perspectivas

Terça-feira, 12 Agosto 2008

O problema dos testemunhos contraditórios

Filed under: Maddie — O. Braga @ 7:56 pm
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Eu acho engraçado este rocambolesco raciocínio digno de um romance de Agatha Christie. O que é surreal é que a polícia portuguesa fez vista grossa ― certamente porque lhe interessava ― em relação ao óbvio e ao que toda a gente se apercebeu:

  • a vigilância das crianças ou não existiu simplesmente,
  • ou a ter existido foi relaxada e não consistente, isto é, não foi como os comensais do Tapas disseram, porque queriam proteger os McCann do crime abrangido pelo artigo 138 do Código Penal.

E não é caso para menos: abandono de criança com morte ou desaparecimento pode dar até 10 anos de prisão. Neste caso, não se poderia provar a morte, mas ao casal McCann estaria reservado uns anitos de prisão por abandono com desaparecimento de menor. Naturalmente que a estória da vigilância consistente e repetida punha ― de certo modo ― a salvo os McCann do crime de abandono de menor com dano. Aqui está a chave do discurso contraditório. Contudo, a polícia resolveu entender (interpretação subjectiva) que o discurso contraditório era outra coisa. Eu posso ser subjectivo; a polícia, não pode.

O que a polícia fez foi fazer de conta que o discurso aparentemente contraditório de uma pessoa do grupo (Jane Tanner) não indiciava a tentativa de cobertura de um crime de abandono de menor, mas indiciava a tentativa de cobertura de um crime de homicídio por negligência e ocultação de cadáver ― que é coisa enormemente diferente. Aliás, todo o artigo indicia que a polícia esteve, desde a primeira hora, convencida da tese de homicídio, porque terá notado essa contradição de Tanner poucas horas depois do desaparecimento, e portanto, descartou (embora de uma forma não reconhecida oficialmente) a hipótese de rapto; para a polícia, a tese de rapto foi abandonada logo nos primeiros dois dias de investigação; como disse o Amaral: “Nunca qualquer órgão de Comunicação Social fez um cruzamento desses depoimentos”. A preocupação com os me®dia, por parte do Amaral, é evidente.
O que o Amaral não consegue explicar é porque não investigou a presença de um vulto do lado de fora da janela do quarto de Madeleine, que uma baby-sitter testemunhou, antes de Maddie ter desaparecido.

Infelizmente, estamos provavelmente perante um cenário de crime de abandono de menor com dano (porque a criança foi raptada), com eventuais testemunhos inventados (digo “eventuais”, porque o julgamento desse testemunhos têm reserva enquanto não se fizer a reconstituição da noite no Tapas) para cobrir os McCann desse crime, que a PJ resolveu transformar num crime de homicídio com ocultação de cadáver, por várias razões, entre elas:

  1. Os crimes de rapto de crianças são extraordinariamente difíceis de investigar. Nos Estados Unidos desaparece uma criança em cada 40 segundos, nem todos os crimes de origem pedófila, evidentemente, e somente cerca de metade delas são encontradas, vivas ou mortas.
  2. O Amaral era o Boss da investigação; naturalmente ele que ligou o “caso Joana” ― de que foi o Boss e que conseguiu, com muita meiguice, que a mãe da Joana confessasse o que fez e o que não fez ― e portanto partiu para a solução que lhe parecia mais fácil. Na cabeça do Amaral, o rapto não existiu desde a primeira hora, isto é, a partir do interrogatório do grupo do Tapas. O raciocínio da polícia comandada pelo Amaral é simples: Joana = Maddie.
  3. A pressão do lobby pedófilo instalado no Terreiro do Paço fez-se sentir, e quando o Amaral extrapolou as orientações, foi convidado a sair por esse mesmo lobby pedófilo. Se não existissem pressões sobre a Justiça desde o primeiro minuto, o MP teria acusado os McCann de abandono de menor com eventual dano (e não por homicídio e ocultação de cadáver, como mais tarde o Amaral quis fazer) desde a primeira hora, com medida de coacção de identidade e residência. Mas ao lobby pedófilo não lhe interessava isso porque a prova de culpa de um crime de abandono poderia levar a uma não-prova de culpa de homicídio e ocultação de cadáver, ou no mínimo, a uma condenação subjectiva e sem dados que a sustentassem, como acontece muitas vezes em Portugal, com repercussões internacionais. Para o lobby pedófilo, quando menos “ondas”, melhor.

Tratando-se de cidadãos ingleses, a Justiça manipulada não poderia ser feita como de costume; e quando o Amaral assumiu um protagonismo exacerbado, deram-lhe guia de marcha. O que interessava ao lobby pedófilo é que a coisa ficasse em “águas de bacalhau”, como aconteceu neste caso como no do Rui Pedro.

Conclusão: existiu crime por parte dos McCann? Provavelmente, sim. Mas não o crime que o Amaral quer à força (bruta), para justificar a sua ineficácia desde a primeira hora.

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