perspectivas

Sexta-feira, 4 Julho 2008

A crítica das religiões ― uma opinião

A crítica sistemática à religião surgiu na Europa cristã, principalmente com o advento do Iluminismo, e não aconteceu noutros continentes e em outras religiões (pelo menos com os mesmos contornos). Provavelmente, a razão porque o ateísmo soteriológico se instalou na Europa estará ligada a uma maior tolerância do Cristianismo em relação à crítica do que a manifestada por outras religiões e culturas.

Nem todos os chamados “iluministas” foram contra o Cristianismo (Kant não foi), mas quase todos os iluministas manifestaram um anti-teísmo que se confundiu, muitas vezes, com um anti-clericalismo feroz ― mas nem por isso a elite iluminista deixou de ser religiosa. Augusto Comte, por exemplo, fez do Positivismo uma espécie de religião monista.

A crítica da religião que se desenvolveu a partir do Iluminismo resultou no surgimento de perspectivas religiosas como alternativas seculares que enfraqueceram o nível de individualização do ser humano (como aconteceu com o Modernismo) dando azo a que questões próprias do indivíduo ― a doença, a culpa, a morte, etc. ― passassem a ser abordadas como tabu ou tivessem recebido uma solução niilista.

Na esteira de Espinoza seguiram os iluministas que deram depois origem a Feuerbach, Nietzsche, Engels, Marx ― todos eles construiriam alternativas religiosas monistas ao monoteísmo cristão. O panteísmo de Espinoza é um monismo que desembocou no naturalismo soteriológico iluminista: a nova religião da “não-religião” ― que era sempre conforme a razão subjectiva de cada um dos novos gurus que se pretendiam basear em conhecimentos comprováveis para justificar a sua nova utopia. De certo modo, com o Iluminismo aconteceu um retrocesso na evolução religiosa (decadência), uma vez que o monismo é historicamente anterior ao monoteísmo.

As religiões monoteístas (Cristianismo, Islamismo e Judaísmo ― e a religião Bahai também é um monoteísmo sincrético) baseiam-se na “revelação transcendental”, enquanto que as religiões monistas perfilham o conceito de “conhecimento sagrado” mais ou menos aliado a um panteísmo naturalista. O Confucionismo e o Taoísmo são monismos. Para além dos monismos e dos monoteísmos, existem religiões panenteístas, como o Siquismo e o Budismo moderno com a sua conjugação de Samsara e Nirvana. Finalmente, temos as religiões dualistas, como o Parsismo e o Hinduísmo. Contudo, o dualismo está mais ou menos presente nos outros tipos de religião, e o Cristianismo distingue-se das outras religiões monoteístas pela existência da Trindade (Deus, Logos e Espírito), herdada do grego Plotino (neoplatonismo) e consagrada por S. Agostinho (ele próprio um dualista).

O que o Iluminismo fez foi tentar substituir ― através de uma elite intelectual controlada pela seita maçónica dos Illuminati ― o monoteísmo cristão por monismos seculares prenhes de manifestações religiosas. O materialismo moderno é a forma radicalmente secular do monismo. As utopias radicais modernas são fórmulas religiosas monistas que traduzem novas doutrinas da salvação da humanidade, mas como em todos os monismos não existe um Deus pessoal que possa comprometer o indivíduo, as tentativas de criação do Homem Novo acabam por cair num niilismo, não abrindo qualquer perspectiva de esperança humana.

Embora criticada pelos diferentes monismos utópicos seculares, o Cristianismo continua a desempenhar um papel fundamental (embora mais discreto) na Europa actual em campos em que a religião revelada é competente ― por exemplo, a questão do sentido ― de forma tal que não é de esperar o fim das religiões no futuro, conforme apregoado e defendido pela soteriologia ateísta.

Imagem daqui.

1 Comentário »

  1. Artigo super interessante,tudo o que eeu busquei encontrei aqui.
    Fácil de entender.
    Deus abençoe vocês!!!
    Fuiiiiiiiiiiiiiii

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    Comentar por Aliá Tavares — Sexta-feira, 4 Dezembro 2009 @ 5:20 pm | Responder


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