perspectivas

Sexta-feira, 15 Agosto 2008

A estética, segundo Kant, Kierkegaard e Adorno (2)

O existencialismo de Kierkegaard tem muito pouco a ver com o existencialismo do século 20, e até é contrário ao existencialismo de Sartre que, de certa forma, proclama a liberdade do Homem.

As diferenças entre Kant e Kierkegaard são abismais, embora fossem ambos homens de inspiração cristã. O primeiro era racional; para Kant a liberdade e o livre-arbítrio do ser humano eram incontestáveis. O segundo ― talvez devido ao seu perfil psicológico doentio ― era um determinista, isto é, defendia que o ser humano não dispunha de liberdade. De certa forma, podemos traçar um paralelo entre o determinismo cristão de Kierkegaard e o panteísmo determinista e materialista de Espinosa.

Enquanto que para Kant a estética está intimamente ligada à ética, e que todos nós podemos ― uns mais do que outros, naturalmente ― ser estetas, Kierkegaard considera a estética como sendo inferior à ética: um esteta é alguém que ainda não descobriu os caminhos da ética. Kierkegaard dividiu a vida humana em três estágios:

  • A vida estética;
  • A vida ética;
  • A vida religiosa.

Para Kierkegaard, todo o esteta é um “desesperado” que ainda não encontrou o “bom caminho” da vida ética. Devo dizer que não simpatizo minimamente com esta visão. Kierkegaard parte do princípio de que todo o esteta é depravado e moralmente decadente, o que, segundo Kant, não corresponde à verdade.

“O elemento estético é aquele para qual o homem é imediatamente aquilo que é; o elemento ético é aquele para qual o homem se transforma no que transforma.” ― Kierkegaard (Entweder-Oder)

Enquanto que para Kant o esteta segue as obrigações da vida moral, não separando a ética da estética, Kierkegaard considera a estética uma espécie de submundo moral e o esteta alguém irracional e subjugado pelo instinto.

3 comentários »

  1. Como você apontou , a visão de Kierkegaard é de certa forma doentia. Tal como a sua vida depressiva. Acredito que ele considera que a estética está ao alcance de qualquer um, enquanto que a ética precisa ser laborada. Uma é arte a outra é moral e só o homem evoluído considera as duas juntamente.

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    Comentar por Delfina — Sexta-feira, 15 Agosto 2008 @ 3:47 pm | Responder

  2. […] Leia mais direto na fonte: espectivas.wordpress.com […]

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    Pingback por estetica » Blog Archive » A estética, segundo Kant, Kierkegaard e Adorno (2) — Quarta-feira, 3 Dezembro 2008 @ 3:22 am | Responder

  3. O exemplo da vida estética é a figura de D. Juan, que “aproveita a vida”, vive o momento, consumindo mulheres atrás de mulheres, sem memória de quem elas sejam, do estado em que ficam, e que desespera pois n pára para reconhecer a prisão que o subjuga: ele próprio e a satisfação dos seus instintos a qualquer custo. Ele está internamente dividido, perdido de si próprio, a sua identidade resume-se a saltos de prazer em prazer. A consumação do desejo gera angústia, uma espécie de ressaca que passa com mais um gole. Tal como o bêbado já não sente prazer na bebida, o esteta não sente prazer no preenchimento do seu vazio com sensações que morrem e o deixam cada vez mais morto. O esteta somos nós, a maior parte do tempo.

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    Comentar por ex-esteta — Sábado, 20 Fevereiro 2010 @ 10:45 pm | Responder


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