perspectivas

Sexta-feira, 8 Agosto 2008

O castigo da consciência

Um dos grandes problemas do cristianismo é a absorção do judaísmo, a aglutinação de uma religião com a qual Cristo não concordava. Jesus Cristo combateu o Judaísmo, mas a Apologética medieval incluiu o Antigo Testamento na religião cristã.

Como cristão, devo aqui afirmar: não valorizo minimamente o Antigo Testamento. Nada. Não há nada no Antigo Testamento que eu considere como guia filosófico ou religioso. O que me interessa no cristianismo é o relato da vida de Jesus Cristo: os Evangelhos.

Não posso compreender que um católico possa — por um segundo — defender a pena de morte. Tratando-se de um monárquico, penso que deveria ter em mente que o nosso rei D. Carlos foi condenado à morte, e com o julgamento republicano feito à posteriori e à revelia (in absentia) do rei. Não podemos defender a pena-de-morte em função dos nossos valores, e condenar a pena-de-morte em função dos valores dos nossos adversários políticos.

Quem sabe, sabe que é a nossa própria consciência que castiga.

Um homem de posição perguntou então a Jesus: “Bom Mestre, que devo fazer para possuir a vida eterna?” Jesus respondeu-lhe: “Por que me chamas bom? Ninguém é bom senão só Deus. Conheces os mandamentos: não cometerás adultério; não matarás;não furtarás; não dirás falso testemunho; honrarás pai e mãe”.



Adenda:2008-08-10T13:48:12+00:00

Caro Demokrata:

  • O seu post seria relativamente inofensivo se não tivesse o link final; este post refere-se a esse link, que acaba por transformar o espírito do postal.
  • Paulo não é Jesus. São duas personalidades diferentes. Paulo nem sequer escreveu um evangelho, por razões que todos nós conhecemos. Desafio a que diga uma só passagem da palavra de Jesus (Evangelhos) em que se defenda a pena-de-morte. Portanto, Paulo não ouviu o que escreveu; deu a sua opinião, mas essa opinião não pode ser atribuída a Jesus Cristo.
  • Uma justiça que mata é uma justiça primitiva, característica dos povos nómadas, que por serem nómadas, não podiam ter estabelecimentos prisionais. Na deambulação constante dos nómadas, a justiça deles resumia-se à morte do criminoso. Responder à barbárie com actos de barbaridade é próprio dos bárbaros.
  • A passagem do Livro do Apocalipse é uma metáfora, como é uma metáfora todo o Livro do Apocalipse (todo ele), e quer significar a relação de causa-efeito entre o acto e o retorno da acção. A passagem em causa não diz que cabe ao Homem fazer a justiça que deve ser divina; não diz que cabe ao Homem matar em nome da justiça de Deus. A leitura “à letra” do Livro do Apocalipse não é, no mínimo, honesta.
  • Os 10 mandamentos existem na religião de Moisés, isto é, depois de Moisés, mas são um resumo da lei primeva dos Hindus e do Zoroastrismo. Quando Moisés viveu já existiam outras religiões superiores: os Vedas (hinduísmo) era uma delas. O Confucionismo e o Taoísmo são também anteriores a Moisés, e ambas as religiões defendiam que o homem não tinha o direito de matar outro.
    Jesus Cristo não se referiu só a lei de Moisés, mas a todas as religiões que coexistiam na Palestina. Não nos devemos escrever que a família de Jesus era de origem essénia (ler sobre os Essénios), e que existiam e eram já conhecidas outras religiões que defendiam já a “não-morte” dos criminosos.
  • O que eu critico não é a “sua parte da Bíblia”, é o considerar-se a Bíblia aquilo que — para mim — não é. Seria como se considerassem o Corão como sendo parte da Bíblia. A Bíblia para os cristãos são os Evangelhos. A Bíblia para os Judeus é a Torah. A Bíblia para os islamistas é o Corão. O Corão contém alusões a Jesus e ao judaísmo (“os povos do Livro”) e nem por isso os islamistas entram em confusões doutrinárias.
  • Por muito estranho que lhe possa parecer, os evangélicos e protestantes em geral (luteranos) levam muito em consideração o Antigo Testamento, estão constantemente a citá-lo, isto é, também não escaparam à Apologética da Alta Idade Média (1). Portanto, a sua tentativa de me colar ao protestantismo é improfícua e inoperante. O que para mim é “infalível” (no sentido de “validade”, de “coerência”) são os Evangelhos.
  • O que abriu as portas ao ateísmo foi o dogma e não a lógica. Se alguém houve que utilizou a lógica no seu tempo foi Jesus, e por ter utilizado a lógica incomodou o Poder e foi assassinado — Ele próprio sofreu a pena-de-morte.



