perspectivas

Terça-feira, 22 Julho 2008

Thomas Huxley estava errado (5)

«Não é absurdo acreditar que a era da ciência e da tecnologia é o princípio do fim da humanidade; que a ideia de um enorme progresso é uma ilusão, bem como a ideia de que a verdade será finalmente conhecida; que nada há de bom ou desejável no conhecimento científico e que a humanidade, ao procurá-lo, está a cair numa armadilha. Não é de modo algum óbvio que as coisas não sejam assim.»

Ludwig Wittgenstein ― “Cultura e Valor”, página 86, ISBN 9724409104, Edições 70

Depois de Darwin e Huxley, a Humanidade entrou numa fase ainda mais sinistra do que a que tinha vivido com a Inquisição medieval. Podemos, aliás, estabelecer alguns paralelos epistemológicos entre o materialismo filosófico e a Inquisição católica, entre eles a afirmação absolutista do determinismo em relação ao ser humano, isto é, a ausência do livre alvedrio. Tanto o materialismo filosófico como o dogmatismo inquisitorial assentam num totalitarismo intrínseco, na ideia de que o ser humano não é livre. No fundo, do que saiu do Iluminismo ― com o positivismo, o empirismo e com o materialismo ― foi uma outra maneira de ver o totalitarismo como forma sagrada de organização social.

…em vez
de se afastar da religião, a ciência encontra caminhos
de comunhão com as religiões…

Com o Iluminismo surgiu o determinismo ambiental ― a ideia de que o ser humano é algo exclusivamente manipulável pelo meio-ambiente e pela educação; esta ideia já vinha de trás, engendrada pelos estóicos através da crença de que o ser humano é uma “tábua-rasa” quando nasce. Mais tarde surgiu o determinismo biológico: os novos filósofos defendiam a tese ― ferida de morte por uma lógica circular ― de que 1) a ciência é definida como sendo determinista e 2) a ciência não aprova a ideia de liberdade do ser humano (determinismo científico); primeiro define-se a ciência como excluindo a liberdade na natureza, para depois se dizer que a ciência não aprova a ideia de liberdade do ser humano.
Com o determinismo biológico inaugurado por Darwin e Huxley, as características do ser humano passaram a ser determinadas também pela sua herança genética. Todas as ideologias políticas que estiveram por detrás dos morticínios em massa a que assistimos no século 20 se basearam na ideia do determinismo biológico e ambiental aplicado ao ser humano, isto é, no materialismo, no ateísmo científico, na ausência do espírito humano individualizado e de Deus. O indivíduo deixou de ter importância e só a espécie passou a ser importante, o que passou a justificar todo o tipo de atrocidades e monstruosidades em nome da alegada “evolução da espécie”.

Com o determinismo científico aplicado ao ser humano, a humanidade passa a ser uma massa anónima irresponsável que necessita de uma liderança científica e elitista (Nietzsche). Marx leu Nietzsche (entre outros “filósofos modernos” do seu tempo) e concluiu que, segundo a teoria do determinismo ambiental, o ser humano é totalmente dependente das condições económicas em que vive; pensou Marx que se se mudasse as condições económicas (propriedade privada), a natureza humana mudaria também. O resultado está à vista: é totalmente impossível mudar a natureza humana desta forma (a não ser que acabemos com a raça humana). A única forma de equilibrarmos a humanidade, evitando um descalabro a nível global, é através do recurso aos valores espirituais do Homem e constatando que o ser humano é livre de fazer escolhas.

«A doutrina segundo a qual o mundo é formado por objectos cuja existência é independente da consciência humana revela estar em desacordo com a mecânica quântica e com os factos estabelecidos através da experiência.»

Bernard D’Espagnat, físico quântico.

A ciência ― que foi ideologicamente sacralizada a partir do Iluminismo e até hoje ― parte de premissas determinísticas. Mesmo com as descobertas da Física quântica, no início do século 20, que contrariam claramente o determinismo na natureza, os filósofos da ciência do materialismo fizeram “ouvidos de mercador” e continuaram (ainda hoje) a defender a sacralização da ciência nos mesmos termos que Augusto Comte o fez. Os filósofos materialistas entraram num autismo total.

A Física quântica veio dizer-nos que os determinismos biológico e ambiental simplesmente não existem numa forma dogmática e absolutista ― “princípio da incerteza” de Heisenberg ― e que são simples reflexos do universo quântico (“espuma quântica”). Não existe determinismo, mas probabilística; pode ser provável que algo aconteça, mas não é certo que alguma coisa aconteça, porque mesmo o nosso empirismo científico é baseado e sujeito à imponderabilidade da ondulação quântica.

As nossas leis da Física passam a ser uma consequência da probabilidade quântica, e não definem uma causa para os fenómenos. Esta visão científica é revolucionária, e em vez de se afastar da religião, a ciência parece encontrar caminhos de comunhão com as religiões superiores.

Para além da influência ambiental e biológica, a Física quântica introduziu a componente da “consciência” ― traduzida pela ideia de “ondulação quântica” ― na correlação de factores que moldam o ser humano, e em nenhum destes factores existe um determinismo, mas simples possibilidades ou probabilidades. Para ilustrar esta ideia, vou falar na ideia de “conexão de quântica” que se opõe ao “princípio da separabilidade” de Einstein e Podolsky.

Segundo Einstein ― que tentou desmistificar assim a quântica ― quando dois objectos (que podem ser sujeitos) interrompem o contacto (ou comunicação) entre si, deixam de poder afectar-se um ao outro, isto é, o que quer que aconteça isoladamente a um desses objectos, esse facto não pode influenciar o comportamento observado do outro objecto. A Física quântica demonstra exactamente o contrário da opinião de Einstein: as observações feitas sobre um dos objectos afectam os resultados observados noutro objecto que esteve anteriormente em contacto com o primeiro, mesmo que esses dois objectos já não se encontrem em situação de qualquer contacto físico. Segundo os físicos teóricos, este fenómeno de inter-influência sem contacto físico aparente é realizado através da “conexão quântica” ― através da ondulação quântica mais rápida do que a luz (ver “taquiões”).

Contudo, e dado que as ondas quânticas descrevem probabilidades, e não realidades determinísticas, torna-se impossível controlar essa “conexão quântica”, isto é, não podemos ter absoluta certeza de que ela ocorre em todos os casos de inter-conexões entre objectos (ou sujeitos), exactamente porque tudo depende do “grau de consciência” (de que falarei a seguir) dos objectos ou sujeitos.

(A continuar)

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