perspectivas

Segunda-feira, 11 Agosto 2008

Directo e sem rodeios: desembrulho!

Posso estar de acordo com a ideia deste postal: é preciso que a imigração seja contida dentro dos limites económicos e sociais que Portugal pode oferecer; não é possível “importarmos” imigrantes para depois não lhes darmos condições de sobrevivência condignas e segurança aos que já cá estão. Até aqui estou de acordo, e tenho-o escrito desde há 5 anos a esta parte.

Contudo, não concordo com a ideia de que os criminosos, por o serem, passem por isso à condição de sub-humanos (“Untermenschen”, para utilizar a terminologia nazi).

Desde logo, qualquer pessoa com dois dedos de testa se apercebe que se os assaltantes quisessem matar os reféns (todos ou algum) poderiam tê-lo feito, em vez de terem libertado quatro deles; tiveram a oportunidade e o momento para o fazer. Parece que a polícia não se apercebeu disso. Quando a polícia mata alguém nestas condições, é essencial que a intenção da pessoa abatida seja prévia e racionalmente avalizada.

Qualquer pessoa ― e mesmo um mentecapto ― pôde constatar que o que os assaltantes pretendiam era sair dali para fora com o dinheiro, e a ameaça aos reféns era pura intimidação em relação ao imenso aparato policial digno de uma invasão espanhola. Só faltou ao governo deslocar para o local o exército português inteiro por causa de dois homens com duas pistolas de baixo calibre e com muito poucas munições. Tratou-se de um “night show” televisivo socretino para apaziguar as almas que, sedentas de sangue e de vingança, se sentem agora mais seguras e confiantes na ordem “comtista”; tratou-se de uma espécie de circo romano na era do Big Brother.

Depois, e conforme muito bem visto aqui, a polícia teve alguma sorte, porque uma falha poderia ter causado um banho de sangue, caso os assaltantes fossem obrigados a reagir a uma acção falhada da polícia. A verdade é que foi a polícia quem jogou realmente com a segurança dos reféns, e teve sorte.

Embora não exista na lei nada que impeça a polícia de matar naquela situação, a lei não dá à polícia liberdade para matar, e neste caso, tratou-se de uma opção política: o governo quis fazer deste caso um exemplo, exactamente pelas razões que explanei aqui.

A ordem e segurança não se conseguem com acções policiais deste calibre, mas com a prevenção, incluindo iniciativas de limitação à imigração ilegal. Um imigrante ilegal não tem apoio familiar e social, e por isso é muito mais susceptível de embarcar em situações destas.

Quando a acção da polícia se transforma num instrumento político, estamos a um passo de transformar um criminoso num herói no meio social de onde eles emergem, e a morte de um deles passará a ser a morte de um mártir, como já acontece no Brasil. E chegados aí, já não há cabecinhas pensadoras ― e ministros ― que consigam resolver o problema.

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