(1) In Roman Catholicism, apologetics refers to the defense of the whole of Catholic teaching. Apologetics has traditionally argued positively to quell believers’ doubts and negatively against opposing beliefs to remove obstacles to conversion. It attempts to take objections to Christianity seriously without giving ground to skepticism. Biblical apologetics defended Christianity as the culmination of Judaism, with Jesus as the Messiah. In the 2nd and 3rd centuries a number of Christian writers defended the faith against the criticisms of Greco-Roman culture, and in the 5th century St. Augustine wrote his monumental City of God as a response to further criticisms of Christianity following the sack of Rome in 410. (Britannica Concise Encyclopedia: apologetics)

7 comentários »

  1. Cristo afirma peremptoriamente que não vem revogar a lei (a lei mosaica) mas completá-la, aperfeiçoá-la. Confirmar no “Jesus de Nazaré”, de S.S. Bento XVI: “A «Torah do Messias» é totalmente nova, diferente; mas precisamente assim «leva à perfeição» a Torah de Moisés.” (ed. A Esfera dos Livros, p.141)

    Não há Novo Testamento sem Antigo.

    Isto relativamente aos seus primeiros parágrafos. Quanto ao terceiro, completamente de acordo.

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    Comentar por AAC — Sexta-feira, 8 Agosto 2008 @ 7:56 pm | Responder

  2. Ter em consideração a Lei de Talião, como consta do Antigo Testamento, é incompatível com os Evangelhos. Considerar que não há Novo Testamento sem o Antigo, no sentido de inclusão, é um absurdo.

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    Comentar por O. Braga — Sexta-feira, 8 Agosto 2008 @ 8:08 pm | Responder

  3. Porque veio com Cristo o Mandamento do Amor. Mas a história da salvação começa com o povo da primeira aliança.

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    Comentar por AAC — Sexta-feira, 8 Agosto 2008 @ 8:53 pm | Responder

  4. Meu carro AAC: se quiser conversar comigo sobre Teologia, terei todo o gosto, mas temo que este espaço seja exíguo. Mas vamos lá.

    A religião de Javé, que deu origem ao monoteísmo, não era em si um monoteísmo. O nomadismo das tribos judaicas coevas não permitia a criação de instituições religiosas diferenciadas, como, por exemplo, sacerdócios, embora fosse possível, como demonstram as comparações com culturas semelhantes, a existência de “videntes” que sondavam e transmitiam o conselho ou a vontade da divindade em determinadas situações. Há muitas razões para supor que cada clã judaico venerasse apenas uma divindade — praticavam um monoculto ou uma monolatria — visto que a criação e a transmissão de um panteão exige a criação e a transmissão de mitos específicos e diferenciados, que permitem distinguir os deuses e não havia condições para tal (devido ao nomadismo), e Javé foi uma das divindades e a única que, mais tarde, se afirmou e se generalizou.

    A “ética” ou as “convicções relativas à justiça” (que ainda não se distinguiam da primeira) destas tribos eram marcadas pelos valores nómadas, por exemplo, a hospitalidade ou o direito de vingança, bem como à vingança de sangue — a única execução possível da justiça, em contexto nómada.

    Jesus Cristo, neste contexto — o monoteísmo judeu como consequência da evolução histórica da monolatria nómada inicial — não poderia dizer outra coisa do que dizer que vinha “complementar” a religião existente. Seria estúpido que Jesus dissesse coisa diferente.

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    Comentar por O. Braga — Sexta-feira, 8 Agosto 2008 @ 9:12 pm | Responder

  5. Orlando, estoy de acuerdo contigo en gran parte. Hablar de cultura judeo-cristiana es una concesión sospechosa. Pero, en cuanto a la pena de muerte, la alternativa es ver cómo asesinos etarras acaban viviendo al lado de las víctimas. Está pasando en España.

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    Comentar por AMDG — Sábado, 9 Agosto 2008 @ 8:25 am | Responder

  6. AMGD: em Portugal, o máximo de prisão é de 25 anos, mas em Espanha é ainda mais. Se os criminosos e homicidas são libertados mais cedo e antes de cumprir a pena, a culpa é dos políticos que lhes dão os indultos. A minha opinião é de que, para além do aspecto ético, a pena-de-morte não resolve problemas políticos.

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    Comentar por O. Braga — Sábado, 9 Agosto 2008 @ 8:48 am | Responder

  7. […] Com esta me calo Arquivado como: Religare — O. Braga @ 6:41 pm Tags: A vida custa, catolicismo, cristianismo, filosofia, Igreja Católica, Justiça, pena-de-morte, religião, vida Para mim, o facto de um católico defender a pena-de-morte é equiparável a um vegetariano que come carne de porco. Não nos percamos em divagações e manobras de diversão. Não vamos extender a conversa para áreas que não estavam inicialmente em discussão; manobras ideológicas de tipo dilatório só servem para nos descentrar da questão principal a que me referi aqui. […]

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    Pingback por Com esta me calo « perspectivas — Quinta-feira, 14 Agosto 2008 @ 6:41 pm | Responder


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