perspectivas

Quinta-feira, 10 Julho 2008

Thomas Huxley estava errado (1)

“Não devia depender da nossa escolha quais as quantidades que são observáveis, mas essas quantidades deveriam ser dadas, deveriam ser-nos indicadas pela teoria.”

― Albert Einstein

O Novo Ateísmo naturalista, que nos afiança que nada mais existe do que a matéria atómica e que o nosso pensamento é fruto dos átomos que constituem as propriedades neuro-fisiológicas (a estrutura dos neurónios e o “Epifenomenalismo” de Thomas Huxley e Darwin) é a maior fraude consentida pela ciência, e que se reforçou a partir do momento em que o darwinismo (segundo Dawkins) foi admitido ― com todos os seus elos perdidos e metodologias falhadas ― como fazendo parte do sentido da formação primordial do Universo. Qualquer físico quântico e/ou um matemático contemporâneo sabem que Richard Dawkins é um charlatão que tem vendido muitos livros, ao mesmo tempo que atestam que as religiões em geral são sínteses de formas primitivas de antever o que se perscruta como sendo a realidade científica, filosófica e religiosa.

Até há pouco tempo, tanto o militante religioso ortodoxo como o ateu religioso militante, cada um à sua maneira, acreditavam que o universo e os nossos pensamentos eram coisas distintas, mas os quânticos demonstram que o que idealizamos e visualizamos é exactamente aquilo que vemos, isto é, os nossos pensamentos estão relacionados ― a um nível básico mas essencial ― com o modo como o mundo se nos revela. Contudo, a relação entre “pensamento” e “realidade” é de tal modo marcada por uma subtileza endógena que não podemos dizer que um determinado objecto físico que nos rodeie seja constituído por átomos, porque só a partir do momento em que procuramos os átomos nesse objecto é que podemos dizer que eles existem.

Note-se que quando se fala aqui em “nossos pensamentos”, quer-se dizer literalmente “consciência universal” ou “mente universal”; os nossos pensamentos fazem parte do que se convencionou chamar de “consciência universal”. Mais adiante abordarei o conceito de “consciência universal” (o espaço-tempo não me permite proceder de outra forma).

“A imaginação é mais importante do que o conhecimento.” ― Albert Einstein

A verdade é que os átomos de um determinado objecto não possuem contornos definidos e só os podemos “ver”, de uma forma exacta, se executarmos determinadas experiências que destroem o objecto em análise. Segundo a Física Quântica, nenhum objecto possui contornos bem definidos.

Se conseguirmos imaginar um objecto físico ― por um fortuito momento ― como existindo independentemente de nós próprios (“nós”, no sentido de nossa “consciência”), constataríamos que os seus contornos se tornariam indistintos, sendo porém que essa indistinção só se tornaria evidente ao fim de muito tempo: seriam precisos mais de 10 milhões de anos para que o nosso objecto se desvanecesse completamente (isto independentemente, e se não existisse, a transmutabilidade inerente ao espaço-tempo). Porém ― dizem os físicos teóricos ― o caso de um átomo isolado é diferente: de tão pequeno que ele é, ele demora apenas uma pequeníssima fracção do nosso tempo a desvanecer-se na “indistinção” (energia primordial), até ao momento em que nós (consciência universal) o observássemos, momento esse em que ― dependendo do tipo de experiência que estivesse a ser realizado ― o átomo voltaria ao seu tamanho original (1).

Podemos imaginar que sem a nossa presença (no sentido de “consciência”) todos os átomos do universo começariam a dissolver-se a um ritmo alucinante, e somos nós (“consciência universal”), ao não procurarmos esses átomos de muito perto (ao deixarmos a natureza fluir sem interferência directa da “consciência”) que lhes permitimos fundirem os seus contornos o suficiente para formarem os objectos físicos. É neste sentido que os físicos teóricos dizem que os átomos só existem a partir do momento em que os procuramos, e pela mesma razão dizem que o universo físico não existiria sem os nossos pensamentos (consciência universal) sobre esse universo. Sem as nossas observações e pensamentos acerca de um determinado objecto, esse objecto se desvaneceria na dimensão da dissolução, embora nenhum ser humano pudesse ficar à espera 10 milhões de anos para que isso acontecesse…mas existe, certamente e por dedução, uma outra parte dessa “consciência universal” que poderia esperar os 10 milhões de anos do nosso tempo, ou uma eternidade à nossa escala.

Os físicos quânticos também chamam a esta imprecisão o “princípio da incerteza” (Heisenberg). Este princípio diz que não podemos conhecer simultaneamente tanto a posição como o percurso de um qualquer objecto em movimento ― e todos os objectos estão em movimento. Ao determinarmos a posição de um determinado objecto com perfeita exactidão, deixamos de saber o seu percurso, e vice-versa. Por isso, por mais exactas, precisas e arrogantes que possam ser as observações e conclusões do zoólogo Richard Dawkins, o universo é algo de incerto e cuja existência depende da “consciência universal” que inclui os nossos pensamentos.

O mundo é construído pela mente, e o universo não seria o mesmo sem a “consciência universal” de que fazemos parte ― mas que existe ainda para Além de nós e dos Universos (2) ― por via dos nossos pensamentos. Thomas Huxley estava profundamente errado.

A auto-construção

“Nada há a esperar de qualquer especulação que à primeira vista não pareça louca.”

― Freeman Dyson

Podemos (e devemos) aplicar o “princípio da incerteza” de Heisenberg ao ser humano e às relações humanas.

