética burguesa que se generalizou e se transformou na estética do “mainstream” cultural.

Adorno trouxe para a estética (arte) a dialéctica marxista da luta de classes, transformando a “arte correcta” naquela arte que combate, conflitua e destrói a arte burguesa ― independentemente da técnica, do génio, da forma e da plasticidade das obras de arte.

6 comentários »

  1. Acho que o choque de culturas que Adorno percebeu ao conhecer New York foi a origem da sua filosofia estética. Afinal ele vinha de um mundo refinado e, em função da sua condição judia precisou deixar o seu país e, por sorte (?) foi chamado para fazer parte do distinto grupo de pensadores europeus que rumou para os Estados Unidos. New York surgiu para ele como uma selva de pedra, estranha à sua formação.

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    Comentar por Delfina — Sexta-feira, 15 Agosto 2008 @ 4:35 pm | Responder

  2. Nem por isso.A formação política de Adorno fez-se na Europa, e ao contrário de Marcuse, ele voltou para a Europa depois do nazismo — morreu na Suíça em 1969. Adorno via mundo como os burros: com duas palas (antolhos) metidos na cabeça.

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    Comentar por O. Braga — Sexta-feira, 15 Agosto 2008 @ 4:47 pm | Responder

  3. Sim, ele voltou, acredito até porque não conseguiu aceitar que lá, na América não ocorria uma cisão entre a produção e o lazer. Tudo era a mesma coisa. Dessa forma, “qualquer coisa que causasse reflexão, uma inquietação mais profunda, era imediatamente expelida pela industria cultural como indigesta ou impertinente”.A sua experiência na América mostrou-lhe uma mídia que se voltava não apenas para o entretenimento e informação mas fazia parte do que ele chamou de industria cultural.

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    Comentar por Delfina — Sexta-feira, 15 Agosto 2008 @ 6:22 pm | Responder

  4. Delfina: “Indústria cultural” é, de facto, um termo inventado pela Escola de Frankfurt. Herbert Marcuse, um colega de Adorno, ficou nos EUA, gostou e morreu lá. Foi Marcuse que inventou a frase “make love, not war”. Portanto, Marcuse aderiu à “indústria cultural” — só podemos transformar uma cultura se a integrarmos, de alguma maneira; não é desertando culturalmente que transformamos uma cultura.

    Apesar de eu não concordar com ele, Marcuse tinha valor e se afirmou nos EUA; Adorno voltou porque não tinha o valor de Marcuse para se afirmar numa sociedade como os EUA.

    Adorno transportou para a cultura a luta de classes marxista. Esta visão totalitária era incompatível com os Estados Unidos da primeira metade do século 20.

    Note-se que este post é sobre o conceito de “estética” de Adorno, e não sobre “marxismo cultural”. O essencial sobre o juízo estético de Adorno está aqui; se quiserem que eu desmantele o pensamento de Adorno sobre a cultura em geral, também posso fazer.

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    Comentar por O. Braga — Sexta-feira, 15 Agosto 2008 @ 6:52 pm | Responder

  5. Interpretação frágil, com problemas. O autor deste texto parece ignorar que Adorno fundamenta a sua teoria crítica (que, de fato, é política) em uma teoria estética, para a qual a discussão formal das obras de arte é de suma importância. Não existe uma omissão de Adorno em face dos problemas da estética. Muito ao contrário.

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    Comentar por Rodrigo Cássio — Segunda-feira, 23 Março 2009 @ 1:43 pm | Responder

  6. Em relação ao comentário do R. Cássio:

    «O autor deste texto parece ignorar que Adorno fundamenta a sua teoria crítica (que, de fato, é política) em uma teoria estética, para a qual a discussão formal das obras de arte é de suma importância.»

    O problema é saber o que nasceu primeiro: o ovo ou a galinha? Será que Adorno se baseou na política para se debruçar sobre a estética, ou se baseou na estética para se debruçar sobre a política?

    Quando Adorno fundou a Escola de Frankfurt, não pensou em estética, mas em política pura e dura.

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    Comentar por O. Braga — Segunda-feira, 23 Março 2009 @ 4:35 pm | Responder


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