perspectivas

Sexta-feira, 8 Agosto 2008

Fernando Pessoa e a Segurança na Sociedade

Eu devo confessar que sinto muitas dúvidas sobre se tudo teria sido feito pelos agentes da autoridade para que ninguém tivesse sido morto na operação policial de ontem. Penso que seria possível terem saído todos com vida, e os assaltantes seriam apanhados mais tarde num café em Montegordo, ou comendo tapas na Diagonal de Barcelona, ou bêbedos na Bierfest em Munique (1). A morte “in loco” revela a fraqueza da União Europeia em matéria de prevenção e controle da segurança no espaço Schengen, é sinónimo de que o Tratado de Schengen não funciona de forma a garantir uma segurança racional dos Estados e das nações.
Não conheço os detalhes das negociações entre a polícia e os assaltantes, mas mesmo assim mantenho as minhas dúvidas.

Hoje vou falar sobre o conceito de Fernando Pessoa sobre ordem e segurança. Nas suas obras em prosa, Pessoa critica o conceito comtista (Augusto Comte) de Ordem e Segurança.

“Evidentemente que por “ordem” os seus defensores não entendem a mera ordem material e ostensiva, aquela que a polícia guarda. Entendem a ordem nos espíritos também, a disciplina íntima de onde resulta o bom funcionamento, físico como psíquico, da engrenagem social. Eles compreendem, de resto, que não há ordem só material, que é nos espíritos que a ordem começa.”

Aqui, Pessoa critica os defensores extremistas (comtistas) da ordem e da segurança como defendendo não só a ordem de guarda policial, como a ordem dos espíritos, a ordem psíquica, isto é, Pessoa critica a ideia de uma ordem que antevê e procura um totalitarismo.

A ordem é nas sociedades o que a saúde é no indivíduo. Não é uma coisa: é um estado. Resulta do bom funcionamento do organismo, mas não é esse bom funcionamento. (…) Na sociedade, semelhantemente: quando aparece a desordem, a sociedade sã procura logo, não manter a ordem, que pode ser provisória e aparente, mas atacar o mal que produziu a desordem. A exclusiva preocupação com a ordem é um morfinismo social.
(…)
No indivíduo, a constante preocupação com a saúde é um sintoma de neurastenia, ou males psíquicos mais graves ainda. Na sociedade, paralelamente, a preocupação da ordem é uma doença de espírito colectivo.

O que se está a passar na nossa sociedade é exactamente aquilo que Fernando Pessoa criticou nos defensores do comtismo securitário do seu tempo (defesa comtista da “ordem” que desembocou no Salazarismo). A História não se repete, mas a essência das coisas existe independentemente daquela. O que assistimos ontem em directo pela TV é próprio de um Estado securitário com altos índices de totalitarismo comtista (científico, no seu pior sentido).

Fiquei com a sensação de que a exibição policial de ontem tem uma intenção, quis passar uma mensagem claríssima: “Cuidado! cidadãos deste país: hoje foi abatido um assaltante armado, amanhã será um delinquente que rouba um pão para comer”. Pode ser só sensação minha; queira Deus que assim seja.

(1) Bastava que polícia tivesse colocado um sinalizador GPS no carro que permitisse a fuga aos assaltantes.

(textos de Pessoa tirados de “O Preconceito Tradicionalista”)

7 comentários »

  1. Infelizmente acho que a sua sensação acabará se confirmando! Pessoa sabia do que falava. Continuamos com a mesma ….., só mudaram as moscas!

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    Comentar por Delfina — Sexta-feira, 8 Agosto 2008 @ 6:51 pm | Responder

  2. Esta «filosofia» foi importada do Brasil, o filme «Tropa de Elite» defende claramente que as forças de manutenção da ordem devem agir sem contemplações. Há uma orquestração «global» em marcha que não sabemos onde vai desembocar, que diacho, as grandes empresas precisam de segurança para actuar. E creio que o mais grave é que parece que tudo está a servir de pretexto para generalizar a video-vigilância, o tele-ecrã de Orwell.

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    Comentar por Henrique — Sábado, 9 Agosto 2008 @ 11:41 am | Responder

  3. devem estar a brincar com estes comentarios…a policia tem de matar , se nao ainda eles tomam conta de tudo..olhem o que aconteceu no Brasil quando acabaram com a policia especializada em abater bandidos..é essa a democracia que vivemos,,entao vivam voces por que eu nao a quero,,

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    Comentar por mauricio — Sábado, 9 Agosto 2008 @ 9:24 pm | Responder

  4. Fernando Pessoa escreveu: “Na sociedade, semelhantemente: quando aparece a desordem, a sociedade sã procura logo, não manter a ordem, que pode ser provisória e aparente, mas atacar o mal que produziu a desordem.”

    É verdade que a polícia tem que matar quando e sempre que o mal que produz a desordem não é atacado; o facto de se manter a ordem, matando, é um “morfinismo social”, não resolve coisa nenhuma.

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    Comentar por O. Braga — Domingo, 10 Agosto 2008 @ 2:42 pm | Responder

  5. […] Parece que Fernando Pessoa afinal tinha razão. […]

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    Pingback por Nauseabundo « perspectivas — Segunda-feira, 11 Agosto 2008 @ 12:56 am | Responder

  6. […] as almas que, sedentas de sangue e de vingança, se sentem agora mais seguras e confiantes na ordem “comtista”; tratou-se de uma espécie de circo romano na era do Big […]

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    Pingback por Directo e sem rodeios: desembrulho! « perspectivas — Segunda-feira, 11 Agosto 2008 @ 5:57 pm | Responder

  7. […] Não tem discussão possível que a morte pela GNR do rapaz que acompanhava adultos desarmados num roubo de material de construção civil, é desproporcionada, embora a lei penal preveja a situação de crime para quem induza um menor em situação de ilegalidade. Não me surpreende que a GNR o tivesse feito, e a partir de agora estes casos vão se reproduzir, porque existe um claro sinal político do governo socretino de índole securitário (ler Fernando Pessoa e a Segurança na Sociedade). […]

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    Pingback por Estamos metidos num colete de varas « perspectivas — Quinta-feira, 14 Agosto 2008 @ 8:38 pm | Responder


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