O ser humano é o resultado da genética, mas também da construção que ele dele próprio (e dos outros) faz através do seu pensamento, seja individualmente, seja colectivamente como soma das individualidades. Em certo sentido, a genética também é consequência da consciência inter-geracional ― o pensamento que vai atravessando várias gerações no espaço-tempo ― e a herança genética e a mente estão intimamente ligadas, embora não exista uma estrita relação causal entre a herança genética e o pensamento do indivíduo, antes operamos numa área de probabilística ― existem maiores ou menores probabilidades de que determinada pessoa, em função da sua herança genética, seja passível de se auto-construir dentro de um determinado padrão de pensamento.

A forma como nos revelamos a nós próprios e uns aos outros é determinada por aquilo que nós pensamos sobre nós próprios e sobre os outros. Naturalmente que factores genéticos ganham alguma importância, mas não tanta quanto é defendida por alguns ideólogos da biologia ortodoxa, e só no sentido da “consciência genética” como património comum de uma descendência dentro do espaço-tempo. O processo de auto-construção processa-se no espaço-tempo, não é instantâneo, e aquilo que nós somos foi meticulosamente construído pelo pensamento. Se eu alterar o meu pensamento sobre mim e sobre a minha melhor amiga, altero os dois (a mim e a ela), embora a minha amiga tenha mais a definir sobre ela própria do que eu. É aqui que se aplica o “princípio da incerteza” de Heisenberg nas relações humanas.

A “complementaridade” (1) está presente nos relacionamentos humanos, porque existem sempre dois modos complementares de construir a realidade ― se observarmos a realidade de um dos modos, o outro não será definível, e no caso dos átomos, por vezes dizemos que existe uma complementaridade “onda-partícula”; quando um átomo se manifesta como “onda”, e sempre secundado por outros átomos, ele nunca se manifesta como uma partícula, e vice-versa. Se eu atravessar uma boa fase no relacionamento com a minha melhor amiga, não se notará uma separação entre nós os dois, existindo até uma sintonia no pensamento. Mas se atravessarmos uma má fase de relacionamento, eu irei reparar nas diferenças de mim em relação a ela. Numa e noutra situação assistimos ao fenómeno da complementaridade atómica aplicada ao ser humano e ao pensamento. Assim, toda a matéria apresenta este modo aparentemente paradoxal de existência, em que a “complementaridade atómica” e o “princípio da incerteza” se manifestam a todos os níveis. Contudo, estas características não são intrinsecamente atómicas, isto é, não têm origem nos átomos em si, mas na construção do pensamento para Além do tempo e do espaço onde a consciência (universal) percebe-se a si própria.

Quando o povo diz que “o pensamento pode matar” ou fala em “mau olhado”, não andará longe da verdade, porque a forma como nós olhamos para as coisas afecta muito subtilmente aquilo que olhamos, e a forma como olhamos os outros e a nós próprios transforma-nos continuamente em algo de novo. Nas religiões, a oração nada mais é do que a tentativa ― nem sempre conseguida ― de sublimação do pensamento em formas positivas de influência sobre nós próprios e sobre os outros (complementaridade “onda-partícula”); os psico-terapeutas tentam fazer o mesmo, com outros métodos.

(continua noutro postal, para não cansar quem lê e quem escreve; a dúzia de livros que serviu de bibliografia para consulta será anotada no fim)

(1) Na Física, chamam de “complementaridade” a um método duplo que consiste em determinar o comportamento de um átomo, que pode comportar-se como uma onda ou como uma partícula; aos dois métodos complementares para determinar o comportamento de um átomo, chamou-se de “complementaridade”.
(2) Panenteísmo.

6 comentários »

  1. Interessante…muito interessante…espero a continuação.

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    Comentar por Victor Rosa de Freitas — Quinta-feira, 10 Julho 2008 @ 11:58 pm | Responder

  2. Corroboro opinião de Víctor Rosa de Freitas. Faço apenas um pequeno reparo no que respeita ao princípio de incerteza: não é posição e “percurso” mas posição e velocidade, se bem que a velocidade determine o percurso ou posições seguintes, os físicos (matemáticos) são muito picuinhas.

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    Comentar por Henrique — Sexta-feira, 11 Julho 2008 @ 9:17 am | Responder

  3. Henrique: Estou a tentar escrever para que muita gente entenda… 🙂

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    Comentar por O. Braga — Sexta-feira, 11 Julho 2008 @ 10:23 am | Responder

  4. […] No postal anterior vimos como o princípio físico da “complementaridade” se aplica às relações humanas e ao pensamento, e como a matéria se dissolveria na indistinção do olvido se não existissem as observações e pensamentos da “mente universal” ― de que fazemos parte ― acerca da matéria atómica. Vimos também o processo de auto-construção do pensamento humano, que está ligado à consciência universal onde a nossa consciência se percebe a ela própria. Sendo que o método de construção do nosso pensamento tem origem antes da materialização da matéria, não faz nenhum sentido falar-se de sequências temporais. […]

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    Pingback por Thomas Huxley estava errado (2) « perspectivas — Sexta-feira, 11 Julho 2008 @ 11:15 pm | Responder

  5. […] sequência de postais (parte I, parte II), tem-se propositadamente evitado falar em “Deus”, porque tradicionalmente (e […]

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    Pingback por Thomas Huxley estava errado (3) « perspectivas — Sábado, 12 Julho 2008 @ 12:25 pm | Responder

  6. […] Quântica Vácuo quântico Aquilo que escrevi numa série de postais com o título genérico “Thomas Huxley estava errado” confirma-se: Matter is built on flaky foundations. Physicists have now confirmed that the […]

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    Pingback por A “matéria” é simples “flutuação” de partículas no vácuo quântico « perspectivas — Sexta-feira, 28 Novembro 2008 @ 5:43 pm | Responder


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